Na última vez que Guattari esteve conosco no Brasil, em maio de 1992, foi realizado, no Rio de Janeiro, o lançamento de seus dois últimos livros[2], em uma calorosa mesa-redonda[3]. A proposta era que cada um de nós lhe dissesse algo brevemente. O psicanalista Joel Birman comentou com Guattari o impacto que sentira com um estranho tom de despedida que parecia insinuar-se nas páginas introdutórias de O que é a filosofia?[4]. Ele expressou o desejo de ouvir Guattari falar a respeito, se possível.
Félix, então, começou a falar longamente. Suas palavras, e talvez ainda mais o jeito com que as dizia, foi nos envolvendo e criando uma atmosfera cada vez mais densa. Lembro-me especialmente de algumas passagens. Ele nos contou que, quando criança, presenciou a morte de seu avô, de quem gostava muito, e que o choque desse encontro com a morte foi um marco fundamental em sua vida. A partir de então, passou a ser arrebatado por intensas crises de angústia, que costumavam surgir principalmente à noite.
Recordou também que, anos depois, ao conhecer Jean Oury[5], relatou a ele essas crises. O amigo sugeriu que, ao deitar-se, virasse a cabeça no travesseiro para o outro lado. Guattari seguiu o conselho, e isso funcionou. Essas histórias, contadas naquela ocasião, voltaram à minha memória logo após sua morte, quando li um belo artigo de Maggiori no Libération, em uma edição que homenageava nosso amigo.
Maggiori revelou que, durante um período de sua infância, por volta dos seis ou sete anos, Guattari tinha um pesadelo que se repetia todas as noites. Segundo Félix: “Uma dama de negro. Ela se aproximava da cama. Eu ficava com muito medo. Isso me acordava. Eu não queria mais voltar a dormir.” Maggiori conta que Guattari falou deste pesadelo a seu irmão, que lhe emprestou um fuzil, sugerindo que atirasse na dama caso um dia ela voltasse. Guattari seguiu o conselho, e a dama nunca mais apareceu.
No artigo, Maggiori chamou atenção para o fato de que o que mais intrigou Guattari nessa história foi perceber, anos depois, que nunca havia armado o fuzil. Ele encerra essa parte do texto com um comentário marcante: Guattari deveria ter sido mais desconfiado e armado o fuzil, pois um dia a dama certamente voltaria. E, de fato, ela voltou na noite de 29 de agosto de 1992.
Mas, se misturarmos este pesadelo com as histórias que Félix nos contou naquela noite, como se fossem partes de um mesmo sonho, talvez possamos pensar de outro jeito. Se é verdade que foi à noite que ele morreu, e de repente, como se a dama o tivesse pego de surpresa, não me parece que Félix tenha sido tão ingênuo ou pouco cauteloso. Tenho a impressão de que, ao contrário, ele desconfiava tanto e tentava sustentar o desafio a tal ponto, que, desde seu primeiro embate com a morte — aquele susto inaugural — até o fim de sua vida, praticamente não parou de armar este “fuzil” por um só minuto.
Arriscaria até afirmar que toda a sua obra filosófica, política e clínica — e sua existência — foi se construindo por meio de um jogo perigoso e sutil. Esse jogo consistia em ultrapassar o terror provocado pelo impacto da morte (aquelas violentas crises de angústia e seu efeito impotencializador), sem, no entanto, afastar-se desse impacto. Provavelmente, desde aquele susto inaugural, algo nele foi, aos poucos, descobrindo que quanto mais conseguisse enfrentar a morte, maior seria seu acesso à nascente das formas de existência — ou seja, mais próximo estaria da vida em sua dimensão criadora.
De fato, sua obra e sua existência foram pautadas por essa invenção incessante de estratégias de aproximação da morte, que eram, ao mesmo tempo, estratégias de criação da existência. Uma invenção de criatividade surpreendente, que frequentemente dava a impressão de uma vitalidade incansável, mas que, por vezes, também a impressão de ter exaurido todas as forças.
Talvez seja isso o que conferia à sua vida o brilho e a velocidade de um meteoro; e talvez também seja isso que trouxe a ele uma morte igualmente meteórica. Talvez…
Como ele próprio escreveu, em um texto citado no mesmo artigo de Maggiori, sua vontade era “trabalhar o luto por si mesmo como o pianista trabalha suas escalas”. Esse exercício constante de tocar a morte em todas as suas escalas, essa prudente astúcia para dela se aproximar sem se aniquilar, essa máquina de guerra armando e rearmando seu fuzil, parece ter culminado na ideia de caosmose e seus quatro funtores ontológicos.
Digo “culminado” porque essa ideia ficou como o último round, a última jogada ou a última melodia. Mas também porque esse ‘conceito’ parece conter uma espécie de serenidade trágica, num momento em que, como ele escreve com Deleuze na introdução de O que é a filosofia?, ele se encontra naquela “… agitação discreta, à meia-noite, quando não se tem mais demanda nenhuma (…) quando se desfruta de um momento de graça entre a vida e a morte, em que todas as peças da máquina se combinam para enviar ao porvir um dardo que atravesse as eras”.
O dardo que Guattari envia ao porvir é a caosmose e os funtores ontológicos: essa apreensão da existência em seu construtivismo. Um tipo de apreensão que só se torna possível, imagino, quando as rupturas de sentido – essa espécie de “estranho-em-nós”, que o efeito do inelutável embate com a alteridade em nossa subjetividade nos faz experimentar – já não nos aterrorizam tanto. Quando conseguimos ir experimentando-descobrindo um aliado nesse estranho-em-nós, pois escutá-lo é o que nos permite captar as linhas de virtualidade que se apresentam e inventar territórios de existência que as encarnem.
Se considerarmos que a essência da vida consiste em diferenciar-se, podemos dizer que conquistar uma certa capacidade de acolher o estranho – ou seja, de apreender-viver a existência em seu construtivismo – é uma condição fundamental para a efetuação da vida. O vigor com que a vida se afirma em nossa existência depende da amplitude dessa capacidade de acolher o estranho-em-nós.
Ora, tudo leva a crer que o estranho se apresentou a Félix de modo precoce e intempestivo, convocando um enfrentamento que ele procurou sustentar durante toda a sua vida. E parece que, nesse momento que ele chamou de “velhice”, estava encontrando, como ele mesmo diz naquela introdução, uma espécie de “soberana liberdade”. Deve ser isso o que lhe dava, nos últimos tempos, um ar de suavidade sóbria. Era um estado, segundo ele, em que passara a “… importar pouco ter conseguido dizer bem ou ter sido convincente, já que, de qualquer maneira, agora era isto”.
E o que era “isto”? “Isto” era a apreensão do ser em seu movimento construtivista, essa maquínica do ser, essa heterogênese, aquilo que ele chamou de ontologia construtivista. “Isto” é a caosmose: a experiência da ruptura de sentido, da desterritorialização, do estranho-em-nós, deixando de ser inteiramente vivida e entendida como portadora de destruição, para ser vivida e entendida, na medida do possível, como portadora de linhas de virtualidade e, portanto, inseparável da vida em suas formas de organização.
Quando um território existencial não faz mais sentido, caotiza, desaba. Isso significa que uma máquina se desmanchou, e que os fluxos que a compunham se conectaram com outros fluxos, operando outros cortes, agenciando-se em outras máquinas, produzindo outras linhas de virtualidade que poderão vir a tomar consistência em novos territórios existenciais.
Em suma, para Guattari, agora era “isto”: há cosmos no caos; o caos é portador de complexificação. Há uma relação de osmose ou de imanência entre o caos e a complexidade. E a maneira que ele encontrou para cartografar isso foi criando seus quatro funtores (fluxos, máquina, universos incorporais ou linhas de virtualidade, e territórios existenciais).
E fico imaginando que, de fato, nos últimos tempos, a dama de negro já não assustava tanto Félix; que ele teria conseguido, de algum modo, ultrapassar o terror e recebê-la… Mas sei que é preciso cuidado para não cair na ideia ingênua de que ele teria conseguido ficar inteiramente preparado para recebê-la. Essa ideia é tão ilusória quanto imaginar que ele poderia ter se preparado para despistá-la para sempre, matá-la com seu fuzil quando ela reaparecesse, como quis Maggiori, sob o impacto da morte repentina do amigo.
Suponho que jamais seja possível receber a dama tranquilamente, e, muito menos, despistá-la definitivamente. Penso que a dama só dá sossego mesmo na morte, quando com ela nos fundimos. Provavelmente, não dá para ser de outro jeito – e, aliás, nem é para esperar que desse. Se pensarmos que aquele jogo perigoso e sutil de aproximar-se dela sem deixar-se aniquilar pelo terror é o próprio motor da vida, então quando esse jogo cessa, é porque a vida se acabou.
E, se é assim, armar o fuzil não implica livrar-se desse jogo, mas apenas conseguir jogá-lo: ir ampliando a capacidade de enfrentar a angústia e de acolher o estranho. Fico imaginando que o que se alcança com isso é, simplesmente, poder sentir o gosto raro de uma certa suavidade… Algo assim é o que Guattari parecia estar vivendo nos últimos tempos… Exatamente por ter ampliado, ao longo dos anos, essa capacidade de acolher o estranho em sua própria subjetividade, Félix era – e foi se tornando, cada vez mais – um amigo intercessor.
Um amigo intercessor, como o entendo, é algo ou alguém que funciona como aliado do estranho-em-nós, esse porta-voz da heterogênese em nossa subjetividade. Ora, a oportunidade de sermos acolhidos no estranho-em-nós é uma das chaves que pode nos abrir o acesso à capacidade de jogar aquele jogo, já que, em geral, esse acesso costuma estar bastante obstruído. Isso faz com que essa capacidade permaneça insípida – pelo menos no modo de subjetivação predominante em nosso mundo, o sujeito-moderno-em-nós.
Essa subjetividade, que Guattari costumava chamar de neurótica ou capitalística, define-se, fundamentalmente, pelo terror ao outro e, portanto, ao devir e à morte, instaurando uma utopia da unidade: uma ilusão de completude, mantida pela tutela que esse terror exerce sobre a subjetividade e que tende a sabotar todo e qualquer movimento de criação da existência.
Em suma, a operação básica desse modo de subjetivação dominante em nosso mundo é o racismo contra tudo aquilo que não repõe o idêntico – ou seja, um racismo contra o estranho-em-nós. A voz do estranho é ouvida por esse tipo de subjetividade como voz da carência, e não como expressão do caráter intrinsecamente processual e heterogenético do ser.
Muito, ao nosso redor, conspira contra o estranho, e esse racismo é tão forte que necessitamos de intercessores para combatê-lo. Sem eles, isso se torna difícil – e, em alguns casos, até impossível. Deleuze e Guattari não cessam de nos alertar para isso ao longo de toda sua obra: por exemplo, quando escrevem que “precisamos de aliados”, de “inconscientes que protestam”, ou quando falam em revolução molecular, essa espécie de conspiração a favor do estranho-em-nós. Também mencionam dispositivos catalizadores de existencialização ou de singularização, ou, ainda no início de seus escritos, em grupos-sujeito, analisadores e assim por diante.
Ter um intercessor da qualidade e da força de Guattari é um privilégio, e isso continua mesmo após sua morte, pois sua obra encarna o intercessor com a mesma radicalidade com que ele procurou encarná-lo durante sua vida. Talvez por isso seja comum que pessoas que o leem pela primeira vez comentem que não entendem quase nada, mas, ainda assim, experimentem uma espécie de entendimento de outra ordem. Como se, ao lerem, estivessem ouvindo algo que sempre souberam sem saber, e o fato de alguém expressá-lo trouxesse uma força inusitada.
Guattari foi e continua sendo um intercessor para muitos de nós no Brasil. Mas é importante lembrar que o Brasil também foi um intercessor privilegiado para Guattari.
Em uma carta que Félix escreveu, em 1991, para mim e para Paulo, meu companheiro, após retornar de mais uma de suas viagens ao Brasil[6], ele contou sobre trapezistas chineses que havia visto na televisão francesa. Ele descreveu como ficou fascinado pelas piruetas que faziam no ar, mas ainda mais pelo instante em que se agarravam à barra do outro lado. Disse que essas imagens o fizeram pensar muito nos dias que havíamos passado juntos.
Félix sugeriu que aquele encontro nosso havia tido o efeito de um possível de existencialização, como uma barra do lado de lá do mergulho caósmico em que ele se encontrava naquele momento, num quase afogamento.
Estendo esta carta a todos os amigos brasileiros de Félix Guattari — os que o conheceram pessoalmente ou publicamente, de perto ou de longe, como Félix ou como Guattari —, como se todos nós fôssemos seus destinatários. Primeiro, porque ele possuía a generosa capacidade de atribuir a cada amizade uma importância fundamental; e, depois, porque sei que o Brasil, junto com todos os amigos brasileiros, representava para ele, de algum modo, esse amigo intercessor.
Um amigo capaz de suscitar e ressuscitar sua confiança na travessia da caosmose, de espantar o pavor diante da aproximação da dama.
NOTAS
- Texto apresentado no Brasil, em uma homenagem a Guattari organizada pelo Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares, no Rio de Janeiro, em 8 de outubro de 1992. Posteriormente, foi apresentado na Argentina, durante o Primer Encuentro en el Marco del Pensamiento de Deleuze-Guattari en Nuestra Actualidad, promovido por Plexus, CISEG (Centro de Investigaciones Sociales, Estéticas y Grupales) e pela revista Zona Erógena, em Buenos Aires, nos dias 30 e 31 de outubro de 1992.
- Caosmose – Um novo paradigma estético, Rio de Janeiro, Editora 34, 1992; e, em coautoria com Gilles Deleuze, O que é a filosofia?, Rio de Janeiro, Editora 34, 1992.
- Mesa-redonda promovida pela Editora 34 e pelo Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares, em 21 de maio de 1992, com a participação dos franceses Pierre Lévy, Gilles Châtelet, Eric Alliez e o próprio Félix Guattari, além dos brasileiros Chaim Katz, Joel Birman, Peter Pelbart e Suely Rolnik.
- Loc. cit.
- O psiquiatra Jean Oury foi o fundador e proprietário da Clínica de La Borde, onde Félix Guattari trabalhou de 1953 até o final de sua vida e onde, inclusive, faleceu. Oury foi o principal parceiro de Guattari no campo da clínica, assim como Gilles Deleuze o foi no campo da filosofia.
- Nesta viagem, Guattari fez uma série de conferências, que vieram a constituir, com algumas modificações, o livro Caosmose: Um novo paradigma estético.