ALGUMAS NOÇÕES DO PENSAMENTO FREUDIANO: DO ÉDIPO À PULSÃO DE MORTE – por Lívia Machado Silva e Fernanda Canavêz Magalhães

ALGUMAS NOÇÕES DO PENSAMENTO FREUDIANO: DO ÉDIPO À PULSÃO DE MORTE - por Lívia Machado Silva e Fernanda Canavêz Magalhães

Para falar sobre a esquizoanálise, é preciso revisitar alguns conceitos e noções do pensamento freudiano, entendendo que a leitura extrapola uma única possibilidade de leitura, abrindo-se ao seu aspecto múltiplo. A abordagem esquizoanalítica permite questionar o caráter universal dos conceitos da psicanálise, enaltecendo, assim, a possibilidade de apreendê-la a partir da multiplicidade de entendimento da psicanálise, o que permite questionar o caráter de sua universalidade. O próprio Freud complexifica sua posição frente aos conceitos e postulados da sua produção clínico-conceitual inúmeras vezes, o que se reproduz em diversas e longas notas de rodapé. Mas não era apenas a técnica e os conhecimentos de Freud que se modificavam, e sim o contexto no qual ele estava inserido foi marcado por conflitos, mudanças sociais, econômicas e políticas que influenciaram o desenvolvimento do seu pensamento em relação ao modo como compreendia o sujeito e a sociedade.

Segundo Neri (2003), ao ler a obra freudiana é imprescindível ter em mente que ela assume inúmeras possibilidades de discurso e que também pelo fato dela não ser uma ciência, não existe uma verdade única a qual se busca desvendar. O pensamento freudiano sofre modificações e isso contribui para suas diversas formas de interpretação. Esse fator reforça até hoje o caráter múltiplo do movimento psicanalítico em oferecer diversas perspectivas e tradições (CANAVÊZ DE MAGALHÃES, 2012). Essa multiplicidade nos auxilia a questionar o ‘caráter’ universal do discurso freudiano e a necessidade de contextualizá-lo.

Freud inicia seus estudos mais próximos da temática histérica nos anos de 1885 e 1886 sob supervisão de Charcot3, momento em que tem seu primeiro contato com a hipnose, técnica que estava em expansão e era muito utilizada por médicos na época. Já em 1887, Freud se encontra com Breuer4 e junto deste presencia um dos primeiros casos fundadores de sua teoria, o caso Anna O. (FREUD, 1895). Além disso, a parceria dos dois deu ensejo a diversos conceitos e métodos que seriam depois lapidados por Freud, como, por exemplo: o método catártico, a cura pela palavra, o trauma, a conversão, entre outros.

Nesse período, a Europa estava passando por um processo de transformações nos campos político, econômico e social. De acordo com Cruz (2011), após a perda da guerra franco-prussiana, a França vê seu poder bélico e industrial declinar causando um caos na estrutura político-econômica. Outros países, como a Alemanha, berço de escolas importantes para a Psicologia, Leipzig, por exemplo, passam por uma unificação do Estado que traz um avanço em nível tecnológico tanto nas cidades quanto na área rural e também uma crescente população operária nos grandes centros industriais. Nota-se que os países que foram berço de grandes teorias, inclusive no campo da psicologia e da psicanálise, passavam por uma reestruturação que não se limitava às mudanças macro – entendido aqui como as mudanças de ordem político-econômicas –, mas principalmente, surge a necessidade de engendrar um modelo de cidadão no interior da sociedade: o cidadão moderno.

O que estamos chamando de “moderno”? Em primeiro lugar, não há um consenso em relação à circunscrição deste período entre os teóricos. No entanto, neste trabalho será adotado como um período de transformações no pensamento ocidental iniciado no século XVI devido a uma ruptura com o pensamento medieval. Nesse processo, o homem passa a ser o centro e a razão o fio condutor para o progresso. O Renascimento, a Reforma Protestante, as navegações e, posteriormente, as Revoluções Francesa e Industrial, são exemplos da ação desse ‘novo’ homem racional e do seu poder dominador.

A modernidade é a época em que a alma se retira do mundo das coisas e recolhe-se no mundo dos homens, bem como a época em que os homens se acreditam suficientemente fortes e poderosos, qual um novo Prometeu, se não para elevarem-se contra a divindade e se imporem aos deuses, menos para prescindirem de sua proteção e dispensarem seus serviços. (DOMINGUES, 1991 apud CRUZ, 2011, p. 35).

Freud, em seus estudos para formular a psicanálise, ocupou-se, sobretudo, da família nuclear burguesa, que, segundo Donzelot (1986, p.47), representou um “retraimento tático” dos seus membros e da aliança com os discursos e práticas médicas que estavam pela primeira vez percorrendo o cenário privado. É válido lembrar, de acordo com Foucault (1982), que as práticas disciplinares5 ganham na modernidade o caráter de classificar os indivíduos, da mesma forma que os controla tornando a estrutura familiar como representante do olhar do Estado sobre os mesmos dentro de suas próprias casas. Os papéis se modificam, a figura feminina é responsabilizada pela ‘boa’ formação em termos morais e comportamentais das famílias burguesas mediante cuidado dispensado na função materna. A noção de infância recebe uma atenção especial, tendo em vista que a preocupação com essa fase poderia garantir um cidadão mais sadio e produtivo para a sociedade nascente. Assim como afirma Foucault (1982):

Ao problema “das crianças” (quer dizer de seu número no nascimento e da relação natalidade − mortalidade) se acrescenta o da “infância” (isto é, da sobrevivência até a idade adulta, das condições físicas e econômicas desta sobrevivência, dos investimentos necessários e suficientes para que o período de desenvolvimento se torne útil, em suma, da organização desta “fase” que é entendida como específica e finalizada). Não se trata, apenas, de produzir um melhor número de crianças, mas de gerir convenientemente esta época da vida. (p. 110).

Desse modo, a família nuclear burguesa, que fazia parte do contexto social no qual Freud estava inserido, é atravessada por uma série de transformações que atingem a vida privada. Um exemplo disso foi o discurso higienista que, segundo Donzelot (2001), associou-se às mulheres garantindo com isso uma via de intervenção no seio familiar. A família assume a função de representar a estrutura social de uma maneira próspera aliada à ordem econômica onde não poderia aparecer nenhum sinal de degeneração. Para exemplificar esse ponto, Freud escreve em seu artigo Moral sexual civilizada (1908) o quanto a saúde e a eficiência dos sujeitos seria prejudicada devido as restrições colocadas pelos ideais à época, seja por parte da medicina, que pregava um determinado modelo de saúde, ou até mesmo da religião, que restringia a sexualidade à finalidade da reprodução no seio de uma relação monogâmica. Nesse ínterim, entende-se o motivo pelo qual o caso das histerias chamava a atenção dos médicos da época, afinal, algo se processava no interior dessas famílias que não podia ser dito, senão em forma de sintomas.

Com a emergência de um Estado regulador no interior das famílias são construídas então “novas” imposições como: o ideal de mãe, ideal de mulher, a prosperidade familiar, notoriedade social devido ao poder de consumo que a configuração capitalista possibilitava, entre outras tantas características colhidas por Freud na clínica, nos faz pensar na produção de subjetividade que se instaurava naquela sociedade e seus efeitos nos sujeitos que eram alvo das novas ciências médicas. Até que ponto as histéricas e as diversas ‘desordens mentais’ que surgiam, juntamente com os discursos médicos do século XVIII/XIX, não tinham um papel específico naquela organização social?

No período do Estudos sobre Histeria (1893/1895), Freud entendia, utilizando-se do método hipnótico, que o objetivo da análise era trazer o inconsciente à consciência, reconhecendo pela consciência o fator “traumático causal que se encontrava na base dos sintomas histéricos.” (BARATTO, 2009, p. 77). Nesse momento de sua obra, o inconsciente era visto apenas como um depósito onde se alojavam as lembranças não ab-reagidas6 que eram frutos de um trauma e, com a aplicação do método hipnocatártico, chegar-se-ia à cura. Com isso, Freud aponta para etiologia da histeria calcada no trauma.

Freud abandona o uso da hipnose quando percebe que muitas histéricas ‘resistiam’ ao tratamento. Isso ocorreu de modo gradual, a partir das vivências clínicas e de estudos que permitiram a Freud a introdução de uma nova técnica, conhecida como a associação livre. Mas antes de abordar essa técnica é preciso explicar o deslocamento que Freud opera em relação ao discurso científico à época. Ele se distancia dos métodos tradicionais e, de certo modo, do discurso médico da época por conferir um estatuto de novidade a um termo que já era conhecido e utilizado no âmbito da filosofia, qual seja, o inconsciente. Ele observa nos relatos de seus pacientes que havia conteúdos de ordem aflitiva que não conseguiam ser acessados por um simples ato de vontade consciente. Freud entende, portanto, que o inconsciente estaria referido a uma parte do psiquismo que independe da consciência, cuja atuação seria capaz de explicar a resistência, portanto inconsciente, por parte das histéricas.

No que diz respeito à articulação entre a etiologia da histeria e o inconsciente, temos que a histérica investe a representação, ou seja, a ideia de braço ou de perna, por exemplo, e não o braço ou a perna como eram entendidos até então pelo modelo anátomo-fisiológico. Isto demonstra que o corpo da histeria difere do modelo de corpo orgânico/anatômico. Um exemplo está no caso Anna O., no qual Freud demarca a doença com vários sintomas e manifestações corporais, tais como:

[…] parafasia, estrabismo convergente, graves perturbações da visão, paralisias (sob a forma de contraturas) completa na extremidade superior direita e em ambas as extremidades inferiores, e parcial na extremidade superior esquerda, e paresia dos músculos do pescoço. Redução graduada contratura nas extremidades da mão direita. (FREUD, 1893-1895, p. 31).

O que podemos observar a partir dos escritos de Freud é o fato dos sintomas relatados pelas pacientes serem de diferentes ordens, muito embora todos revelassem que não havia um substrato anátomo-fisiológico, em concordância com o discurso médico em voga, capaz de explicar a sua etiologia. Isto permite inferir que a psicanálise abala a racionalidade científica dominante nos séculos XIX e XX pelo fato de postular o corpo histérico para além do corpo anátomo-patalógico previsto na medicina. A ideia de que somos algo além daquilo que apreendemos racionalmente – e, nesse contexto, a razão estava profundamente marcada pelo discurso científico – é revolucionária para a época, de modo que o corpo da histeria pôde ser tomado no sentido de questionar o que estava colocado até então pelos saberes médicos.

Freud, então, fazendo eco ao espírito de sua época, busca dar à psicanálise um caráter científico e tenta estruturar a etiologia da histeria. Para ele, a histeria consistiria em uma experiência passiva de sedução durante a primeira infância. A revivescência da mesma se torna patogênica durante a puberdade ou através de experiências sexuais ao longo da maturidade (MEZAN, 2001).

Tendo esse esquema estruturado, arriscamos dizer que Freud ficou mais atento à trama que gira em torno da família burguesa. A partir disso, ele começará a estruturar a teoria da sedução que será explicada através do complexo de Édipo. A estruturação da teoria parte do entendimento freudiano, o qual afirmava, naquele momento, uma sedução factual por parte da figura paterna em relação as suas filhas. Então, todas as histéricas teriam sido seduzidas pelo pai na infância e essa seria a base da sua histeria. O relato das histéricas assumia um aspecto fantasioso que tinha como enredo fantasias incestuosas de caráter sexual.

Em carta escrita a Fliess – Carta 64 (1888-1893) – Freud conta sobre um sonho que teve com sua filha Mathilde, no qual recebia o nome de Hella, por quem demonstrava sentimentos carinhosos. A interpretação feita por Freud o leva a pensar que, em primeiro lugar, Hella se referia aos heróis helenos da mitologia grega e que esses sentimentos ‘carinhosos’ se remetiam à sedução/conotação sexual que nutria pela filha. Ele começa então a se questionar sobre o suposto lugar do pai perverso que seduziria as histéricas na primeira infância. Em outra carta escrita a Fliess, Freud explica:

a descoberta comprovada de que, no inconsciente, não há indicações da realidade, de modo que não se consegue distinguir entre a verdade e a ficção que é catexizada com o afeto. (Assim, permanecia aberta a possibilidade de que a fantasia sexual tivesse invariavelmente os pais como tema.) (FREUD, 1893-1895, p.195).

A teoria da sedução foi abandonada por Freud, pois logo ele percebe que partindo das acusações a respeito da ocorrência de situações de sedução, não era factível que todas as histéricas tivessem passado pela mesma experiência de sedução sexual pelos seus respectivos pais. Em conformidade com esse raciocínio, Freud pensa o quanto seria pouco provável que todos os pais fossem perversos, inclusive o dele próprio. Ele desloca, então, o acontecimento traumático do campo factual para o campo da fantasia e reforça a ideia de que para a psicanálise a realidade decisiva seria a psiquíca. Esse argumento não invalida o conteúdo das manifestações clínicas que se baseavam majoritariamente nas fantasias incestuosas e que denunciavam a existência de uma sexualidade na idade infantil. Percebendo uma constante aparição da trama triangular nas famílias burguesas da época, Freud utilizará na estruturação dos seus estudos sobre a sexualidade infantil a tragédia de Sófloces7, Édipo-Rei.

Segundo Laplanche e Pontalis (1967), à definição de complexo de Édipo se atribui um:

conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta relativamente aos pais. Sob sua forma positiva, o complexo apresenta-se na história de Édipo-Rei: desejo de morte do rival que é o personagem do mesmo sexo e desejo sexual da personagem do sexo oposto. Sob sua forma negativa, apresenta-se inversamente: amor pelo progenitor do mesmo sexo e ódio ciumento pelo progenitor do sexo oposto. […] Segundo Freud, o complexo é vivido no seu período máximo entre os três e os cinco anos, durante a fase fálica; o seu declínio marca a entrada no período de latência. Conhece na puberdade uma revivescência e é superado com maior ou menor êxito num tipo especial de escolha de objeto. (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967, p. 116).

A expressão complexo de Édipo explicada acima só aparece em 1905, e está atrelada inicialmente à teoria dos sonhos afirmando a hipótese do sonho como manifestação de um desejo inconsciente. Segundo Moreira (2004), “a ideia do Édipo possibilita a superação da teoria da sedução real e lança o projeto da teoria da fantasia e da sexualidade infantil” (p. 220).

A psicanálise instaura uma conexão das relações familiares com as patologias vistas na clínica e enuncia que a constituição do sujeito se dá a partir e no interior da cena edípica. Essa afirmação rompe com a noção até então estabelecida da sexualidade como meio para reprodução, agora sendo compreendida como mais ampla do que a simples união entre genitais. Ela passa a se relacionar com o desejo, a subjetividade e seus mais variados destinos. Podemos depreender do pensamento freudiano que este se baseou no modelo familiar calcado numa supressão das inclinações sexuais, conforme exemplifica o texto Moral sexual civilizada (1908), entendida como um dos fatores para pensar sobre a etiologia das neuroses. Em consequência, era possível pensar também sobre o recalcamento, as fantasias e assim por diante.

A teoria da sedução e a estruturação do complexo de Édipo não embasavam apenas o reconhecimento da função etiológica dada às cenas sexuais e aos outros traumas, mas também: “na realidade, para Freud, esta preponderância torna-se o princípio de uma tentativa muito elaborada para explicar na sua origem o mecanismo do recalcamento” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967, p. 610).

Freud percebe que entre os sintomas histéricos e suas respectivas causas traumáticas há uma ligação simbólica. Contudo, no momento de análise, o paciente parece não recordar essas semelhanças, tendo uma aparente perda de memória. Então, para tornar os conteúdos conscientes era preciso restabelecer as relações simbólicas que estavam ‘perdidas’. Freud elabora, a partir dessas observações, a teoria da defesa que mais tarde irá se transformar na teoria do recalque, anteriormente mencionada. O recalque, de acordo com Baratto (2009), é um processo inconsciente no qual o sujeito expulsa da consciência ideias que parecem incompatíveis com as representações que faz de si mesmo. Este passa a ser compreendido como “uma operação por meio da qual as representações de desejo são inscritas no inconsciente.” (BARATTO, p. 79). E, ainda de acordo com Baratto (2009), a teoria da defesa juntamente com o processo psíquico do recalque ajudaria Freud a formular o fator etiológico desencadeante da histeria, como se pode observar pelo trecho a seguir:

O ego do paciente foi abordado por uma ideia que se mostrou incompatível, que provocou, por parte do ego, uma força de repulsão com a finalidade de defender-se da ideia incompatível. Essa defesa, de fato, foi bem-sucedida. A ideia em questão foi forçada para fora da consciência” (FREUD, 1893/1895, p.192).

No momento em que a ideia incompatível é lançada para fora da consciência, esta não é descartada, mas se mantêm recalcada no inconsciente. O retorno ou religação das conexões existentes entre os sintomas e as representações dos desejos inconscientes se dá através do método da associação livre, anteriormente citado. Cabe neste momento uma explicação mais detalhada. Neste método,

o sujeito é convidado a abandonar as resistências e a deixar-se conduzir pelos fios lógicos que ligam as representações inconscientes entre si, convidado, portanto, a produzir pensamentos inconscientes e a esforçar-se para encontrar palavras que os expressem. (BARATTO, 2009, p. 84).

A hipótese que Freud elabora percebendo a ligação entre os sintomas e o trauma foi, antes de tudo, uma aposta na tentativa de construção do método analítico e também uma maneira de tornar a psicanálise reconhecida no meio médico/científico. As suas descobertas referentes ao inconsciente mostram um sujeito que, por meio do recalque, torna evidente uma divisão e uma independência em relação à consciência.

Mas como um conteúdo pode deixar o sistema insconsciente e adentrar a consciência? Segundo Freud, como indica Baratto (2009), “o recalque recusa às representações inconscientes a sua tradução em palavras. Associar as representações inconscientes com as palavras abre a única via possível de acesso do inconsciente à consciência”. (p. 86).

Entre 1891 e 1895, Freud estrutura o aparelho psíquico como sendo formado por representações. Ele explica uma característica importante do inconsciente: a distinção entre a representação coisa que estaria ligada a imagem visual do objeto e a representação palavra ligada à acústica. (FREUD, 1891). Para ele, no inconsciente subsistem as representações coisa sem as representações palavra correspondentes e isso dificultaria a associação dos fatos traumáticos com os sintomas somáticos. Sobre a representação, Freud afirma:

É muito mais frequente o surgimento de uma representação que é um elo intermediário na cadeia de associações entre a representação da qual partimos e a representação patogênica que procuramos; ou pode ser uma representação que constitui o ponto de partida de uma nova série de pensamentos e lembranças, ao fim da qual a representação patogênica será encontrada. (FREUD, 1895, p. 193).

Na elaboração do primeiro dualismo pulsional, o psiquismo é divido em consciente e inconsciente, onde no primeiro estariam operantes as pulsões de autoconservação e no segundo, as pulsões sexuais. A energia (pulsão) que rege o aparelho psíquico se inscreve nele através das representações. De acordo com Freud, na instância consciente estariam a representação palavra, ligada à acústica enquanto na instância inconsciente estaria a representação coisa que é ligada a imagem visual do objeto. (FREUD, 1891) Por exemplo, no caso Elizabeth, a pulsão expressada na representação da perna é separada do afeto vinculado a essa representação quando ocorre o recalque.

Nesse primeiro momento, Freud aloca as pulsões de autoconservação e a representação palavra no consciente/pré-consciente, e as pulsões sexuais e a representação coisa no inconsciente. Elas não difeririam qualitativamente, todas seriam ‘iguais’. No entanto, Freud propõe uma divisão entre pulsões de autoconservação e as pulsões sexuais: “as primeiras estariam a serviço da conservação do indivíduo enquanto as últimas visariam apenas ao prazer do órgão” (GARCIA-ROZA, 2008, p. 157).

Cabe introduzirmos a noção de narcisismo para Freud, que se concretiza com o texto Introdução ao Narcisismo de 1914. Antes dessa publicação, Freud já tinha conhecimento da atuação do narcisismo, como, por exemplo, em 1911, com Schereber8 que segundo aponta Laplanhe e Pontalis: “a existência de uma fase da evolução sexual intermédia entre o auto-erotismo e o amor de objecto. O indivíduo começa a se tomar por si mesmo, ao seu próprio corpo, como objecto de amor, o que permite uma primeira unificação das pulsões sexuais.” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967, p. 365).

Nesse sentido, é importante entender que Freud se refere um tipo de princípio de conservação da energia libidinal que funciona como uma balança. Desse modo, a libido do ego e a libido do objeto funcionam de maneira que quanto mais uma absorve, mais a outra diminui no seu quantitativo libidinal, como relatado por Freud em Introdução ao Narcisismo (1914), onde ele explica quanto mais se emprega uma, mais empobrece a outra. E que a fase mais elevada de desenvolvimento a que chega esta última [libido do objeto] aparece como estado de enamoramento, ou seja, se “apresenta como um abandono da própria personalidade em favor do investimento de objeto, e tem seu contrário na fantasia (ou autopercepção) de fim do mundo dos paranoicos.” (FREUD, 1914, p. 12).

Após revisar esses conceitos e perceber que o ego também poderia ser objeto de investimento libidinal, Freud só consegue elaborar uma resposta mais estruturada a esse impasse em 1920, com Além do Princípio do Prazer, onde propõe um novo esquema pulsional: pulsões de vida (que englobam as pulsões sexuais e as de autoconservação) e pulsão de morte.

Freud já começara a observar em sua clínica a existência inegável da pulsão de morte. Fazendo uma possível leitura dos motivos que o levaram a postular tal conceito, nota-se que ele percebia que era como se os sujeitos buscassem, ainda que inconscientemente, situações de desprazer. Um exemplo paradigmático nesse sentido advinha dos relatos dos sonhos traumáticos, que evidenciavam a repetição das situações desprazerosas. Ao ouvir as nuances que essa nova situação trazia, Freud começa a pensar que esses sonhos eram destoantes com o postulado anterior sobre os sonhos serem realizações do desejo (FREUD, 1900). Qualitativamente, a energia da pulsão de morte tendia ao desligamento, à destruição; enquanto a libido da pulsão de vida buscava ligar, reunir.

A energia da pulsão de vida é a libido. Qual energia regeria a pulsão de morte? Garcia-Roza (2008) lembra que

Ele próprio [Freud] afirmara que a pulsão de morte é invisível e silenciosa, poderíamos dizer invisível e indizível. Ora, o que está fora ou para além da visibilidade e da dizibilidade, está para além da representação (visível) e da palavra (dizível), portanto, o que está para além da representação-objeto e da representação-palavra, fora do aparato psíquico e de suas determinações. Em consequência, a pulsão de morte é o que está “para além do princípio de prazer”, para além do próprio aparato psíquico. (p. 159).

Então a pulsão de morte pode ser entendida de diversas formas, uma delas é como pulsão de destruição e, por estar além da representação ou da ordem, assume uma característica de dispersão ou, como afirma Garcia-Roza (2008), “pura potência dispersa” (p.159). Esse conceito inaugura a possibilidade de entender o aparato psíquico enquanto caos pulsional, em que se observa a possibilidade de destruição de formas constituídas, permitindo dar lugar à novidade.

É o que faz com que a psicanalista Nathalie Zaltzman (1993) acrescente à ideia de pulsão de morte a noção de pulsão anarquista que, até mesmo pelo fato de ser derivada da energia caótica da pulsão de morte, instaura uma via de escape para o sujeito e possibilita não apenas uma renovação, mas também um verdadeiro campo de escolhas singulares.

A pulsão de morte trabalha contra as formas de vida estabelecidas e contribui para renová-las. O movimento anarquista surge quando toda forma possível de vida desmorona, ele extrai sua força da pulsão de morte e a remete contra ela a sua destruição. […] A pulsão anarquista guarda uma condição fundamental da manutenção em vida do ser humano: a manutenção para ele da possibilidade de uma escolha, mesmo quando a experiência-limite anula ou parece anular toda escolha possível. (ZALTZMAN, p. 64-66).

A positividade da pulsão de morte, como afirma Fortes (2012), está justamente na sua possibilidade de provocar ruptura instaurando outras possibilidades, outros destinos para o excesso que atravessa o aparelho psíquico. Nessa linha de raciocínio, é importante investigar a noção de desejo tal como aparece no pensamento freudiano. Por que associar a pulsão de morte a um determinado entendimento sobre o desejo? O ponto em que essas instâncias convergem surge quando se entende tanto o desejo quanto a pulsão de morte como motores que atuam na constituição subjetiva. Especificando o conceito, Laplanche e Pontalis (1967) afirmam que a noção de desejo na concepção freudiana se dirige ao “desejo inconsciente que tende a realizar-se restabelecendo, segundo as leis do processo primário9, os sinais ligados às primeiras vivências de satisfação.” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967, p. 158).

Assim, podemos interpretar o desejo freudiano como produzido por uma falta, pela eterna busca por uma satisfação/prazer. Para além dessa visada, há autores que enfatizam o desejo enquanto força que busca sustentar, a sua medida, o sofrimento e a dor entendendo-os como parte integrante da vida e como possibilidade de criação (FORTES, 2012). Cabe esclarecer que até mesmo Freud utiliza a expressão ‘desejo’ de forma algo diferente da definição citada acima. Ele diferencia a noção de desejo da de necessidade. Esta última seria uma tensão interna que encontra sua satisfação em um ato específico, enquanto o desejo estaria ligado aos traços mnésicos e só poderia ser realizado na alucinação das percepções tornadas sinais de satisfação. De acordo com Laplanche e Pontalis:

O desejo nasce do afastamento entre a necessidade e a exigência; é irredutível à necessidade, porque não é fundamentalmente relação com um objecto real, independente do indivíduo, mas com o fantasma (fantasia); é irredutível à exigência na medida em que procura impor-se sem ter em conta a linguagem nem inconsciente do outro, e exige ser reconhecido em absoluto por ele. (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967, p.160).

Para Herzog (2001), Freud subverte a noção negativa que o desejo assumia até então propondo um mundo de desejos ‘anterior’ ao mundo das coisas. Como afirma a autora: “o que está em questão é justamente positivar o aspecto intensivo nas múltiplas formas do devir sujeito.” (2001, p.10). O que se propõe com isso é observar uma outra interpretação de desejo, sendo este associado a uma intensidade, um motor que regeria o psiquismo e a constituição do sujeito. Segundo Herzog (2001) e Fortes (2012) a obra freudiana assume uma duplicidade, uma dimensão intensiva e outra representacional, na medida em que o desejo é fonte de fantasia e o campo psíquico está além da ordem representacional, conforme a postulação da pulsão de morte indica. Esse aspecto dualista reforça as múltiplas interpretações que se pode fazer do discurso freudiano.

Até o momento, resgatamos brevemente alguns conceitos com foco no complexo de Édipo e na pulsão de morte bem como parte da história que envolveu Freud e o nascimento da psicanálise. O que foi exposto aqui servirá para pensarmos as críticas feitas por Deleuze e Guattari, bem como a estruturação da abordagem esquizoanalítica.

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