ATÉ O FIM… – Gilles Deleuze

Até o fim, meu trabalho com Félix foi para mim fonte de descobertas e de alegrias. Não quero, entretanto, falar dos livros que fizemos juntos, mas daqueles que ele escreveu sozinho. Pois eles me parecem de uma riqueza inesgotável. Eles atravessam três domínios, em que abrem caminhos de criação.

Em primeiro lugar, no domínio psiquiátrico, Félix introduz do ponto de vista da análise institucional duas noções principais: os ‘grupos-sujeito‘ e as ‘relações transversais‘ (não hierarquizadas). Observa-se que estas noções são tão políticas quanto psiquiátricas. É que o delírio como realidade psicótica é uma potência que habita imediatamente o campo social e político: longe de se ater ao pai-mãe da psicanálise, o delírio deriva os continentes, as raças e as tribos. Ele é, ao mesmo tempo, processo patológico a ser trabalhado, mas, também, fator que trata a ser determinado politicamente.

Em segundo lugar, de um modo geral, Félix sonhava talvez com um sistema do qual alguns segmentos teriam sido científicos, outros filosóficos, outros vividos, ou artísticos etc. Félix se eleva a um estranho nível, que conteria a possibilidade de funções científicas, de conceitos filosóficos, de experiências vividas, de criação artística. É esta possibilidade que é homogênea, enquanto os possíveis são heterogêneos. Assim, o maravilhoso sistema a quatro cabeças nas Cartografias: os territórios, os fluxos, as máquinas e os universos.

Enfim, em terceiro lugar, como não ser sensível precisamente a certas análises artísticas de Félix, sobre Balthus, sobre Fromanger, ou análises literárias, como o texto essencial sobre o papel dos ritornelos em Proust (do grito das vendedoras à pequena frase de Venteuil), ou o texto patético sobre Genet e Le captif amoureux.

A obra de Félix está para ser descoberta e redescoberta. É uma das mais belas maneiras de manter Félix vivo. O que há de dilacerante na lembrança de um amigo morto, são os gestos e os olhares que ainda nos atingem, que nos chegam ainda quando ele se foi. A obra de Félix dá a estes gestos e a estes olhares uma nova substância, um novo objeto, capazes de nos transmitir suas forças.

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NOTAS

* Este texto foi escrito por Gilles Deleuze para ser lido por Jean Oury, por ocasião do sepultamento de Félix Guattari, ocorrido em 4.9.1992. Tradução de Arthur Hyppólito de Moura. Revisão de Suely Rolnik

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In: Dossiê Guattari. Cadernos de Subjetividade, v. 1, n. 1 (1993)

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