PSICANÁLISE E/OU ESQUIZOANÁLISE? ALMA, NOMEAÇÕES E FALSOS PROBLEMAS – Suely Rolnik

(1) “Psicanálise e/ou Esquizoanálise? Alma, Nomeações e Falsos Problemas” [título criado por Anderson Santos]

Suely Rolnik pergunta se diante do dispositivo de trabalho com o inconsciente faz sentido manter o termo “psicanálise” para nomeá-lo, tendo em vista o que prevalece sob este nome? Ou seria mais preciso – e, sobretudo, mais eficaz – substituí-lo por outro termo, como o fizeram Guattari e Deleuze ao lhe atribuir o nome de “esquizoanálise?”.

Para ela, há dois falsos problemas se considerado como uma simples questão de nome, pois 1) “o que importa não é o nome em si, mas a alma de que este nome é portador (como nos ensinam os Guarani)” e 2) “se considerado do ponto de vista da disputa de poder entre escolas, sociedades ou disciplinas dedicadas ao trabalho com o inconsciente que competem pelo troféu de arautos de uma suposta verdade universal e, portanto, pelo poder soberano (ideia que emerge de uma das engrenagens da fábrica de mundos dirigida pelo regime de inconsciente dominante que o trabalho na esfera micropolítica visaria dissolver)”.

Há décadas, Suely argumenta, numa teia próxima de Guattari, que “a esquizoanálise não é uma escola, tampouco uma sociedade ou uma nova disciplina; ela é um estado de espírito, no qual ele busca exercer em sua potência ativa na condução de nossa existência. Sendo assim, como em relação a qualquer decisão conceitual pensada dessa perspectiva, manter ou não o nome de psicanálise, deve ser considerado estrategicamente em função de cada situação na qual tal nome se enuncia, avaliando as forças em jogo em sua esfera micropolítica: não só as forças em disputa no próprio campo institucional da psicanálise, da assim chamada “saúde mental” ou da universidade, mas, mais amplamente, as forças em disputa nos diferentes setores do campo social”.

Portanto, “a palavra que se escolhe para designar esse dispositivo deve ser aquela com maior poder de transmitir sua alma nesses diferentes âmbitos, com suas diferentes linguagens, o que aumenta seu poder de contágio. Além disso, criam-se assim as condições de uma aliança com as forças que atuam micropoliticamente em cada contexto (como é o caso dos movimentos sociais aqui referidos), o que gera uma potencialização recíproca e a criação de teias favoráveis à emergência de um novo cenário. A propósito, não seria esta a função primordial deste dispositivo?

Se a decisão se inclina pela substituição do nome na intenção de manter ativa a força micropolítica do trabalho com o inconsciente e seu poder de proliferação, convém lembrar que nada garante que isso ocorra. Basta tomar como exemplo os destinos do termo esquizoanálise, proposto por Guattari e Deleuze para dar nome ao território inaugurado com o vigoroso trabalho de problematização da psicanálise operado em sua obra conjunta. Uma problematização que já vinha se operando radicalmente na obra teórica de Guattari, indissociavelmente conectadas com suas práticas clínicas e ativistas, desde sua juventude nos anos 1950.

[…] Por um lado, é inegável o caráter certeiro dessa decisão da dupla G&D: o campo de enunciação na psicanálise encontrava-se a tal ponto cristalizado, como diz o próprio Guattari numa entrevista que, sem criar um outro nome para o dispositivo de trabalho com o inconsciente, a ativação de sua potência micropolítica não teria o poder de proliferar. Em outras palavras, o trabalho com o inconsciente permaneceria desprovido de sua potência de ato essencialmente herético que, orientado pela vida, visa produzir a transvaloração dos valores estabelecidos – exatamente o que define sua potência micropolítica.

Os enunciados produzidos pela ativação da potência micropolítica do dispositivo analítico correriam o risco de perder sua alma. Um risco decorrente da submissão dos sujeitos ao regime de inconsciente dominante (da qual os analistas não escapam), cuja blindagem narcísica, própria da política de subjetivação sob esse regime, não lhes permitiria o acesso aos efeitos desestabilizadores de tais enunciados. Para defender-se desses efeitos, a tendência seria a de demonizar tais enunciados ou de incorporá-los ao circuito fechado da cartografia teórico-pragmática psicanálise, fantasiando que eles já estariam nela presentes.

Com essa ideia inadequada, não se reconheceria a urgência de redesenhar a arquitetura do dispositivo psicanalítico, de modo a colocar em seu centro o exercício de sua potência micropolítica. Esvaziado da alma do agenciamento de enunciação que deu origem aos enunciados que trazem o nome de psicanálise (ainda que misturados com ideias inadequadas para dar corpo à referida alma), manter este nome para designá-lo não teria a força de libertar de seu recalque a potência de que é portador. Libertar essa potência pudesse ser ativada no presente, criando-se outros enunciados a partir de novos agenciamentos de enunciação, de modo a avançar na desmontagem do regime de inconsciente dominante”.

Leia o texto completo no livro: “PSICANÁLISE E ESQUIZOANÁLISE: DIFERENÇA E COMPOSIÇÃO” (org. Anderson Santos, n-1 edições, 2022).

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