Eu preciso da ajuda de vocês para clarear as ideias. Percebi que – e isso faz parte das coisas que gostaria de abordar aqui –, em certas situações, não era possível proceder a uma tal clarificação sem o auxílio de um agenciamento coletivo de enunciação. Do contrário, as ideias escapam das mãos! Faz um bom tempo que estou à procura de um polígono de sustentação para circunscrever algumas coisas que estão dando voltas na minha cabeça. Não sei se nós todos aqui constituiremos um tal polígono. Veremos! No decorrer de diversas discussões anteriores, Mony Elkaïm e eu começamos a colocar o assunto em pauta, mas de maneira episódica, sempre “às pressas”, nos bastidores de congressos e de encontros, onde tenho sido convidado a discutir referências sistêmicas em terapia familiar. Todavia, até hoje, nunca nos propusemos deliberadamente a procurar os meios de aproximar essas reflexões ao trabalho crítico que tenho realizado em outro contexto com Gilles Deleuze sobre a teoria e a prática psicanalítica.
Hoje, depois de uma certa desobstrução, de uma certa “tabula rasa”, proponho retirar aquilo que nos escombros psicanalíticos poderia ter ficado em pé e que mereceria ser repensado a partir de outros arcabouços teóricos – se possível de forma menos reducionista que aqueles dos freudianos e dos lacanianos.
Evidentemente, desejo que este seminário permita debates mais amplos, mais abertos. Devo advertir de passagem que minhas posições serão algumas vezes dificilmente “discutíveis”. Não que eu pretenda impô-las! Mas elas irão se aventurar sobre um terreno, digamos, solitário, onde talvez tenha um pouco de dificuldade para me fazer entender de maneira exaustiva. É claro que não se trata aqui nem de pedagogia nem de confrontação científica, mas unicamente de um suporte para o trabalho de cada um, de um agenciamento de enunciação que deverá permitir, se tudo for bem, ampliarmos nossos respectivos processos de elucidação. Com a esperança de que, no desenrolar, estes processos sejam objeto de interseções e de cruzamentos que lhes permitirão desenvolver-se em rizomas.
Este seminário sobre “as esquizoanálises” não encontrará seu próprio regime a menos que ele mesmo se ponha a funcionar em um nível que eu qualificaria de “meta-modelização”. Dito de outra forma, se ele nos permitir cercar melhor nossos próprios agenciamentos de enunciação – seria melhor dizer: os agenciamentos de enunciação aos quais estamos adjacentes. Neste sentido, faço questão de repetir que nunca concebi a esquizoanálise como uma nova especialidade, que seria chamada a colocar-se nas fileiras do domínio psi. Em minha opinião, suas ambições deveriam ser, ao mesmo tempo, mais modestas e maiores. Modestas porque, se ela deverá existir um dia, é porque já existe um pouco por toda parte, de maneira embrionária, sob diversas modalidades; no entanto, ela não tem nenhuma necessidade de uma fundação institucional dentro da boa e velha regra. Maiores, na medida em que a esquizoanálise tem, do meu ponto de vista, uma vocação para tornar-se uma disciplina de leitura de outros sistemas de modelização. Não a título de modelo geral, mas como instrumento de deciframento de pragmáticas de modelização em diversos domínios. Poder-se- ia objetar que o limite entre um modelo e um meta-modelo não se apresenta sempre como uma fronteira estável. E que, em certo sentido, a subjetividade é sempre mais ou menos atividade de meta-modelização (na perspectiva proposta aqui: transferência de modelização, passagens transversais entre máquinas abstratas e territórios existenciais). O essencial torna-se então efetuar um deslocamento do acento analítico que consiste em fazê-la derivar de sistemas de enunciado e de estruturas subjetivas pré-formadas para agenciamentos de enunciação capazes de forjar novas coordenadas de leitura e de “pôr em existência” representações e proposições inéditas.
A esquizoanálise será, portanto, essencialmente excêntrica em relação às práticas psi profissionalizadas, com suas corporações, sociedades, escolas, iniciações didáticas, “passe”, etc. Sua definição provisória poderia ser: a análise da incidência dos agenciamentos de enunciação sobre as produções semióticas e subjetivas, em um contexto problemático dado. Eu voltarei a essas noções de “contexto problemático”, de cena e de “posto em existência”. Por enquanto, me limito a mostrar que eles podem referir-se a coisas tão diversas como um quadro clínico, um fantasma inconsciente, uma fantasia diurna, uma produção estética, um fato micropolítico… O que conta aqui é a ideia de um agenciamento de enunciação e de uma circunscrição existencial, que implica o desenvolvimento de referências intrínsecas, ou seja, de um processo de auto-organização ou de singularização.
Por que esse retorno, como um leitmotiv, aos agenciamentos de enunciação? Para evitar atolar-se, tanto quanto for possível, no conceito de “Inconsciente”. Para não reduzir os fatos da subjetividade a pulsões, afetos, instâncias intra-subjetivas e relações inter-subjetivas. Como é óbvio, esse gênero de coisas terá um lugar nas preocupações esquizoanalíticas, mas somente a título de componente e sempre em certos casos de enfoque.. Destacamos, por exemplo, que existem agenciamentos de enunciação não comportando componentes semiológicos significacionais, agenciamentos que não têm componentes subjetivos, outros que não têm componentes conscienciais… O agenciamento de enunciação será levado, assim, a “exceder” a problemática do sujeito individuado, da mônada pensante conscientemente delimitada, das faculdades da alma (o entendimento, a vontade…), na sua acepção clássica. Parece-me importante sublinhar de passagem que, no início, sempre tratamos com conjuntos, com conjuntos que são, a princípio, indiferentemente materiais e/ou semióticos, individuais e/ou coletivos, ativamente maquínicos e/ou passivamente flutuantes.
A questão torna-se então a do status desses componentes de agenciamento que se encontram “no entre”, em interação, entre domínios radicalmente heterogêneos. Eu tinha dito não me lembro onde – que desejamos construir uma ciência na qual se possa misturar, por exemplo, buchas de limpeza e panos de prato com outras coisas ainda mais diversas. Entretanto, quando saídos de um desfile de repercussões contextuais, já não podemos englobar as buchas de limpeza e os panos de prato sob a rubrica geral de utensílios de uso doméstico, mas devemos estar preparados para aceitar de bom grado que buchas de limpeza se diferenciem em devires singularizados, como no caso de um garçom de bar lavando copos com uma bucha, ou ainda de militares “passando a bucha” em um foco de resistência… Em uma perspectiva psicanalítica clássica se leva em conta esse tipo de contextualidade apenas em suas incidências significantes e nunca como referente gerador de efeitos pragmáticos nos campos sociais, institucionais e materiais. É essa micropolítica do sentido que me parece dever ser O efeito analítico presumido não reside mais em uma derivação de cadeias semiologicamente interpretáveis, mas em uma mutação – a-significante – do “contexto de universo”, isto é, da constelação de registros de referência colocados em questão. Os agenciamentos coletivos e/ou individuais de enunciação não são somente objetos de pleno direito da investigação analítica, mas igualmente meios privilegiados de acesso a esses objetos, de maneira que a problemática da transferência da enunciação se instaura como prioridade sobre aquela das imagos e das estruturas pretensamente constitutivas da subjetividade. De maneira contingente, certos agenciamentos são colocados em posição de “analisador”[1] de formações do inconsciente. Pouco importa que esses analisadores sejam conscientes de sua “missão” ou sejam investidos por outras instâncias para ocupar uma tal posição. Um agenciamento analítico, nessas condições, pode dimensionar-se diferentemente, conforme ele encarne:
- sobre um indivíduo, por exemplo, Freud que inventa a psicanálise;
- sobre um grupo sociologicamente delimitado, por exemplo, uma gangue de jovens que “revela” as potencialidades de um gueto;
- sobre fenômenos sociais mais difusos, tais como mutações de sensibilidade coletiva ou movimentos de opinião incontrolados;
- sobre uma prática pré-pessoal, um estilo, uma mutação criativa que mobiliza um indivíduo ou um grupo por meio de seus ..
(todos esses casos de figura e muitos outros podendo ser combinados de múltiplas maneiras).
Assim, a démarche esquizoanalítica não se limitará nunca a uma interpretação de “dados”; dirigirá seu interesse fundamentalmente para o “dadivoso”, para os agenciamentos que promovem a concatenação dos afetos de sentido e dos efeitos pragmáticos. Não escapando a essa plasticidade geral dos agenciamentos, os “analisadores” não se apresentam como dispositivos pré-estabelecidos, não pretendem jamais instituírem-se como estruturas legítimas de enunciação – como é o caso da cure type. psicanalítica. Não só inexistirá um protocolo esquizoanalítico normalizado, mas uma nova regra fundamental, uma “regra anti- regra” imporá um constante questionamento dos agenciamentos analisadores, em função de seus efeitos de feed-back sobre os dados analíticos.
Esses feed-backs constituem a matéria analítica por excelência, sendo negativos quando conduzem a uma simples re-equilibragem do agenciamento e positivos quando colocam em jogo processos de splitting.., de catástrofes. Como um agenciamento toma o lugar
de outro agenciamento para “gerar” uma situação dada? Como um agenciamento analítico, ou que pretende ser tal, pode mascarar um outro? Como vários agenciamentos entram em relação e o que advém disso? Como explorar, em um contexto que aparenta estar totalmente bloqueado, as potencialidades de constituição de novos agenciamentos? Como “dar assistência”, se esse for o caso, às relações de produção, de proliferação, à micropolítica desses novos agenciamentos? Esse é o tipo de questão que a esquizoanálise será levada a se colocar. Esse trabalho da subjetividade – no sentido em que se trabalha o ferro, ou as escalas do piano, ou os momentos fecundos da existência na “Busca” proustiana – é identificado aqui a uma produção do referente ou, mais precisamente, a uma meta-modelização de relações trans-agenciamentos. Longe de coincidir com isso que entendemos comumente como subjetividade, esse trabalho não tem mais nada a ver com não sei que sutil e inefável essência de um sujeito em busca de uma vertiginosa e impossível adequação consigo mesmo, e com Deus como única testemunha. A subjetividade esquizoanalítica se instaura na interseção de fluxos de signos e de fluxos maquínicos, na encruzilhada de fatos de sentidos, de fatos materiais e sociais, e, sobretudo, de transformações resultantes de suas diferentes modalidades de agenciamentos. São estas últimas as que lhe fazem perder seu caráter de territorialidade humana e que a projetam para processos de singularização que são ao mesmo tempo os mais originais e os mais futuristas – devires animais, vegetais, cosmos, devires imaturos, sexo multivalente, devires incorporais… Para essa subjetividade, sem cessar de ser um caniço pensante., o homem é hoje adjacente a um caniço “que pensa por ele”, a um phylum maquínico que o leva além de seus possíveis anteriores.
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As formas arcaicas de enunciação repousam, essencialmente, sobre a palavra e a comunicação direta, enquanto os novos agenciamentos recorrem cada vez mais aos fluxos informativos mediáticos, levados em canais cada vez mais maquínicos (as máquinas às quais nos referimos aqui não são apenas de ordem técnica, mas também científicas, sociais, estéticas, etc.) que extravasam por todas as partes os antigos territórios subjetivos individuais e coletivos. Enquanto a enunciação territorializada era logo-cêntrica e implicava em um controle personalizado dos conjuntos sobre os quais ela discursava, a enunciação desterritorializada, que pode ser qualificada de maquínico-cêntrica, remete-se a memórias e a procedimentos não humanos para tratar complexos semióticos que escapam, em grande parte, a um controle consciencial direto.
Mas não nos detenhamos em uma dicotomia tão simples, que se arriscaria a ser muito redutiva. Como consequência das considerações precedentes, somos já naturalmente levados a declinar diferentes modalidades de agenciamentos de enunciação, em função de prevalecerem ou não componentes de semiotização, de subjetivação e de conscientização (essa lista pode sempre ser estendida em função das necessidades descritivas).
– Os agenciamentos não semióticos
As construções estigmérgicas das abelhas ou das térmitas nos fornecem um primeiro exemplo pelas formas muito elaboradas às quais elas chegam, a partir de “codificações modulares” evidentemente nem semióticas, nem subjetivas, nem conscienciais. Dentro da ordem da enunciação humana, sistemas similares, tais como as regulações endócrinas, podem ser levadas a ocupar um lugar determinante no seio de agenciamentos nos quais elas, de certo modo, colocam entre parênteses os componentes semióticos. Penso, em particular, no provável papel de uma auto-adicção à base de endorfina no “endurecimento” de certos quadros sadomasoquistas ou nas formas agudas de anorexia mental.
- os agenciamentos semióticos não subjetivos
Por exemplo, os quadros psicossomáticos relativos às “couraças do caráter” estudadas por Wilhelm Reich. As representações subjetivas passam aqui “ao lado” da semiotização somática.
- os agenciamentos semióticos subjetivos não conscientizados
Por exemplo, agenciamentos pertinentes à etiologia humana que implicam aprendizagens por estampagem inconsciente, delimitações de território, comportamentos de acolhida, de parada, de submissão, de hostilidade, etc. Imagino que um lacaniano, que tivesse a paciência de me seguir até aqui, não deixaria de objetar que tudo o que eu falo é bom e bonitinho, mas não tem nada a ver com o Inconsciente, o verdadeiro Inconsciente psicanalítico, que não podemos conceber fora das tramas da linguagem… Conhecemos essa música! A isso eu responderia que os agenciamentos esquizoanalíticos têm um vivo interesse nas estruturas reducionistas, do tipo triângulo edipiano e castração simbólica, às quais conduz, com efeito, uma certa capitalização da subjetividade, no quadro do que chamarei de subjetividade capitalística, mas que isso não os dispensa em nada de tratar de outras produções de subjetividade em todos os domínios da psicopatologia e da antropologia, respeitando os caracteres específicos. Repito novamente que, nesse sentido, a pretensão da esquizoanálise é a de se constituir como agenciamento meta-modelizador de todos esses domínios heterogêneos, que ela considera como outras tantas “matérias à opção”. Partimos, pois, da hipótese mais extensiva, a saber, a da existência, para o homem, de um domínio inconsciente associando no mesmo pé de igualdade fatos dos sentidos levados por estruturas de representação e de linguagem e sistemas completamente diferentes como os de codificação, de moldagem, de decalque, de estampagem… relativos aos componentes orgânicos, sociais, econômicos, etc. A colocação em jogo de fenômenos de subjetivação, quer dizer, da instauração de territórios vividos, assumidos como tais numa relação de delimitação com um mundo objetal e de alter ego, só será ocasional, facultativa. Em outros termos, nem a questão do sujeito, nem a do significante linguístico estarão necessariamente no centro das problemáticas colocadas nesse domínio inconsciente. O mesmo acontece com a questão da consciência. Diferentes processos de conscientização se sucedendo e/ou se sobrepondo uns aos outros podem ser colocados em jogo. Dirigir um carro me parece ser um bom exemplo para ilustrar esses tipos de ramificações e desramificações. Na estrada, pode acontecer de instaurar-se um estado de sonho diurno, sobre um fundo de pseudo-sonolência. Com efeito, o sujeito não dorme; ele deixa funcionando em paralelo vários sistemas de consciência, dos quais alguns permanecem em prontidão, enquanto outros passam a primeiro plano. É o que acontece, por exemplo, quando a sinalização da estrada, um acidente de trânsito ou a interpelação de um passageiro restabelecem uma sequência de hipervigilância. O agenciamento de enunciação, no sentido amplo que lhe estou dando aqui, passa, assim, por diversos níveis de servidão maquínica. (para retomar uma noção antiga da cibernética). Portanto, antes de retornar constantemente às mesmas estruturas pretensamente fundadoras, aos mesmos arquétipos, aos mesmos “matemas”, a meta-modelização esquizoanalítica escolhe cartografar composições do inconsciente, tópicos continentes, evoluindo com as formações sociais, as tecnologias, as artes, as ciências, etc. Mesmo quando for levada a liberar alguns casos de figura do inconsciente, por exemplo, a partir de fórmulas de organização-egóica, personológicas, conjugalistas, familialistas, domésticas… – ela não o fará jamais, eu o repito, à maneira de protótipo estrutural.
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Vamos nos deter em algumas implicações da “descolagem” entre consciência e subjetividade, tal qual começamos a considerar. Em primeiro lugar, penso que seria necessário diferenciar:
- um inconsciente absoluto, a nível molecular, que escaparia radicalmente a qualquer re-presentação e cujas manifestações revelariam apenas figuras a-significantes²;
- um inconsciente relativo, a nível molar, que se organizaria, ao contrário, em representações mais ou menos estáveis. Aliás, tenho medo de cair, pela minha vez, em uma petrificação tópica de instâncias psíquicas, como a que levou Freud a separar em vertentes opostas: o Inconsciente e o Consciente (acompanhado do Pré-consciente); depois, ulteriormente: o Id e o Ego (com seus anexos); ou Lacan a erigir: uma ordem Simbólica, como armadura do Real e do Imaginário.
Já a partir de um primeiro exame, a denominação de inconsciente molecular se revela claudicante. Com efeito, esse tipo de agenciamento pode perfeitamente comportar a existência de componentes conscienciais. Os processos moleculares que atuam em uma neurose histérica ou em uma neurose obsessiva são inseparáveis de um tipo particular de consciência e até de hiper-consciência, no caso da segunda. Um agenciamento onírico, ou um agenciamento delirante, comportam também modos de consciencialização idiossincráticas, ao mesmo tempo em que operam a partir de uma matéria a-significante – o que não lhes impede veicular também imagens e cadeias significantes, mas retendo delas apenas o que eles podem tratar como figuras a-significantes³. Acredito que não ganhamos nada querendo dotar todos esses agenciamentos de uma mesma essência consciencial, sempre idêntica a ela mesma. Progressivamente, se chega a consciências-limite, como nas experiências místicas de ruptura com o mundo, na catatonia, e até, por que não, nas adjacências de tensões orgânicas ilocalizáveis ou nos comas mais ou menos profundos. Portanto, todas as instâncias da enunciação podem ser conjuntamente conscientes e inconscientes. É uma questão de intensidade, de proporção, de alcance. Apenas existe consciência e inconsciência relativas a Universos incorporais de referência que autorizam montagens compósitas, superposições, deslizamentos e disjunções. Pressentimos que na sua tangente deve existir uma consciência absoluta que poderia precisamente coincidir com nosso inconsciente absoluto, constitutivo de
Já a partir de um primeiro exame, a denominação de inconsciente molecular se revela claudicante. Com efeito, esse tipo de agenciamento pode perfeitamente comportar a existência de componentes conscienciais. Os processos moleculares que atuam em uma neurose histérica ou em uma neurose obsessiva são inseparáveis de um tipo particular de consciência e até de hiper-consciência, no caso da segunda. Um agenciamento onírico, ou um agenciamento delirante, comportam também modos de consciencialização idiossincráticas, ao mesmo tempo em que operam a partir de uma matéria a-significante – o que não lhes impede veicular também imagens e cadeias significantes, mas retendo delas apenas o que eles podem tratar como figuras a-significantes³. Acredito que não ganhamos nada querendo dotar todos esses agenciamentos de uma mesma essência consciencial, sempre idêntica a ela mesma. Progressivamente, se chega a consciências-limite, como nas experiências místicas de ruptura com o mundo, na catatonia, e até, por que não, nas adjacências de tensões orgânicas ilocalizáveis ou nos comas mais ou menos profundos. Portanto, todas as instâncias da enunciação podem ser conjuntamente conscientes e inconscientes. É uma questão de intensidade, de proporção, de alcance. Apenas existe consciência e inconsciência relativas a Universos incorporais de referência que autorizam montagens compósitas, superposições, deslizamentos e disjunções. Pressentimos que na sua tangente deve existir uma consciência absoluta que poderia precisamente coincidir com nosso inconsciente absoluto, constitutivo de uma presença em si não-tética, fora de toda referência de alteridade ou de mundanidade.
X. – Mas, esse inconsciente absoluto é biológico?
F.G. – Sim, entre outras coisas!
J.-C.P. – Eu me pergunto se, nessa vertente maquínica molecular, você não retoma aquilo que há alguns anos tinha colocado sobre o desejo? Efetivamente, alguma coisa completamente heterogênea, caótica, rizomática, etc., cuja digitalização – cuja marcação, se você prefere, por códigos de tipo linguístico – liberaria o que Lacan chama o inconsciente. Isso lhe permite dizer – a ele próprio e a seus seguidores que se ocupam de psicóticos: “O esquizofrênico não tem inconsciente”. De certa forma, é a mesma partilha, entre o que é tomado nas malhas de um sistema de significação ou de significante, e o que não é tomado, isto é, todo o resto, que é o essencial?
F.G. – Na sua formulação há alguma coisa que me embaraça um pouco. Eu não me interesso em restabelecer uma oposição entre processo primário–elaboração secundária. Sobretudo, se ela deve ser fundada, como é o caso da segunda tópica freudiana (Id, Ego, Superego), sobre a ideia de que a passagem de uma para a outra corresponderia a uma ruptura de nível dos modos de diferenciação: o caos se encontraria do lado do primeiro e a estruturação do lado do segundo. Com efeito, como você o sublinha, não é porque não se tem acesso digitalizado, binarizado, ao inconsciente molecular que se naufraga tanto quanto ele em um mundo de irremediável desordem e de entropia. Isso me leva à questão do desejo. Sim! É verdade que eu gostaria de escapar hoje a certos mal-entendidos de ordem, digamos econômica, no sentido em que Freud entende a coisa, os quais se desenvolveram a partir de O Anti-Édipo, em torno de noções como fluxo e corte de fluxo. Portanto, nós temos colocado o acento nas dimensões maquínicas desterritorializadas do desejo, escapando às coordenadas de conjuntos habituais (daí nossa insistência em categorias paradoxais como a do corpo sem órgãos). Mas esta apresentação do desejo talvez não tenha sido suficientemente deslindada da ideia de flutuações “planas”, territorializadas, autorizando referências a uma economia fechada sobre si própria, em equilíbrio.
***
Aliás, um dos objetivos principais deste seminário será tentar elucidar como esta categoria de desterritorialização pode evitar que transformemos noções como a de subjetividade, consciência, significância… em entidades transcendentais impermeáveis a situações concretas. As mais abstratas referências, as mais radicalmente incorporais, estão em contato direto e ativo com o real; elas atravessam os fluxos e territórios os mais contingentes. Elas não estão de maneira nenhuma garantidas contra as alterações históricas ou as mutações cosmogenéticas. Enfim, o significante não transcende a libido. (A esse propósito, poderíamos facilmente demonstrar que Lacan foi progressivamente substituindo aquele por esta)4. Em certos contextos, o sentido pode ser maciçamente oposto aos fluxos materiais e signaléticos, concebidos como essencialmente passivos. Mas em outros contextos ele pode ser originado a partir de uma “maquínica” de flutuações, em ruptura (atual ou potencial) com os estratos e as homeostases. Essa opção processual, essa recusa de uma economia generalizada das equivalências, essa escolha do “clinâmen” que singulariza a repetição, nos têm conduzido a rejeitar as cartografias fixas, as invariantes consagradas no domínio da subjetividade – mesmo quando elas se instauram, de fato, com certos ares de agenciamento, como é o caso da triangulação edipiana no campo da produção capitalística. Nós escolhemos considerar as situações apenas sob o ângulo de cruzamentos de agenciamentos, que produzem, até certo ponto, suas próprias coordenadas de meta-modelização. Um cruzamento pode, certamente, impor suas conexões; mas não é uma sujeição fixa; ele pode ser contornado, pode perder sua potência de conexão quando alguns dos seus componentes perdem sua consistência.
Tentaremos ilustrar esse ponto. Uma cantora perde sua mãe. Na semana seguinte, ela perde duas oitavas na sua tessitura; começa a desafinar; suas competências de interpretação parecem arruinar-se bruscamente. O canto dessa mulher se tinha instaurado na interseção de múltiplos agenciamentos dos quais, a maioria, é claro, ultrapassavam a circunscrição de sua pessoa. O componente de enunciação que é enxertado na sua relação com a mãe passa pela prova da morte. Isso não significa, de jeito nenhum, sua extinção. Com efeito, sua parte desatualizada – o passado que não pode ser retomado – levando vantagem sobre sua parte de possíveis abertos, coloca em circulação uma representação de sua mãe, errática e vagamente ameaçadora. Essa imagem da morte, a salvo de qualquer prova da realidade, é portadora de petrificação. O sujeito, como Freud escreveu, se “agarra” ao objeto perdido.5 Mas, neste caso particular, a única consequência manifesta dessa “contração” semiótica parece estar localizada na parte vocal da atividade musical. Podemos pensar que uma exploração maior revelaria
outros incidentes. No entanto, essa pesquisa seria absolutamente necessária? Isso não é evidente, pois, em semelhante caso devemos sempre temer o fato de “inventar” novos sintomas a partir da transferência e da interpretação. Seja forçando as cores de um quadro etiológico que parece “colar bem”; seja que o próprio sujeito lhe ofereça sobre uma bandeja os sintomas adequados, o que frequentemente dá no mesmo. Neste caso, trata-se de tomar cuidado com as solicitações que nos convidam a gerar o “trabalho do luto” a partir de uma dificuldade, para a libido, de mover-se na direção de um objeto de substituição. Aqui, como em outros casos, a descrição em termos de objeto e não em termos de agenciamento de enunciação coloca o inconveniente maior de interditar a iluminação de campos de possíveis não programados. Ali onde Freud apenas considerava duas opções – seja a lenta e melancólica liquidação da libido investida sobre o objeto perdido, seja uma “psicose alucinatória do desejo”6, no caso de extrema fixação -, devemos manter-nos dispostos a acolher reorganizações de agenciamentos escapando sem complexo das maldições da identificação primária ou da relação “de incorporação oral”. Precisamente, foi isso que aconteceu com a cantora que, se vocês me permitem a expressão, amorteceu perfeitamente o golpe, conquistando, nessa ocasião, novos degraus de liberdade e gerando daí em diante seu Superego de maneira muito mais flexível. A perda de consistência de um componente não terá sido acompanhada, desta vez, de uma inibição em cadeia. Antes, terá servido de chapa sensível, de revelador, de sinal de alarme. Mas do que, ao certo? Eis toda a questão, à qual não convém responder depressa! Porque talvez essa pergunta não tenha uma resposta propriamente dita. Um índice a-significante – a restrição do desempenho vocal – marca o fim de algo sem interditar que outra coisa intervenha, como o contexto o revela. Bom! Nada mal! Vale dizer que neste caso há algumas vias balizadas de longa data: o canto, a sobrecodificação moralizante da mãe, que experimentam uma transformação pragmática. Esses fatos deveriam ser colocados no passivo, na coluna de faltas e déficits: Nada garante isso! Todavia, o jogo está aberto! Porque dessa inscrição podem depender muitas coisas. Deve ficar bem claro que toda indução transferencial, mesmo a mais sutil, a mais desviada, que deixasse supor a existência por trás dessa manifestação sintomática de uma culpabilidade de origem edipiana, poderia ter efeitos devastadores ou, no mínimo, nos trazer de volta ao quadro depressivo que é “normalmente” esperado em circunstâncias semelhantes. Não me parece menos arriscado interrogar-se sobre as qualidades materiais desse componente de expressão que lhe permitirá, talvez, economizar outros danos materiais. Será que o fato de ela dispor de um componente tão “luxuoso” quanto o canto não permitiu que tocasse um alarme preventivo e sugerisse uma bifurcação? Por conseguinte, aquilo que foi chamado a vegetar sob forma de inibição se transformou na iniciação de processos de singularização.
X. – Você acha que, sem a existência do canto, outra coisa teria podido acontecer?
F.G. – Talvez ela tivesse perdido outros tipos de oitavas, em outros registros! Mas nada está seguro neste domínio. Tudo aqui é questão, repito, de limiar de consistência, de quanta de transformação, de probabilidade de acúmulo de efeito. Alguns traços da rostidade da mãe são desligados do rosto, desterritorializados das coordenadas do Superego, para trabalhar por conta própria, sobre outras linhas do possível, outras constelações de universos. Seus franzimentos de vigilância ficaram entalados nos extremos da escala. Ali, eles encontraram um tipo de altar no qual as oferendas sacrificiais não foram muito onerosas. Mas, será que esse tipo de descrição, que tem mais a ver com os mitos e os contos de Gourmantché ou dos Warlpiri, é menos confiável que os enquadramentos no seio de dispositivos intra- psíquicos “pré-equipados”, de complexos tipificados e de instâncias estruturalizadas?
J.-C.P. – Você está pensando nas teorias sobre a histeria?
F.G. – Sim, com certeza! Poderíamos retomar a célebre “bola faringiana”, o vai-e-vem dos objetos kleinianos, a ruptura da identificação consecutiva à introjeção melancólica e, por que não, o desintrincar da pulsão de morte.
J.-C.P. – O que você diz, em suma, é que gostaria de deixar aberta a possibilidade, não de interpretar, mas de articular diferentemente planos aparentemente tão distantes uns dos outros quanto a voz fonológica concreta, a voz musical como dado abstrato e, por exemplo, a estrutura da família. E isso implicaria em fazer a hipótese de conexões completamente diferentes das que se tem podido imaginar até o presente.
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A categoria de desterritorialização deveria, pois, nos permitir separar a problemática da consciência – e, por conseguinte, do inconsciente – daquela da representação do eu e da unidade da pessoa. A ideia de uma consciência totalizante, totalitária (“Eu sou dono de mim e do universo”)7 participa do mito fundador da subjetividade capitalística. De fato, o que existem são diversos processos de conscientização, resultando da desterritorialização de territórios existenciais, que são, eles mesmos, múltiplos e emaranhados. Mas, por sua vez, esses diferentes instrumentos para forjar um para-si e singularizar uma relação com o mundo do em-si e dos alter egos, não poderiam adquirir uma consistência de mônada existencial a menos que conseguissem exprimir-se sobre uma segunda dimensão de desterritorialização que eu qualificaria de discursivação energética. Chegamos assim no esquema seguinte (Fig. 1) que antecipa algo sobre pontos que só serão abordados ulteriormente.
Quatro funtores. F.T.Ф.U., pelo viés de suas relações de pré-suposição recíproca (indicadas em abscissa) e de suas relações de composição (indicadas em ordenadas) desenvolvem quatro domínios:
- Fluxos materiais signaléticos;
- Territórios existenciais;
- Phylum maquínicos abstratos;
- Universos incorporais (qualificados de conscienciais neste caso particular).
Apoiando-nos neles esperamos conseguir cartografar as configurações da subjetividade, do desejo, da energia pulsional e das diversas modalidades de discursos e de consciência ali relacionados, sem recorrer mais aos dispositivos tradicionais da infra-estrutura somática, de apoio instintivo, de determinismos fundados na necessidade e na falta, de condicionamento comportamental, etc. Para tal, as entidades pertinentes a esses quatro domínios não terão identidade permanente. Elas apenas sustentarão suas configurações próprias através dos relacionamentos que elas mantém entre si; não serão chamadas a mudar de estado nem de status em função de seu agenciamento de conjunto. Em outros termos, elas não estão subordinadas a uma tópica fixa e seus sistemas de transformação são os encarregados da tarefa de “gerir” sua modelização. Por estar em condições de sustentar tal travessia de ordens que o pensamento clássico sempre manteve separadas, esses funtores deverão, além disso, autorizar a colocação de leis de composição entre as duplas de categorias do atual e do virtual, do possível e do real. Seu cruzamento matricial está ilustrado na fig. 2.
Antecipando considerações que serão tratadas depois, colocamos agora que as relações de pré-suposição inter-entidades se inscrevendo segundo as coordenadas de desterritorialização objetivas e subjetivas não manterão em pé de igualdade os Fluxos e os Territórios do real com os Phylum e os Universos do possível – estes últimos envolvendo e subsumindo os primeiros, de tal maneira que o real do possível prevaleça sempre sobre o possível do real. Nessas condições, os Phylum constituirão, de certa forma, os integrais de Fluxos, e os Universos, os integrais de Território. (Fig. 3)
Mas não teremos assim restabelecido secretamente as relações de transcendência entre o possível e o real?Certamente não, na medida em que, como o estabeleceremos mais adiante, um jogo sináptico de extensão de agenciamentos no sentido da desterritorialização deixará aberta a eventualidade de uma permutação da posição de entidades constitutivas das realidades significantes e dos possíveis significados.
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Mesmo que seja sempre delicado avançar no terreno das filiações freudianas – há mais de cinquenta anos, a maioria dos psicanalistas considera a obra de Freud como um texto revelado – não me parece inútil tentar estabelecer os pontos nos quais a presente tentativa de re-fundação do inconsciente sobre a desterritorialização se inscreve no prolongamento da psicanálise e em quais ela se distingue. A primeira preocupação de Freud foi a de tornar científica a psicologia introduzindo quantidades abstratas8. Nas teorias clássicas, esta preocupação vai desorganizar o ordenamento das “faculdades da alma” e provocar uma desterritorialização da psique levando à promoção de uma “cena” inconsciente, ilocalizável nas suas coordenadas fenomenológicas normais. Poderíamos ter esperado que semelhante intrusão no psiquismo tivesse uma função essencialmente reducionista, no entanto, aconteceu o contrário, pois foi correlativa a uma verdadeira explosão de interpretações inovadoras do discurso da histeria, dos sonhos, dos lapsos, dos chistes, etc. Não é um paradoxo qualquer o que vemos na coexistência, por um lado, de pressupostos mecanicistas9 diretamente inspirados na psicofísica de Fechner e no “fisicalismo” de Helmholtz e de Brücke e por outro, uma exploração “abissal” cujo caráter aventureiro só teve equivalência no dadaísmo e no surrealismo10. Tudo parece ter acontecido como se a sustentação que Freud buscou nos esquemas cientistas de sua época lhe tivesse dado uma segurança que lhe permitia dar livre curso a sua imaginação criativa. Seja como for, devemos admitir que sua descoberta dos processos de singularização semiótica do inconsciente – o famoso “processo primário” – terá muita dificuldade para encontrar um lugar no rígido marco associacionista que ele desenvolve ao mesmo tempo, na esteira de seu Projeto para uma psicologia científica de 189511. Contudo, nunca cortou seus laços com os modelos neurônicos do início12. (Ele manterá, por exemplo, na edição definitiva da Traumdeutung de 1929 suas primeiras profissões de fé reflexológicas13), de maneira que o Inconsciente e o Pré-consciente continuaram presos à maneira de um sanduíche entre a percepção e a motricidade14.
O resultado do incessante vai-e-vem de Freud entre um cientificismo impenitente e uma inventiva lírica evocando o romantismo é uma série de reterritorializações em contrapartida a diversos avanços da desterritorialização da psique. Apenas evoco aqui esse fenômeno, a propósito de dois conceitos: o da libido e o do inconsciente.
Podemos conferir à libido um duplo status: o de uma energia processual que faz derivar sistemas heterogêneos longe do seu equilíbrio ou o de uma energia estática concorrendo à estratificação de formações psíquicas. Freud nunca conseguiu fazê-las ficar juntas, mesmo quando postulou a coexistência de uma libido do objeto e de uma libido do eu. Acontece diferente na nossa perspectiva; esses dois status não poderiam resultar dos riscos de uma balança econômica tal qual ele a propôs, mas de escolhas micropolíticas fundamentais. A partir dali, a libido vai encontrar-se “desnaturada”, desterritorializada: tornar-se-á um tipo de matéria abstrata do possível. A escolha genérica se tornará: seja a opção desterritorializada da esquizoanálise de uma libido-phylum (na abscissa esquerda das Fig. 1 e 3) como integral dos fluxos transformacionais do desejo (materiais e signaléticos), seja a opção reterritorializada do freudismo de uma libido-Fluxo, primeiro enquistada na parte somática das pulsões (a impulsão e a fonte, em contraste com a finalidade e o objeto), e depois colocada em estados psicogenéticos, para ser enfim aprisionada em um cara-a-cara intemporal com uma morte entrópica (oposição Eros-Tanatos).
Para o inconsciente, a escolha genérica será: ora se constituir em Universo de referência de linhas da alteridade, de possíveis e de devires inéditos e inauditos (na abscissa direita das Fig. 1 e 3), ora ser um Território-refúgio do recalcado, mantido na coleira pela censura (no sistema Consciente-Pré-consciente da primeira tópica) e pelo sistema Ego- Superego (na segunda tópica).
Freud abandonou bem cedo o primeiro terreno a outros teóricos como Jung que, aliás, não souberam explorá-lo15. Em compensação, ele não cessou de reterritorializar o inconsciente sob diversos aspectos:
- Sobre um plano espacial, como acabo de colocar, ele o circunscreveu a uma instância que, na sua segunda versão tópica, a do Id, se encontra esvaziado de toda substância, reduzido a um caos indiferenciado16.
- Sobre um plano temporal, apesar de que, com sua descoberta do continente inexplorado da sexualidade infantil, ele conseguiu dar um golpe de mestre ao conferir uma dimensão histórica ao discurso inconsciente17, ao mesmo tempo em que lhe subtraia o conhecimento de um escoamento do tempo, e que ele soube desmanchar as implicações realistas da memória dos traumas de sedução precoce, desterritorializando-as e transformando-as em ritornelos fantasmáticos. No entanto, ele perdeu sua aquisição, se é que eu posso dizê-lo, reterritorializando os estados de maturação libidinal e periodizando de maneira rígida uma psicogênese.
- Mesma reversão de situação no que concerne ao objeto do desejo. Na época da “Traumdeutung”, este se apresenta de maneira ambígua e rica. Como a Albertine de Proust, “deusa com várias cabeças” (e provavelmente com vários sexos), ele escapa uma vez mais, até certo ponto, às lógicas capitalísticas binárias e fálicas. Por exemplo, a Irma do sonho inaugural da “Traumdeutung” é descrita como uma “pessoa coletiva” que reúne em uma “imagem genérica”: – a paciente em questão no sonho; – outra dama que ele preferia cuidar; – sua própria filha mais velha; – uma criança que ele tinha atendido em consulta no hospital: – ainda outra dama; – enfim, a Senhora Freud em ..18 Todavia, vemos que as “localidades são muitas vezes tratadas como pessoas”19. O objeto pode, assim, funcionar como “nó” de sobredeterminação20, “umbigo” do sonho, “ponto onde ele se religa ao incomum”21 e a partir do qual ele faz proliferar as linhas de singularização. A desterritorialização ganhará ainda um certo terreno com a saída do objeto da pulsão de seu marco personológico para tornar-se “parcial”. A partir daí, a porta estava aberta para outros devires não humanos, animais, vegetais, cósmicos, maquínicos abstratos… Mas ela foi fechada novamente de todas as maneiras possíveis e imagináveis: porque com os objetos parciais em questão será elaborada uma lista exaustiva e tipificada; porque ela será utilizada à maneira de balizas normativas do “percurso do combatente” o qual é visto como se sujeitando a qualquer subjetividade desejante de aceder aos estados supremos da “genitalidade oblativa”; porque de “maus objetos” a “bons objetos”, de “relações de objeto” a “objetos transicionais” depois a objetos “a”, os sucessores de Freud acabaram por fazer disso uma função geral, despossuída de qualquer traço de singularidade.
- O mesmo acontecerá com a alteridade, que, no entanto, Freud tinha introduzido como exigência de verdade nos quadros psicopatológicos extremamente fechados, e que se encontrará, ela também, reterritorializada, tornando-se interditada de permanecer nas relações pré-edipianas pretensamente fusionais e estruturalizadas em complexo iniciático de castração simbólica, sob o olho turvo da Esfinge, depois transformada em matema “A” por Lacan. Resumindo, no cara-a-cara Libido-Inconsciente, as duas “matérias à opção” poderiam ser figuradas da seguinte maneira:
NOTAS
- Não é sem uma certa perplexidade que eu retomo esse antigo termo de “analisador”, que eu tinha introduzido nos anos 60, e que foi “recuperado” (assim como “a análise institucional”, a “transversalidade”, etc.) pela corrente Lourau, Lobrot, Lapassade, em uma perspectiva muito psico-sociológica para meu gosto.
- Esta fórmula do inconsciente poderia ser aproximada ao “processo primário” tal qual Freud o via na época da Traumdeutung: “O trabalho do sonho não pensa nem calcula; de uma maneira geral, ele não julga; ele se satisfaz com ” (L’interprétation des rêves, PUF, 1967, p. 432).
- Da mesma maneira, é o primeiro Freud da Traumdeutung quem captou a natureza desse tratamento a “contra-senso” das significações do sonho: “… o discurso do sonho é construído como um aglomerado no qual os fragmentos mais importantes de origem diversa são soldados por um tipo de cimento solidificado” (id., p. 358). “Todo o que nos aparece como ato de julgamento realizado durante o sonho não deve ser considerado como atividade intelectual do trabalho do sonho; de fato, tudo isso pertence ao material dos pensamentos do sonho, e penetrou, a partir daí, como estruturas todas ‘prontas’ no seu conteúdo manifesto” (id., p. 379). Mas essa micropolítica do “contra-senso” não pertence propriamente à vida psíquica, a reencontramos atuando na criação artística; eu penso, em particular, na maneira como um Georges Apenghis, na sua “música gestual”, apenas retém dos conteúdos semânticos o que concorre em suas composições a-significantes.
- “Apesar do que acreditam os corações ingênuos dos engenheiros, a energética não é mais do que a placagem da rede de significantes sobre o mundo”. Lacan, Séminaire de 14/01/1970. “Les énergies sémiotiques”, de Félix Guattari, in Colloque de Cerisy Temps et Devenir à partir de l’œuvre de I. Prigogine, junho 1983.
- Freud : “Deuil et mélancolie” [“Luto e melancolia”], in Métapsychologie (Gallimard, 1952), 192-194. Karl Abraham, Œuvres complètes, T. 1. Édition Payot, 1965, pp. 99-113.
- “Halluzinatorische Wunsch psychosis”, Gesammelte Werke, Fischer Verlag 1946. T. X, p. 430. “Hallocinatory wishfull psychosis”. Standard edition, Hogarth Press, London 1957. T. XIV, pp. 233 e 234, que é idêntica, para Freud, à confusão alucinatória ou “amentia” de Meynert.
- Corneille: Cinna, monologue d’Auguste.
- “Duas ambições me devoram: descobrir que forma assume a teoria do funcionamento mental quando introduzimos a noção de quantidade, um tipo de economia das forças nervosas, e segundo, tirar da psicopatologia qualquer ganho para a psicologia normal.” Carta a Fliess, de 25.5.1895, in Naissance de la psychanalyse, PUF, 1979, 106.
- Um exemplo, entre outros cem: “… uma tensão sexual física, levada acima de um certo grau, suscita a libido psíquica que então prepara o ..” in Naissance de la psychanalyse, p. 83.
- Exemplo: “… eu exijo que, para a análise de um sonho, nos libertemos de qualquer espécie de julgamento fundado sobre um grau de certeza e que consideremos como uma certeza total a mínima possibilidade que um fato de tal ou tal espécie pudera se produzir no” (L’interprétation des rêves, op. cit., p. 439.)
- Naissance de la psychanalyse, 309-396.
- Com uma franqueza bastante rara para um analista que se considera herdeiro freudiano, Lacan a reconheceu Écrits, Le Seuil 1960, p. 857.
- “O reflexo permanece como o modelo de qualquer produção psíquica” (L’interprétation des rêves, cit., p. 456).
- Id. op. cit., p. 459.
- submete a uma destotalização que as torna neutras e passivas, antes que a uma desterritorialização que as torna ativamente processuais: “Os indivíduos são separados pela diferença dos conteúdos da consciência na mesma medida em que são semelhantes no que concerne a sua psicologia Qualquer praticante da psicanálise experimenta uma forte impressão no dia em que ele termina por constatar que, decididamente, os complexos típicos do inconsciente são, no fundo, uniformes”. (Métamorphoses et symboles de la libido, Édition Montaigne, 1927, p. 170). Sendo assim, encontramos coisas muito interessantes no método de Jung : sua concepção da abertura sobre o porvir a partir das “combinações sub-liminares”; sua prática “de amplificação histórica”; sua rejeição do mito da “neutralidade”analítica; sua técnica de interpretação dos sonhos pelo contexto onírico e não pela simples associação.
- “Ele se enche de energia, a partir das pulsões, mas sem testemunhar de nenhuma organização, de nenhuma vontade geral; ele tende apenas a satisfazer as necessidades pulsionais, seguindo o princípio do ” (Nouvelles conférences sur la psychanalyse, NRF 1952, p. 103) Cf. os comentários de Laplanche e Pontalis em Vocabulaire de la psychanalyse, PIJF 1968, p. 57.
- “No inconsciente nada é acabado, nada passa, nada é esquecido.” (L’interprétation des rêves, op. , p. 491). “No Id, nada corresponde ao conceito de tempo, não há índice de escoamento do tempo…” (Nouvelles conférences, op. cit., p. 104.
- L’interprétation des rêves, op. cit., p. 254.
- Id. p. 276.
- Id. p. 246.
- Id. p. 446.
OUTRAS NOTAS [TRADUTORES]
[No original, cas de figure, literalmente, casos de figura. Optamos por traduzir esta primeira aparição da expressão – frequente no texto – por “casos de enfoque” para situá-la em seu contexto. Ao fazer uso desta expressão, Guattari alude à perspectiva da Gestalt, a partir da qual a percepção é compreendida em termos de figura-fundo, na medida em que cada circunstância envolve o destaque de um (ou alguns) dos elementos que compõe dada realidade. Entretanto, como se pode verificar no andamento do texto e pelas posições de Guattari, a expressão usada não ultrapassa o caráter alusivo à Gestalt. A partir daqui traduzimos a expressão literalmente. (Nota da Tradução – N.T.)]
[Neste exemplo, optamos por uma recriação na qual panos de limpeza (torchons) foi substituído por buchas de limpeza para conservar a relação que o autor faz em um jogo de palavras entre torchons e coup de torchon, cujo sentido figurado é “depuração radical de elementos indesejáveis, eliminação que deixa o lugar limpo” (Centre National de Ressources Textuelles et Lexicales – CNRTL, disponível em http://www.cnrtl.fr/), que em português do Brasil corresponde à expressão “passando a bucha”. A palavra serviettes (guardanapos) foi substituída por panos de prato, pois em português do Brasil, apesar de guardanapo significar “pequena toalha, de pano ou de papel para limpar os lábios ou os dedos e proteger a roupa” (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro: Objetiva, 2001), ela evoca principalmente guardanapo de papel e o autor está se referindo a uma “rubrica geral de panos para uso doméstico”. Pelas mesmas razões, a palavra linge, que significa “tecido de linha ou de algodão para uso do corpo ou doméstico” (Dictionnaire de L´Académie française, 8th Edition (1932-5), disponível em http://artfl.atilf.fr/dictionnaires/ACADEMIE/PREMIERE/premiere.fr.html), foi substituída por “utensílios de uso doméstico”, para englobar buchas e panos de prato. Agradecemos a colaboração do sociólogo Cezar Lisboa Cerqueira, cujas colocações foram essenciais nesta recriação. (N.T.)]
[Cure type: tratamento psicanalítico que satisfaz certos padrões da doutrina psicanalítica, dos quais o mais comumente admitido é o da necessidade de analisar a transferência. Fonte: Encyclopédie Larousse, disponível em http://www.larousse.fr/encyclopedie/ (N.T.)]
[Splitting: na psicanálise, processos de cisão, de clivagem, de divisão, que podem envolver o ego e/ou o objeto. (N.T.)]
[Aqui Guattari parafraseia Pascal, que em Pensamentos, Artigo XVIII, nº 11, escreveu: “O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante.” (N.T.)]
[Cf. Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia, volume 5, p. 116 (N.T.)]
[Funtor: Operador que exprime a maneira pela qual a verdade de uma proposição complexa depende da verdade de suas proposições elementares. Funtor de verdade, conector lógico que permite estabelecer uma proposição complexa a partir de várias proposições simples e indica, ao mesmo tempo, o valor de verdade da proposição complexa (Encyclopédie Larousse, disponível em: http://www.larousse.fr/encyclopedie / ). (N.T.)]
[Este texto é uma adaptação, feita pelo próprio Guattari, do seminário proferido em 21/06/84, publicado originalmente no primeiro número da revista Chimères, fundada em 1987 por Félix Guattari e Gilles Deleuze. Tradução para o português de Nedelka Solís Palma e Eder Amaral e Silva, estudantes do 8º período do curso de Psicologia da Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC, campus de Vitória da Conquista, BA. Revisão técnica de Valter A. Rodrigues, psicólogo, professor dos colegiados de Psicologia da FTC e da Faculdade Juvêncio Terra, Vitória da Conquista. Este trabalho de tradução surge das maquinações do Coletivo USINA – estudos e práticas micropolíticas (http://usinagrupodetudos.blogspot.com) do qual todos são integrantes. Endereços eletrônicos para correspondência: nedelkapalma@yahoo.com.br / eder_as@yahoo.com.br / valterodrigues2005@gmail.com]