HEGEL E MARX: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS SOBRE O CONHECIMENTO

Quais são as convergências e divergências sobre o conhecimento em  HEGEL (1770-1831), idealista, e MARX (1818-1883), materialista? Este texto se trata  de uma breve discussão acerca desta problemática.

Sabemos que em Hegel o conhecimento deve ser produzido através de uma produção dialética. A lógica dialética, básicamente é aquela onde considera-se que os opostos não se excluem, mas se explicam reciprocamente. Hegel olha o real e o racional em seu processo, em seu devir, Descreve que para a questão da dialética devemos utilizar a Ideia (Tese) para desenvolver e criar a natureza, a Natureza-História (Antítese) que seria a ideia alienada e o Espírito (Síntese) – ao mesmo tempo é pensamento e matéria. Em síntese, essa é a dialética de Hegel. Talvez, a grosso modo, podemos dizer que essa dialética seria como colocar os prós e contras e retirar deles um resultado.

Mas o que há em comum entre Hegel e Marx, é o conceito de método dialético. Marx foi influenciado pela dialética hegeliana, mas não concordava com os pontos em que Hegel definiu seus métodos para compreender a sociedade, desta forma, produziu uma crítica ao pensamento de Hegel, dizendo que a dialética do idealismo era do mundo das ideias, e a dialética do materialismo é a posição filosófica que considera a matéria como a única realidade, discordando da dialética de Hegel no que diz respeito ao materialismo defendido por ele. Assim, através de suas divergências com outras formas de olhar o mundo, criou seu próprio método.

Marx inverteu a dialética hegeliana: eliminou o Espírito como essência, já que a origem da realidade social não reside nas ideias, na consciência que os homens têm dela; mas na ação concreta (material) dos homens, portanto no trabalho. Marx, acaba por colocar Hegel sobre os próprios pés.

A dialética de Hegel foi colocada com a cabeça para cima ou dizendo melhor, ela, que se tinha apoiado exclusivamente sobre sua cabeça, foi de novo resposta sobre seus pés (ENGELS, in: “Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã”)

Marx inverteu o homem de Hegel, pois para Hegel a base do homem está na cabeça, mas para Marx a cabeça é determinada pela base. A parte material é que condiciona a abstrata, somente podemos compreender as partes depois de conhecer o todo. A noção de que o trabalho é o ato ontológico fundamental, dá a medida  da inversão operada. Daí a famosa noção: não são as ideias que determinam o ser social, mas o ser social que as determina.

Se, para Hegel, a realização progressiva do Espírito é um processo de consciência, para Marx, é, entre outras noções, a marcha da classe proletária rumo ao comunismo e que se confunde com a marcha da história, uma marcha racional com um télos (o que finaliza e conduz à plenitude).

No entanto, o que se tirou com uma das mãos, acrescentou-se com a outra: o Sujeito (essencial e objetivo) retorna novamente. Ao invés do Espírito Absoluto, é uma classe social (proletária), portadora da verdadeira liberdade. Portanto, para Hegel, o mundo real nada mais é que a exteriorização da ideia. O pensamento não depende das coisas, mas estas é que dependem dele.

Logo, Razão e Estado se fundem, expressando um estágio superior de civilização, o estágio da vida universal, da vida em coletividade.

Em Hegel, a história começa com o Estado e buscou através da razão a plena potencialidade humana da liberdade de conhecimento da realidade. Para ele, o pensamento é o criador do mundo. A razão, no seu sentido mais radical, se realiza na história, constitui o processo histórico, compondo o próprio objeto. Via na Revolução Francesa a própria realização da razão (Aranha e Martins, in: Filosofando: introdução à filosofia, 1986).

O processo da dialética é semelhante em ambos: uma Tese (determinação/situação histórica) se antepõe a uma Antítese (contida na própria tese) que gera uma Síntese diversa das partes que se originaram. Daí as diferentes fases da História. Ambos se utilizam de Tese, Antítese e Síntese, mas Marx é materialista e modifica essa dialética tornando assim Natureza-História (Tese), Teoria Crítica (Antítese) e Revolução/Práxis (Síntese).

A dialética hegeliana possui uma ligação com a revolução e a destruição do mundo feudal. Marx (1848) também pensou nisso quando escreveu com Engels em O Manifesto do Partido Comunista: “tudo que é sólido se desmancha no ar…”. Pensando na modernidade, mais precisamente no sistema capitalista. Essa é uma excelente metáfora para definir as ideologias, formas de governos e modos de produção que nasceram, vingaram e ruíram, como em um ciclo natural e de morte quase natural.

A teoria do conhecimento de Marx equivale à questão ideológica, e, é na verdade uma crítica à ideologia. O conhecimento é entendido em Marx como maneira de intervir e transformar a história. Conhecer para Marx não é apenas interpretar/teorizar o mundo, é preciso transformá-lo, intervindo/atuando, instaura-se assim o tribunal da Práxis.

A Práxis é um conceito central no pensamento do filósofo materialista. É a união da interpretação da realidade (teoria – conhecimento científico) à prática (realização efetiva – atividade), em outras palavras, é a ação consciente do sujeito na transformação de si mesmo e do mundo que o cerca.

A primeira questão é a de encarar a dialética da perspectiva dos dois pensadores. Ambos não têm para si a dialética como mero procedimento lógico (ou retórico) – como seria para Aristóteles. A dialética está relacionada indistintamente com uma filosofia da história e, no caso de Marx, com uma teoria da práxis.  Em segundo lugar, é preciso ter em mente que Marx foi seguidor de Hegel, sendo a dialética idealista transformada em uma dialética materialista.

Agora, a grande diferença: a teoria do conhecimento de Hegel tem um aspecto muito nítido de que o sujeito muda, se conhece e reconhece sua mudança, isto seria basicamente um jogo (processual, progressivo, evolutivo) entre o sujeito e objeto. O sujeito passa a ter consciência de si na medida em que possui consciência do objeto.

Para Hegel o caminho dialético segue até o Absoluto, mediante um processo em que o Espírito ganha consciência de si (nos termos do idealismo alemão). A cada novo estágio o Espírito se conscientiza mais de si através dos elementos de contradição contidos em sua própria fase histórica. Em determinado período “o homem é escravo”, entretanto, a própria “ideia” de homem concebe a liberdade e se antepõe à escravidão. Homem e escravidão entram em contradição. Portanto, o homem deve deixar de ser escravo, o Espírito ganha consciência (Nova fase histórica).

É a alteridade que providência minha identidade pelo outro através de mediações. É através dos conflitos entres teses divergentes que encontramos um melhor posicionamento do conhecimento. Aqui se expressa à famosa passagem da dialética do senhor escravo contida em “A Fenomenologia do Espírito”.

Para Marx não é a consciência que transforma as relações materiais, mas o contrário: é através dos processos sociais materiais, notadamente do trabalho, que a consciência é formada.

Não é a consciência do homem que determina a sua existência, mas, ao contrário, sua existência social é que determina a sua consciência (MARX, 1983).

Cabe ressaltar que as nossas relações materiais se exprimem em nossas ideias. Assim, embora o processo seja o mesmo: Tese – Antítese – Síntese, em Hegel a Ideia entra em contradição com as relações materiais e transforma as condições históricas para algo novo, porém em Marx as relações de produção entram em contradição com as Ideias e apontam para algo novo. Pode parecer simples, mas essa mudança de posição tem consequências importantes na filosofia e teoria social dos dois pensadores.

Marcondes (in: Iniciação a História da Filosofia, 1997) descreve o processo de formação da consciência para Hegel em três fatores:

1 – Família ou a vida social;

2 – Linguagem e;

3 – Trabalho. Consciência De si e do Outro (dialeticamente).

A subjetividade em Hegel é um processo, assim é a nova noção que ele introduz, a de que a razão é histórica, ou seja, a verdade é construída no tempo.

Em Marx a materialidade social (a práxis social do homem) está relacionada com o subjetivismo do pensamento social, sendo um processo de mão dupla, do material ao pensamento humano. Em Hegel não existe essa relação, mas em Marx sim.

A razão está entre o material assim como o material está para a razão, é utilizada como fator de sistema determinante do real determinante. A razão está para Hegel como a materialidade está para Marx, são estes os fatores que constituem os sistemas de mudanças.

Para ambos, a transformação ocorre na prática. A diferença é que o motor dessa transformação em Hegel é a Ideia, ele compreende a realidade e o pensamento como processo. Marx com a dialética materialista analisa a história sob o ponto de vista econômico e social, ou seja, são as forças produtivas e as relações de produção que predominam nesse pensamento.

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