DELEUZE, GODARD E O CINEMA

Ontem, 13 de setembro, Jean-Luc Godard (1930-2022) desapareceu desse mundo. Mas continua ressoando por revirar o cinema ao avesso. Adeus à Linguagem foi um de seus últimos filmes e hoje dizemos um adeus à Godard. Deleuze era encantado por seu trabalho, ele disse em uma entrevista que

“[…] Godard transformou o cinema, introduziu o pensamento no cinema. O que ele faz não é pensar ‘sobre’ o cinema, não coloca um pensamento mais ou menos bom ‘no’ cinema, mas faz com que o cinema pense – pela primeira vez, eu creio. No limite, Godard seria capaz de filmar Kant ou Spinoza, a ‘Crítica’ ou a ‘Ética’, e não se trataria de um cinema abstrato, nem a aplicação cinematográfica. Ele soube encontrar o novo meio ao mesmo tempo que uma nova “imagem” – o que, forçosamente, supunha um conteúdo revolucionário.”

E por falar em encontrar uma nova “imagem”, seu último filme foi Le livre d’image (em português traduzido como Imagem e Palavra). Contudo, gosto muito de seu Film Socialisme (2010) e aproveito esse momento para destacar dois trechos:

“- E sobre o dia, quem decide?

– Ele mesmo.”

film socialisme - godard

“As ideias nos separam. Mas os sonhos nos aproximam.”

E se colocarmos a realidade na realidade?

Em entrevista a ‘Cahiers du Cinéma’, intitulada “Três questões sobre ‘Seis vezes dois’ (Godard)”, Deleuze (1976) diz que:

“[…] ter uma ideia não é ideologia, é a prática. Godard tem uma bela fórmula: não uma imagem justa, justo uma imagem. Os filósofos também deveriam dizê-lo, e conseguir fazer: não ideias justas, justo ideias. Porque ideias justas são sempre ideias conformes a significações dominantes ou a palavras de ordem estabelecidas, são sempre ideias que verificam algo, mesmo se esse algo está por vir, mesmo se é o porvir da revolução. Enquanto que ‘justo ideias’ é próprio do devir-presente, é a gagueira nas ideias; isso só pode se exprimir na forma de questões, que de preferência fazem calar as respostas. Ou mostrar algo simples, que quebra todas as demonstrações”.

Além disso, diz que “Nos programas de TV, as perguntas que Godard faz sempre acertam em cheio. Elas nos perturbam, a nós que assistimos, mas não a quem são dirigidas. Ele conversa com delirantes de uma maneira que não é a de um psiquiatra, nem de um outro louco ou de alguém se fazendo de louco. Ele fala com os operários, e não é um patrão falando, nem um outro operário, nem um intelectual, nem um diretor com seus atores. E isso de modo algum por assumir todos os tons como faria alguém habilidoso, mas porque sua solidão lhe dá uma capacidade ampla, um grande povoamento. De certo modo, trata-se sempre de ser gago. Não ser gago em sua fala, mas ser gago da própria linguagem. Geralmente, só dá para ser estrangeiro numa outra língua. Aqui, a o contrário, trata-se de ser um estrangeiro em sua própria língua. Proust dizia que os belos livros forçosamente são escritos numa espécie de língua estrangeira. Acontece o mesmo nos programas de Godard; ele até aperfeiçoa seu sotaque suíço com essa finalidade. É essa gagueira criativa, essa solidão que faz de Godard uma força.”

Enfim, a pessoa Godard se foi, mas sua força permanece.

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