O TEMA da máquina ocupa-me há muito tempo, talvez menos como objeto conceitual que como objeto afetivo. Sempre fui, como muitos dentre vocês, atraído, fascinado pela máquina. Quando estudante da Sorbonne, lembro-me de ter apresentado uma análise sobre Le Travail en Miettes de Friedmann, e do olhar espantado do professor enquanto eu lançava meus ataques contra Friedmann; nessa época, eu era muito virulento contra as visões mecanicistas da máquina. Achava, no que talvez seja uma queda pelo cientificismo, que podíamos esperar uma espécie de salvação pela máquina. Na sequência, tentei alimentar este objeto maquínico. Devo avisá-los que não se trata de algo que domino, mas de uma espécie de núcleo ao qual fui conduzido por ciclos. O último foi desencadeado pelo livro de Pierre Lévy, As Tecnologias da Inteligência. Fiquei surpreso por encontrar ali uma reativação dessa temática, transposta para o campo das tecnologias informáticas. Em outras palavras, reivindico o direito a essa forma de pensamento que procede por eixos afetivos, por afetos, em vez de um pensamento que pretende fornecer uma descrição científica, axiomática. Repito que se trata de uma temática totalmente aberta, e gostaria que ela assim fosse tratada na discussão, para perceber os ecos que esse tipo de reflexão pode despertar.
Encontramo-nos atualmente numa inevitável encruzilhada, a do anátema lançado contra a máquina, a ideia de que as tecnologias nos colocam numa situação de inumanidade, de ruptura em face de qualquer projeto ético. De fato, a história contemporânea reforça esta perspectiva maquínica catastrófica, com as degradações ecológicas e outras mais. Poderíamos assim ficar tentados a dar meia-volta e recuar em relação à era maquínica, para compartilhar de não sei qual territorialidade primitiva.
Pierre Lévy usa a seguinte fórmula, na minha opinião muito feliz: “lentar derrubar a cortina de ferro ontológica entre o ser e as coisas”. Parece-me que um dos meios de derrubar esta cortina de ferro, presente em toda a história da filosofia até Heidegger, talvez seja esta interface maquínica, ou esta máquina concebida como interface, que Pierre Lévy denomina “hipertexto”. De fato, para sair desta fascinação pela técnica, e da dimensão mortífera que às vezes assume, é preciso reapreender, reconceitualizar a máquina de outro modo, para partir do ser da máquina como aquilo que se encontra na encruzilhada, tanto do ser em sua inércia, sua dimensão de nada, como do sujeito, a individuação subjetiva ou a subjetividade coletiva. Este tema está presente na história da literatura e do cinema, nos mitos, como o da máquina que possui uma alma e um poder diabólico. Não proponho exatamente um retorno a uma concepção animista, mas sim uma tentativa de considerar que, na máquina, na interface maquínica, existe alguma coisa que seria, não da ordem da alma, humana ou animal, anima, mas da ordem de uma proto-subjetividade. Isto quer dizer que há na máquina uma função de consistência, de relação a si e de relação a uma alteridade. É seguindo estes dois eixos que tentarei avançar.
Comecemos do mais simples, do que é já mais ou menos adquirido, a ideia de que o objeto técnico não pode ser limitado à sua materialidade. Há na techné elementos ontogenéticos, elementos de um plano, de construção, relações sociais que sustentam as tecnologias, um capital de conhecimento, relações econômicas e, pouco a pouco, toda uma série de interfaces no seio das quais se insere o objeto técnico. A partir desta concepção, pode-se estabelecer uma ponte entre uma máquina tecnológica de tipo moderno e as ferramentas ou mesmo as peças da máquina, considerá-los igualmente como elementos que se conectam uns· aos outros. Desde Leibniz, dispomos do conceito de máquina articulada (de maneira fractal, diríamos hoje) com outras máquinas, elas mesmas compostas de elementos maquínicos até o infinito. Assim, aquém e além da máquina, o ambiente da máquina faz parte de agenciamentos maquínicos. O elemento liminar da entrada na área maquínica passa por um certo aplainamento, a uniformização de um material, como o aço que é processado, desterritorializado e uniformizado para se moldar às formas maquínicas. A essência da máquina está ligada aos procedimentos que desterritorializam seus elementos, seu funcionamento, suas relações de alteridade. Falaremos de uma relação de ontogenia da máquina técnica que a faz abrir-se para o exterior.
Ao lado deste elemento ontogenético, há uma dimensão filogenética. As máquinas tecnológicas são consideradas dentro de um phylum, onde há máquinas que as precedem e outras que as sucedem. Elas seguem por gerações – como as gerações de automóveis – cada uma abrindo a virtualidade de outras máquinas que virão. Elas incitam, por este ou aquele elemento, uma junção com todas as filiações maquínicas do futuro.
As duas categorias de ontogênese e de filogênese aplicadas ao objeto tecnológico nos permitem traçar uma ponte com outros sistemas maquínicos que nem sequer são tecnológicos. Na história da filosofia geralmente toma-se o problema da máquina como um elemento secundário de uma questão mais geral, a da techné, das técnicas. É aqui que eu proporia uma inversão de ponto de vista, no sentido de que o problema da técnica não passaria de um subconjunto de uma problemática maquínica muito mais ampla. Esta “máquina” é aberta para o exterior, para o seu ambiente maquínico e entretém todo tipo de relações com os componentes sociais e as subjetividades individuais. Trata-se então de expandir o conceito de máquina tecnológica ao de AGENCIAMENTOS MAQUÍNICOS, categoria que engloba tudo o que se desenvolve como máquinas nos diferentes registros e suportes ontológicos. Em vez de haver oposição entre o ser e a máquina, o ser e o sujeito, esta nova concepção da máquina implica que o ser se diferencia qualitativamente e desemboca numa pluralidade ontológica, que é o próprio prolongamento da criatividade dos vetores maquínicos. Em vez de haver um ser, como traço comum presente no conjunto dos entes maquínicos, sociais, humanos, cósmicos, teremos, ao contrário, uma máquina que desenvolve UNIVERSOS DE REFERÊNCIA, universos ontológicos heterogêneos, marcado por reviravoltas históricas, um fator de irreversibilidade e de singularidade. Não farei aqui uma descrição exaustiva, seria demasiado longa.
Além da ferramenta protomáquina e das máquinas tecnológicas, há os conceitos de máquinas sociais. Por exemplo, a cidade é uma megamáquina. Ela funciona como uma máquina. Teóricos da linguística como Chomsky introduziram o conceito de “máquina abstrata”, presente nas máquinas linguísticas ou sintagmáticas. Atualmente, muitos biólogos falam de máquina a respeito da célula viva, do órgão, da individuação e mesmo do corpo social. Aí também o conceito de máquina tende a impor-se. Máquinas matemáticas de Turing … Também no domínio das idealidades – outro universo de referência – assiste-se à ampliação do conceito de máquina. Máquina musical. Muitos músicos contemporâneos desenvolvem esta noção. Máquina lógica, máquina cósmica, uma vez que certos teóricos afirmam que o ecossistema da Terra é equivalente a um ser vivo, ou a uma máquina, no sentido amplo que estou usando. Para remeter a um passado de já vinte anos, podemos evocar as MÁQUINAS DESEJANTES, que retomam a teoria dos objetos parciais da psicanálise – o objeto “a” como máquina desejante -, mas sob a forma de elementos não redutíveis a objetos adjacentes ao corpo humano. Ao contrário, o que está em questão são objetos de desejo, máquinas de desejo, objetos-sujeitos de desejo e vetores de subjetivação parcial, que se abrem bem além do corpo ou das relações familiares, para os conjuntos sociais, cósmicos, e os universos de referência de todo tipo.
No campo da biologia, este conceito de máquina foi recentemente desenvolvido por teóricos como Umberto Maturana e Francisco Varela. Eles definem a máquina como o conjunto de inter-relações dos seus componentes, independentemente dos próprios componentes. Eles oferecem assim uma definição que é próxima de uma máquina abstrata e que descreve a máquina como autopoiética, autoprodutora dela mesma e reproduzindo permanentemente os seus componentes qual um sistema sem input nem output. Varela desenvolve bastante esta teoria. Na sua concepção, opõe a autopoiese, relacionada essencialmente aos seres vivos biológicos, a uma alopoiese, em que a máquina busca os seus componentes no exterior dela mesma. No seu conceito de alopoiese ele arrola os sistemas sociais, as máquinas técnicas e, para terminar, todos os sistemas maquínicos que não os viventes. Este conceito de autopoiese parece-me muito interessante e proveitoso. No entanto, acho que seria preciso ir além da perspectiva de Varela e estabelecer uma ligação entre as máquinas alo e autopoiéticas. As máquinas alopoéticas encontram-se sempre na adjacência das máquinas autopoiéticas e é preciso assim levar em consideração os agenciamentos que as fazem viver juntas.
Uma outra ideia, tomada de empréstimo a P. Lévy, é que os sistemas maquínicos são interfaces que se articulam umas às outras – no que ele chama de hipertextos – e que aos poucos recobrem o conjunto da “Mecanosfera”. Finalmente, gostaria de reunir as perspectivas de Varela e de P. Lévy, a fim de considerar a máquina ao mesmo tempo no seu caráter autopoiético e em todos os seus desenvolvimentos alopoéticos, de interfaceamento, que lhe conferem uma espécie de política exterior, de relações de alteridade. No seu primeiro livro, La Machine Univers, Pierre Lévy fazia referência a Varela; no segundo, paradoxalmente, não o menciona. Creio que isto ficará para uma terceira obra.
A máquina tem qualquer coisa a mais que a estrutura. Ela é “mais” que a estrutura porque não se limita a um jogo de interações, que se desenvolve no espaço e no tempo, entre os seus componentes, mas possui um núcleo de consistência, de insistência, de afirmação ontológica, que é prévio ao desenvolvimento nas coordenadas energético-espaço-temporais. Este núcleo maquínico que se pode qualificar, sob certos aspectos, de proto-subjetivo, protobiológico, possui caraterísticas que Varela não levou em consideração. São elementos de onto ou filogênese, mas também de finitude. A máquina é portadora de uma finitude, de qualquer coisa da ordem do nascimento e da morte, donde a fascinação que ela pode exercer enquanto máquina explodida, destruída, em implosão, portadora da morte no exterior, mas também por si mesma.
Este foco de insistência autopoiética e de desenvolvimento de uma lateridade heterogenética – que desenvolve registros de alteridade – é difícil de descrever ou definir. Não é um existente que se afirma no desdobramento das coordenadas energético-espaço-temporais. Como abordar um tal objeto, senão por intermédio do mito, da narração, isto é, de meios não científicos. Acho que este núcleo maquínico está sempre, de uma certa maneira, ligado a sistemas de metamodelações que exigem um desenvolvimento da teoria. Dou apenas uma indicação que não desenvolverei, pois será retomada ulteriormente numa obra com Gilles Deleuze. Este núcleo de afirmação autopoiética e interestrático, de abertura para o exterior, implica uma concepção da complexidade considerada a partir de coordenadas decididamente “extra-ordinárias”. A complexidade do objeto maquínico se realiza e se encama nos diferentes sistemas maquínicos que evoquei acima. Ao mesmo tempo, ela é permanentemente perseguida pelo caos que a dissocia, repartindo os seus elementos numa decomposição de natureza diferente. Como se este ser autopoiético, esta proto-subjetividade maquínica estivesse ao mesmo tempo no registro da complexidade e do caos. Creio que é preciso considerar o caos não como puramente caótico, mas que pode, nas suas composições de elementos e de entidades, desenvolver fórmulas de uma complexidade extrema. Tomemos um sistema aleatório como o jogo de roleta. Se você aposta no preto e no vermelho, a cada jogada você tem a impressão de um sistema caótico que forma composições aleatórias, sem nenhuma apreensão cognitiva. Mas se você joga por longos períodos, aparecem séries das quais certos cálculos estatísticos permitem detectar composições complexas. Este sistema aleatório depende, portanto, de uma certa descrição matemática. Dá-se o mesmo com o caos. O caos é portador de dimensões da maior hipercomplexidade. Existe um mito muito conhecido segundo o qual, sorteando letras ao acaso, pode-se obter a fórmula da obra poética de Mallarmé. Será preciso esperar muito tempo. Não obstante, a obra de Mallarmé habita potencialmente este universo caótico de combinações múltiplas entre as letras.
Como fazer coexistirem essas duas dimensões, a complexidade e o caos? Simplesmente considerando que as entidades presentes no caos suo animadas por uma velocidade infinita. Elas podem compor as compleições mais diferenciadas, mas se decomplexificar com a mesma velocidade. A ideia de uma velocidade infinita desemboca numa concepção do caos capaz de ser portadora da complexidade. É nesses focos caóticos que virá inserir-se essa proto-subjetividade que pode, por sua vez, ser adjacente à dissociação caótica, à sua própria morte e às composições infinitamente complexas. É o que chamo de “grasping CAÓTICO”: apreensão instantânea da complexidade, constituída por todo tipo de potencialidade. Chamarei de “hipercomplexidade” essa complexidade que é mais assumida do que realmente dominada e que se encontra numa relação de insistência, de repetição.
Na teoria estruturalista do significante, os diferentes componentes de um sistema podem ser tratados em termos de economia do significante. Há sempre um sistema de quantidade de informação ou um sistema binário presente nos diferentes sistemas heterogêneos. No modelo que proponho, não existe tradução entre os diferentes níveis de complexidade. Eles são portadores do seu substrato ontológico.
Tomemos como exemplo a definição do fantasma na teoria da pulsão freudiana. Ela comporta um elemento discursivo que é o elemento representativo, fantasmático, narrativo, e um elemento não discursivo, o afeto. É difícil entender como Freud se arranjou com essa contradição no seio da sua definição de pulsão. Os estruturalistas praticamente esvaziaram a dimensão do afeto para ater-se exclusivamente aos elementos discursivos. A pulsão é por eles tratada em termos de economia do significante.
Na concepção de máquina que aqui evoco, a discursividade não se dissocia deste foco não discursivo, que é justamente o da sua afirmação autopoiética. Esta explosão da categoria do significante é perfeitamente perceptível na economia da imagem, do imaginário ou das cadeias biológicas, domínios nos quais o significante permanece estranho. É assim que a economia do significante, em Lacan, desenvolve-se sempre numa dimensão de linearidade, em uma dimensão do espaço. Vocês conhecem esta fórmula: “um significante representa o sujeito para um outro significante”. O sujeito é, portanto, apreendido “numa relação”. Um dado locus significante, S1, existe numa certa relação com um outro dado locus significante, S2, e o sujeito flutua numa espécie de fenda entre esses dois significantes S1-S2. Esta linearidade estará presente no conjunto das concepções de subjetividade. Esse caráter espacial se reencontra em toda a obra de Lacan, no estádio do espelho, mas também em todas as concepções do eu que ele desenvolverá mais tarde. Considero que, ao limitar-se a esta coordenada, perde-se precisamente o elemento de núcleo maquínico, de autopoiese e de auto-afirmação subjetiva. Quer se situe ao nível do indivíduo completo ou da subjetividade parcial, ou ainda da subjetividade social, este elemento passa precisamente pelo viés do afeto, do PATOS, de uma relação PÁTICA. O que nos leva a dizer, de um ponto de vista fenomenológico, que existe algo de vivo? É uma relação de afeto. Não é uma descrição, nem uma análise proposicional resultante de uma série de hipóteses e deduções, que chegaria a um veredicto do tipo: logo, trata-se de um ser vivo, logo, trata-se de uma máquina. Há uma apreensão pática imediata, não discursiva, da relação de autocomposição ontológica da máquina.
Ela aparece nos sistemas semióticos. Os linguistas já descreveram parcialmente. Penso nos teóricos como Austin, Ducrot, Benveniste, que enfatizaram a questão dos “shifters”, os elementos da linguagem que existem não para portar uma significação, mas para gravar no enunciado a marca do sujeito da enunciação. Lacan também fez uso dessa função performativa. De certo modo, foi através desse tipo de operador que ele construiu a sua teoria da fala plena e da relação simbólica. Para uma boa abordagem desse assunto, recomendo o livro de R. Jakobson (Essais de Linguistique Générale, Minuit, 1963), mestre absoluto de Lacan.
Estamos diante de um paradoxo insustentável que somos obrigados a sustentar. De qualquer forma, todos nós estamos nesta situação. Todas as sociedades têm de aceitar essa aposta, particularmente as sociedades animistas ou científicas. Devemos propor universos de referência, estruturas qualitativas, texturas ontológicas a partir de elementos de discursividade. Temos de produzir, desenvolver UNIVERSOS INCORPORAIS que são universais, ainda que datados ou marcados pelo nome próprio dos seus inventores. Eles poderiam evocar as ideias platônicas e, no entanto, estão inscritos na história. Trata-se de rupturas, mutações, marcadas de um fator de irreversibilidade, de singularidade.
Lévy opera grandes distinções entre as máquinas que derivam do oral ou da escrita, e as máquinas informáticas. Dentro do universo da máquina de processamento de texto – que muda completamente a relação à expressão -, Lévy nota as interfaces que compõem, que singularizam esse novo universo de referência: a escritura, o alfabeto, a imprensa, a informática, a tela catódica, a impressora laser, a linotipo, os bancos de dados, o banco de imagens digitais, as telecomunicações… Pronto, uma nova máquina. Hoje em dia, as crianças que aprendem línguas através do processador de texto não se encontram mais no mesmo tipo de universo de referência, nem de um ponto de vista cognitivo (como se dá uma outra organização da memória, ou melhor, das memórias…), nem na ordem das dimensões afetivas, das relações sociais ou éticas.
O que essa espécie de delírio maquínico suscita? Tomemos um objeto institucional, por exemplo um estabelecimento que acolha doentes psicóticos. Pode-se reificar completamente as relações intersubjetivas dizendo: o doente psicótico vem buscar ajuda de indivíduos que possuem um saber, que administrarão medicamentos, interpretações, indicações comportamentais para curar a psicose. É toda uma concepção da subjetividade onde cada um está fechado na sua mônada, o que, num segundo momento, obriga a construir meios de “comunicação”. É o universo da “referência comunicacional”. É preciso inverter essa perspectiva e nunca partir de entidades fechadas umas em relação às outras, pois isto implica a intervenção de modos de “comunicação”, de “transferência”. Pelo contrário, a transferência deve ser primeira, deve já estar lá. Haverá máquina de subjetivação (ou não), segundo haja ultrapassamento (ou não) dos diferentes limiares de insistência ontológica, subjetiva. Nesse momento, nessa relação autopoiética, há um conhecimento imediato e pático da situação, “alguma coisa se passa”. Quando uma máquina amorosa ou uma máquina de medo se desencadeia, não é devido ao efeito de frases discursivas, cognitivas ou dedutivas. Ocorre de repente. Tal máquina desenvolverá progressivamente diferente dos meios de expressão.
A clínica de La Borde é um estabelecimento concebido (em princípio) como uma máquina de subjetivação que, por sua vez, é composta de n subconjuntos de subjetivação. Desde a internação, essas relações de subjetivação devem funcionar entre o doente e quem o acolhe. Outros tipos de relações serão construídas a seguir entre os pacientes, os monitores, mas também com os animais ou as máquinas. Cada um desses conjuntos deve ser suscetível de produzir ou de ser vetor de tratamento, vetor de tomada de consistência existencial para os psicóticos, os quais, precisamente, estão em fase de descompensação ontológica. Será que nos contentaremos em fazer a constatação passiva: “Tudo vai bem, não nos restringimos ao mero face-a-face com o doente, há várias outras inter-relações”? Ou, ao contrário, trabalharemos as linhas de virtualidade maquínica, as linhas de alteridade maquínica trazidas pelos diferentes subconjuntos? Se a cozinha for considerada um foco autopoiético de subjetivação, será importante preocupar-se com o seu espaço, com suas dimensões arquiteturais, para favorecer as trocas e para que ela não se torne uma pequena cidade fechada em si mesma. Hoje em dia, nos hospitais, caminhões trazem, do exterior, os pratos de comida já prontos. Não há máquinas de subjetivação. Uma máquina-cozinha implica um certo tipo de espaço, mas também num certo tipo de formação e de troca entre as pessoas que nela trabalham. Os cozinheiros devem poder circular pelos outros serviços para conhecer as posições de alteridade dos diferentes postos de trabalho. É uma máquina complexa, um sistema de interfaces. Diria o mesmo para todos os outros serviços. A condução de um automóvel, por exemplo, é um momento muito importante para os psicóticos. Um psicótico pode ser incapaz de manter uma conversa, mas perfeitamente capaz de dirigir. Haverá assim uma composição subjetiva em função da tomada de consistência desses diferentes conjuntos. Enquanto alguns dentre eles perdem a sua consistência, outros poderão aparecer. Pode-se também levantar o problema de uma perda de consistência geral, na medida em que se entra em relações de serialidade de natureza etológica, provocando estados de selvageria inter-humana tal como ocorrem nos hospitais tradicionais.
A posição autopoiética e “Hipertextual” da máquina possui uma composição maquínica, em face dessa cortina de ferro ontológica que separa o sujeito de um lado e as coisas de outro.
FONTE
GUATTARI, F. A Paixão das Máquinas. In: O Reencantamento do Concreto. São Paulo: HUCITEC, 2003. p. 39-52. Cadernos de Subjetividade. Tradução de Jayme Aranha Filho.