ENTREVISTA COM MICHEL FOUCAULT NA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE LOUVAIN EM 1981 – TRAD. SANTOS

André Berten: Michel Foucault foi convidado pela Universidade Católica de Louvain, pela Faculdade de Direito e a Escola de Criminologia a dar uma série de cursos/conferências que foram intitulados “Agir mal, dizer a verdade: Sobre a função da confissão na justiça“. Para apresenta-lo ao nosso público, gostaria de fazer algumas questões. Você é muito conhecido pelas conferências no Collège de France, publicou uma série de livros “História da loucura[1]”, “O Nascimento da Clínica[2]”, “As palavras e as coisas[3]”, “A ordem do discurso[4]”, “Arqueologia do saber[5]”, “Vigiar e Punir[6]”, e está escrevendo uma “História da Sexualidade[7]”. Estes livros são conhecidos, uns mais que outros e alguns têm suscitado debates apaixonantes. Mas me parece interessante que nos contasse um pouco, como tem caminhado através de uma série de problemáticas, uma série de questões. Por que se interessou pela história da psiquiatria, a história da medicina, pelas prisões e agora pela história da sexualidade. Por que hoje se interessa pela história do direito? Qual foi o seu itinerário? Qual foi o fio condutor de sua reflexão? – se for possível responder a essa pergunta.

Michel Foucault: É uma pergunta difícil, porque o fio condutor, só pode ser identificado quando terminamos, ou seja, quando se para de escrever. Além disso, como sabem, eu não me considero absolutamente nem como um escritor nem como um profeta. Eu trabalho, realmente, muitas vezes em função das circunstâncias de solicitações exteriores, de diferentes conjunturas, e não tenho a intenção de fazer a lei. Se houver uma certa coerência no que faço, talvez esteja mais relacionada com uma situação que nos pertence – em que somos todos capturados – mais do que a uma, se for possível dizer, intuição fundamental ou um pensamento sistemático. É verdade, me parece que a filosofia moderna pôde, depois que Kant[8]colocou a questão “Was ist Aufklärung?” [O que é a Iluminação?] isto é: o que é nossa atualidade? O que acontece ao nosso redor? A filosofia tem adquirido então uma dimensão que tem aberto para ela uma certa tarefa, que havia sido ignorado ou que não existia. E que consiste em dizer: Quem nós somos?, dizer: em que consiste nosso presente? Em que consiste isso hoje? É uma questão que para Descartes[9] não teria sentido. É uma questão que só começa a fazer sentido a partir de Kant quando se pergunta: l’Aufklärung? [O que é iluminação?], É uma questão que é a de Hegel[10] “O que é o agora”? A pergunta de Nietzsche[11]também. Eu penso que a filosofia, entre as diferentes funções que pode, e que deve ter, também tem esta: perguntar-se pelo que somos em nosso presente, em nossa atualidade. Eu diria que é em torno disso que eu coloco a questão e, nessa medida em que eu sou nietzscheano ou hegeliano ou kantiano.

Como cheguei a fazer-me este tipo de questão? Para explicar em duas palavras a história de nossa vida intelectual, um ao outro, na Europa ocidental depois da guerra se pode dizer que tínhamos, desde os anos 1950, por um lado, uma perspectiva de análise inspirada na fenomenologia, que neste momento era uma filosofia que eu diria ser dominante. Dominante, não no sentido pejorativo desta palavra. Não é que havia um despotismo deste modo de pensamento, mas na Europa Ocidental e, em especial na França, a fenomenologia era um estilo geral de análise. Este estilo de análise que reivindicava a análise do concreto como uma de suas tarefas fundamentais. E, é muito certo que deste ponto de vista, poderia ficar um pouco insatisfeito na medida em que o concreto ao qual se referia a fenomenologia, era um concreto um pouco acadêmico e universitário. Haviam objetos privilegiados de descrição fenomenológica, que eram a experiência vivida ou a percepção de uma árvore pela janela do escritório…Eu sou um pouco severo, mas o campo de objetos que a fenomenologia percorria estava um pouco predeterminado por uma tradição filosófica e universitária que valeria a pena ampliar.

Em segundo lugar, outra forma de pensamento dominante importante era evidentemente o marxismo, que se referia a um ponto de análise histórico sobre o qual, em certo sentido, chegou a um impasse. Se as análises dos textos de Marx[12] eram uma tarefa importante na mesma medida os conteúdos históricos, o saber histórico ao qual esses conceitos deveriam referir-se, e para os quais deveriam ser operativos. Esse domínio histórico estava um pouco negligenciado. Em todo caso, o marxismo, uma história marxista concreta não estava muito desenvolvida, ao menos na França.

Havia uma terceira corrente que estava especialmente desenvolvida na França, que era da história das ciências com representantes como Bachelard[13] e Canguilhem[14], etc., e Cavaillès[15]. O problema era saber: se havia uma historicidade da razão e se, se pode fazer a história da verdade.

Se quiser, diria que me situei na encruzilhada dessas diferentes correntes e diferentes problemas. Colocando a pergunta em relação a fenomenologia em vez de fazer a descrição interiorizada da experiência vivida, não poderíamos fazer a análise de algumas experiências coletivas e sociais. É importante descrever a consciência de quem está louco, como demonstrou Binswanger[16]. Mas, não há uma estruturação cultural e social da experiência da loucura? E não devemos analisá-la?

O que tem me levado a um problema histórico que era saber se, se quer descrever a articulação social e coletiva de uma experiência como a da loucura. Qual é o campo social? Qual é o conjunto de instituições e práticas que devem ser analisados historicamente? E para o qual as análises marxistas são como roupa confeccionada, mal ajustada.

E, em terceiro lugar, através de tudo isto, através de análises de experiências históricas, coletivas, sociais ligadas a contextos históricos precisos, como se pode fazer a história de um saber, a história da emergência de um conhecimento, e como novos objetos podem chegar ao domínio do conhecimento. Como se apresentam como objetos para o conhecimento, concretamente como se dá: há ou não uma experiência da loucura característica de um tipo de sociedade como a nossa? Como esta experiência da loucura pode constituir-se? Como pode emergir? E através desta experiência da loucura como a loucura se deixou constituir como objeto de saber de uma medicina que se apresentava como uma medicina mental? Através de que transformações históricas, que modificações institucionais se constituiu uma experiência da loucura no qual há um polo subjetivo da experiência da loucura, e o polo objetivo da enfermidade mental?

Este é senão um itinerário ao menos um ponto de partida. E voltando ao que me perguntava: por que havia escolhido estes objetos de estudo, eu direi que me parece, – que seria uma quarta corrente de referência de meu caminho – seriam livros, textos literários menos integrados a tradição filosófica. Eu penso em escritores como Blanchot[17], Artaud[18], Bataille[19], que foram pessoas importantes para a minha geração. E que estavam no fundo colocando a questão das experiências limite, estas formas de experiências que ao invés de serem consideradas como centrais, de serem valorizadas positivamente em uma sociedade, são consideradas como experiências limite, experiências de fronteira, a partir das quais se questiona o que normalmente é considerado como aceitável. Então, em um certo sentido, da história da loucura à uma interrogação sobre o nosso sistema de razão.

Berten: A loucura como uma experiência limite…

Foucault: Sim. Por exemplo, a relação entre o pensamento médico, o saber da enfermidade e da vida. O que está em relação a experiência da morte e como o problema da morte tem sido integrado a este saber. Ou como se tem organizado este saber indexado neste momento, a este ponto absoluto da morte. O mesmo para o crime com respeito à lei. Você questiona a própria lei, e qual é o fundamento da lei: tomamos o crime como ponto de ruptura em relação ao sistema e tomemos este ponto de vista para perguntarmos: “o que é a lei?”. Tomemos a prisão para nos esclarecer o que é o sistema penal, antes de propormos o sistema penal, interroga-lo em seu interior, saber como foi fundado, como se funda e como se justifica, para deduzir em seguida o que é a prisão.

Berten: Você apresentou a filosofia como em uma atualidade desde Kant, a filosofia que coloca uma pergunta que nos concerne a todos e que permite ao homem interrogar-se sobre sua situação na história, no mundo, na sociedade. E me parece que através de tudo o que tem escrito desde a “História da loucura” à “História da Sexualidade“, há uma percepção dessa realidade que parece lhe interessar particularmente e que concerne a tudo que poderia ser chamado de técnicas de reclusão, de vigilância, de controle, em resumo, a maneira pela qual o indivíduo em nossa sociedade tem sido progressivamente controlado. Você pensa que se trata de um elemento clássico em nossa história, determinante para compreender a modernidade?

Foucault: Sim, é verdade. Não é um problema que me coloquei a princípio, senão pouco a pouco, estudando um certo número de coisas como a psiquiatria, a medicina, o sistema penal, todos estes mecanismos de reclusão, exclusão, de vigilância, de controle individual, me foram parecendo muito interessantes, muito importantes. Eu diria que talvez eu tenha feito estas questões de forma um pouco selvagem até um momento onde me dei conta de que eram importantes. Acredito que é preciso delimitar bem do que se trata e que tipo de problemas se pode colocar a propósito de tudo isso. Me parece que na maioria das análises, quer sejam as análises do tipo propriamente filosóficas e as análises mais políticas, senão as análises marxistas, a questão do poder havia sido relativamente marginalizada ou em todo caso simplificada. Ou então se falava dos fundamentos jurídicos que legitimavam o poder político, ou então se tratava de definir o poder em uma função de simples conservação-recondução das relações de produção. Então, se tratava da questão filosófica dos fundamentos da análise histórica da superestrutura. Me parece insuficiente por um certo número de razões. Primeiro, porque acredito – e, me mostram certo número de coisas concretas que tenho analisado – que as relações de poder estão mais profundamente implantadas que em simples nível de superestrutura. Em segundo lugar, a questão – do fundamento – do poder é importante, mas, desculpe-me, o poder não funciona a partir do seu fundamento. Há poderes sem fundamento que funcionam muito bem e há poderes em que é encontrado um fundamento, mas que não funcionam. Portanto, se você quiser, meu problema era dizer: não se pode estudar a forma em que efetivamente funciona o poder. Quando digo “o poder”, não digo absolutamente uma instância, uma espécie de potência que estaria oculta ou visível, pouco importa, e que difundiria sua influência nociva através do corpo social ou que estenderia sua rede de forma fatal. Não se trata de uma rede que aprisionaria cada vez mais a sociedade e os indivíduos. Não se trata disso. O poder não é uma coisa. O poder são relações. O poder são relações entre indivíduos, uma relação que consiste que um pode conduzir a conduta do outro, determinar a conduta do outro. E determinada voluntariamente em função de uma série de objetivos que são seus. Dito de outra forma, quando olhamos o que é o poder, o poder é um exercício de governo, no sentido amplo do termo. Pode-se governar uma sociedade, pode-se governar um grupo, uma comunidade, uma família, e se pode governar alguém. Quando digo governar alguém é simplesmente no sentido de que se pode determinar sua conduta em função de estratégias, usando certas táticas. Se quiser, é a governabilidade em um sentido amplo entendida como um conjunto de relações de poder e técnicas que permitem que a relação de poder se exercite, assim tenho experimentado estudar. Como é governar os loucos; como é colocado o problema do governo dos enfermos (o governo entre aspas em um sentido amplo e rico), como se governa os enfermos; o que se tem feito; que lugar lhes é dado; onde são colocados, em qual sistema de tratamento, de vigilância, de benevolência, de filantropia, como se organiza o campo econômico do cuidado dos enfermos, tudo isso que se tem que ver. É seguro que esta governabilidade não tem deixado de ser mais rigorosa com o passar dos anos. O poder é um sistema político como era na Idade Média, este poder entendido como o governo de uns sobre os outros, foram covardes. O problema que tinham era recolher os impostos necessários ao poder, mas o que as pessoas faziam em sua conduta cotidiana não era muito importante para o exercício do poder político. Era importante para a pastoral eclesiástica, mas para o poder político chegou o momento em que se converteu em importante. Por exemplo, hoje, o tipo de consumo das pessoas é importante economicamente e politicamente e, é verdade que o número de objetos que são objetos de governabilidade no interior dos marcos políticos inclusive os liberais, este número de objetos tem aumentado consideravelmente. Mas não penso que a governabilidade tome a forma de confinamento, vigilância e de controle. Por toda uma série de fabulações sutis, frequentemente, se consegue conduzir a conduta das pessoas e a conduzir de tal forma que a conduta dos demais não pode ter efeitos nocivos contra os outros. Este é o campo da governabilidade que tenho estudado.

Berten: Para estudar estes diferentes objetos tem utilizado um método histórico, mas o que hoje aparece novo em suas análises não do ponto de vista do objeto, senão do método, o que estuda descolado do método histórico. Eu diria que não se trata mais de uma história da ciência, não se trata de uma epistemologia, não é uma história das ideologias, nem sequer uma história das instituições; temos a impressão de que é ao mesmo tempo mais para pensar, por exemplo, o trabalho da psiquiatria, o que hoje fazem os criminologistas, que você já falou aqui – ou ainda para pensar as instituições como a prisão, o asilo psiquiátrico, etc. Você tem transformado profundamente a maneira como se concebia a história. É isso, por exemplo, a oposição entre saber e ciência que aparecem em sua obra e em alguns escritos pré-metodológicos que lhe parece importante, deste ponto de vista, este tipo de história que você nos propõe?

Foucault: Vejo que o tipo de história que faço carrega algumas marcas. O que me pergunto é: o que somos e o que somos hoje? E que momento é este? Então é uma história que parte desta atualidade. A segunda coisa é que, ao tentar apresentar o problema concreto, o que me parece interessante, é escolher como áreas que são particularmente frágeis ou sensíveis na atualidade. Ou seja, eu não conceberei uma história que seja meramente especulativa e cujo campo de pesquisa não seja determinado por algo que de fato ocorra atualmente. Meu interesse não é seguir o que ocorre, seguir a moda, por exemplo, uma vez que foram escritos dez livros sobre a morte, não escreveria o décimo primeiro com a desculpa de que é uma questão atual. O jogo é tentar detectar dentre as coisas que ainda não se tenha falado, quais são as que atualmente apresentam alguns indícios da fragilidade de nosso sistema de pensamento, de nosso modo de reflexão e de nossa prática. Nos anos de 1955 quando eu trabalhava nos asilos psiquiátricos havia uma espécie de crise latente, algo que começava a aflorar. Mas não se falava disso, se vivia intensamente. A melhor prova próxima de que se vivia, está na Inglaterra, sem que nos comunicássemos com eles, pessoas como Laing[20] e Cooper[21] também estavam lutando com os mesmos problemas. Portanto, é uma história que se refere sempre a uma atualidade. A mesma coisa em relação ao problema da medicina, é a questão do poder médico no interior do campo institucional do qual o saber médico funciona – era uma questão que começou a ser colocada nos anos 1960 e que somente entrou no âmbito público depois de 1968. Então é um assunto da atualidade no processo de ser desenhado.

Berten: Mas em relação a essa atualidade a forma que você elabora a história me parece original; ela me parece regulada pelo mesmo objeto que você analisa. É em razão dos problemas que você percebe como frágeis ou chave em nossa sociedade que você precisa refazer a história de maneira específica?

Foucault: A nível dos objetivos que me coloco quando faço essa história, muitas vezes as pessoas julgam o que eu fiz como um tipo de análises complicadas, um pouco excessivas e que levam finalmente ao resultado: “Meu Deus, como estamos aprisionados em nosso sistema”; “quantos laços nos prendem” e “que difícil desfazer os nós que a história fez ao nosso redor”. Mas na realidade, eu faço o contrário, porque quando eu estudo, a loucura, a prisão, etc… Tomemos o exemplo da prisão: quando há alguns anos se discutia, no início dos anos 70 sobre a reforma do sistema penal, me chamava a atenção que se colocava a questão teórica do direito de punir, se colocava a questão da instalação do regime penitenciário. Mas esta espécie de evidência de que a privação de liberdade é a forma mais simples, lógica, razoável, equitativa, de castigar alguém porque cometeu uma infração, não se questionava. Agora bem, o que eu tenho tentado mostrar é o quanto esta adequação que nos parece clara e simples da pena com a privação de liberdade é na realidade algo recente. É uma invenção técnica de origem antiga, mas que se integrou no interior do sistema penal e que começa a fazer parte da racionalidade penal, no final do século XVIII. E então tentei questionar as razões pelas quais a prisão se converteu em uma espécie de evidência em nosso sistema penal. Se trata, portanto, uma questão de fazer as coisas mais frágeis através dessa análise histórica ou melhor mostra a vez, por que e como, as coisas se constituíram assim. Uma vez que, ao mesmo tempo, se constituíram através de uma história precisa. Há que mostrar a lógica das coisas, ou se você quiser, a lógica das estratégias no interior das coisas que se tem produzido e mostrar que não são somente estratégias e que, portanto, mudam algumas coisas, mudam estratégias, vendo as coisas de outra forma, o que me parece evidente, não é. Nossa relação com a loucura é uma relação que está historicamente constituída e se está historicamente constituída, pode ser politicamente destruída. Eu digo politicamente em sentido amplo. Em qualquer caso há possibilidades de ação, posto que é através de ações e reações, através de lutas e conflitos, ao tratar com certos problemas se tem chegado a essas soluções. Querendo reintegrar muitas evidências de nossa prática, na mesma história dessas práticas. E roubar de seu estatuto de evidências para lhes dar mobilidade que tiveram e que devem ter em nossas práticas.

Berten: Sim. Em suas conferências atuais, você utiliza o termo “veridicção” que se refere a dizer a verdade e que toca um problema da verdade no método. No que você acaba de dizer sobre seu interesse pela atualidade e a maneira como você vê a história e a constituição mesma que funda essa atualidade de alguma forma, você questiona o que se poderia pensar que são os fundamentos de tal ou tal prática e você disse que o poder não funciona a partir de seu fundamento, mas há justificativas, reflexões filosóficas que visam fundar o poder. Seu método histórico é uma espécie de arqueologia ou genealogia segundo os objetos, ou segundo o desenvolvimento de seu pensamento, visa que não há fundamento das práticas de poder. Você estaria de acordo por dizer que desde o ponto de vista filosófico e no conjunto de seu desenvolvimento você visa desconstruir toda empresa que queira dar um fundamento ao poder?

Foucault: Me parece que a atividade de dar um fundamento ao poder, atividade de se perguntar sobre o que funda o poder que exerço, o que pode fundar o poder que se exerce sobre mim, me parece ser uma questão importante, é essencial. Eu diria que é a questão fundamental. Mas o fundamento que se dá em resposta a esta pergunta forma parte de um campo histórico em que se tem um lugar relativo. Não se encontra o fundamento, mas é muito importante que em uma cultura como a nossa – é outra questão que se pode encontrar em outras culturas -, é importante para nós há milênios, algumas coisas, entre elas o exercício do poder político vem interrogado por si mesmo, por pessoas que perguntam: “o que te funda?”, “o que te legitima?”. Aí temos um trabalho crítico.

Berten: O que me parece importante a você é que o trabalho crítico desta questão que volta uma e outra vez…

Foucault: Faz 2000 ou 2500 anos que nos perguntamos sobre o fundamento do poder político e essa é a interrogação fundamental.

Berten: E no fundo, o tipo de história que você tem feito é uma análise das estratégias, mas também uma análise da maneira em que algumas práticas têm buscado seu próprio fundamento.

Foucault: Absolutamente. Eu diria que é uma história (vou empregar uma palavra bárbara, mas as palavras são bárbaras quando nos dizem claramente o que querem dizer, muitas palavras correntes são bárbaras porque dizem muitas coisas, as vezes não dizem coisa alguma. Mas ao contrário de algumas palavras técnicas construídas de forma bizarra não são bárbaras se dizem claramente o que querem dizer), a história das problematizações, a história da forma em que as coisas colocam um problema. Como e por que e sobre qual modo particular a loucura tem sido um problema no mundo moderno? Por que se converteu em um problema importante? Problema tão importante que algumas coisas como a psicanálise tão difundida através de nossa cultura formam parte de um problema que era um problema interior as relações que se poderiam ter com a loucura. É a história desses problemas. De qual novo modo é um problema a enfermidade? – que sempre era um problema, mas se tornou um novo modo de problematização da enfermidade a partir dos séculos XVIII e XIX.

Então, não é nem a história das teorias, nem a história das ideologias, nem mesmo a história das mentalidades que me interessam. É a história dos problemas, a genealogia dos problemas que me interessa. Por que um problema? E por que este tipo de problema? Por que determinado modo de problematização aparece em certo momento em tal ou qual âmbito? Por exemplo, sobre a sexualidade. Me tem custado muito tempo para perceber como o poder responderia, qual seria o novo problema. A propósito da sexualidade não se trata tanto de repetir indefinidamente a pergunta: foi o cristianismo, a burguesia ou a industrialização que provocaram a repressão da sexualidade? A repressão da sexualidade não é interessante na medida onde uma parte, ela faz sofrer um certo número de pessoas, ainda atualmente, e de outra parte, ela sempre assumiu diversas formas, mas sempre existiu. O que me parece importante que se veja é como e por que essas relações com a sexualidade, essas relações com os comportamentos sexuais colocaram um problema e de que forma, porque sempre tem sido um problema, por que não sempre tem sido um problema da mesma maneira. Entre os gregos do século IV a.c, depois para Jesus Cristo e os cristãos dos séculos III e IV, e nos séculos XVI, XVII, etc. É a história das problematizações, como nas práticas humanas em determinado momento as evidências se perdem, as luzes se apagam e a noite se faz e a gente se dá conta de que está atuando a cegas e que, portanto, se necessita de uma nova luz. Faz falta uma nova iluminação e fazem falta novas regras de comportamento. Então aparece um novo objeto, um objeto aparece como um problema.

Berten: Gostaria de fazer uma última pergunta, você tem sido convidado pela Faculdade de Direito e ultimamente se interessa pelo direito e o fenômeno jurídico. Poderia explicar brevemente de onde vem esse interesse pelo direito e que pensa tirar dele?

Foucault: Escute-me, sempre me interessei pelo direito como um “leigo”; eu não sou um especialista do direito, nem um jurista. Mas também a propósito da loucura, como do crime, da prisão, me tenho encontrado com o problema do direito, da lei, e a pergunta que me colocou era saber como as tecnologias de governo, como essas relações de poder no sentido que temos mencionado, como tudo isso toma forma no interior de uma sociedade que pretende funcionar segundo o direito e que ao menos em parte funciona segundo o direito. Então, os laços, as relações de causa-consequência, os conflitos, as oposições, as irredutibilidades entre esse funcionamento de direito e essa tecnologia de poder é o que gostaria de estudar. E me parece que interrogar as instituições jurídicas, interrogar o discurso e a prática do direito a partir dessa tecnologia do poder pode apresentar certo interesse. Não no sentido de que isso colocaria de cabeça para baixo a história e a teoria do direito, mas pode iluminar alguns aspectos bastante importantes da prática e teoria jurídicas. Interrogar o sistema penal moderno a partir da prática punitiva, da prática corretiva, a partir de todas as tecnologias pelas quais se quer modificar, modelar o indivíduo criminal, etc., fazer aparecer um certo número de coisas. Me cruzo uma e outra vez com o direito sem haver tomado como objeto particular. E se Deus me dar vida, depois da loucura, a enfermidade, o crime, a sexualidade, o último que quero estudar é o problema da guerra e da instituição da guerra na dimensão militar da sociedade. Outra vez voltarei a cruzar com o problema do direito como direito das pessoas, direito internacional, etc., mas também o problema da justiça militar. O que faz que uma Nação possa pedir a alguém que morra por ela.

Berten: Nós esperamos que Deus te dê vida para poder ler suas histórias, essas histórias múltiplas que tanto nos tem enriquecido. Obrigado

NOTAS:

[1] Histoire de la folie à l’âge classique, Paris, Gallimard, 1961, reed.1972.

[2] Naissance de la clinique. Un archéologie du regard médical, Paris, Gallimard,1963.

[3] Les Mots et les choses. Une archéologie des sciences humaines, Paris, Gallimard, 1966.

[4] L’Ordre du discours, Paris, Gallimard, 1971.

[5] L’Archéologie du savoir, Paris, Gallimard, 1969.

[6] Surveiller et punir. Naissance de la prison, Paris, Gallimard, 1975.

[7] Histoire de la sexualité, t. I, La Volonté de savoir, Paris, Gallimard, 1976; Histoire de la sexualité, t. II, L’Usage des plaisirs, Paris, Gallimard, 1984; Histoire de la sexualité, t. III Le Souci de soi, Paris, Gallimard, 1984.

[8] Immanuel Kant (1724-104), filósofo prussiano/alemão.

[9] René Descartes (1596-1650), filósofo, físico e matemático francês.

[10] Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo alemão.

[11] Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano do século XIX, nascido na atual Alemanha.

[12] Karl Marx (1818-1883), filósofo, sociólogo e jornalista alemão.

[13] Gaston Bachelard (1884-1962), filósofo e poeta francês.

[14] Georges Canguilhem (1904-1995), filósofo e médico francês.

[15] Jean Cavaillès (1903-1944), filósofo e matemático francês.

[16] Ludwig Binswanger (1881-1966), psiquiatra suíço, pioneiro na área da psicologia existencial.

[17] Maurice Blanchot (1907-2003), escritor, ensaísta, romancista e crítico de literatura.

[18] Antoine Marie Joseph Artaud (1896-1948), conhecido como Antonin Artaud, foi poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro francês de aspirações anarquistas.

[19] Georges Bataille (1897-1962), escritor francês.

[20] Ronald Laing (1927-1989), psiquiatra britânico.

[21] David Cooper (1931-1986), psiquiatra sul-africano.

VÍDEO: Entrevista com Michel Foucault na Universidade Católica de Louvain em 1981 – Legendado em PT/BR

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