Kuniichi Uno: As pessoas que leram O anti-Édipo podem colocar questões inocentes, às vezes. Por exemplo: que nele a loucura, ou a esquizofrenia, é descrita, no fundo, como algo alegre, mas que, para aqueles que convivem com loucos, na família, entre amigos, é triste. Você tem, apesar de tudo, uma longa e constante experiência dessa alegria e dessa tristeza, na clínica. Você confirmaria essa alegria na prática?
Félix Guattari: Temos que retomar o que diz Espinosa sobre a alegria. Não sei bem como poderíamos articular isso, mas é uma noção fundamental, que no entanto não deve ser tomada como um dado em si. Há uma política da alegria, uma política do humor, uma política das rupturas assignificantes que mudam as coordenadas de referência. Podemos estar, ao mesmo tempo, em um mundo completamente triste, de segregação, um mundo de desespero total e em que, algumas vezes, acontecem mutações de referência. Para mim, as pessoas mais engraçadas do mundo, que me fazem morrer de rir são amigos, relações de amizade que tive com esquizofrênicos, com loucos. Algumas vezes foi algo que me perturbou, e eu não sei se tive influencia sobre eles, mas sei que eles tiveram influência sobre mim. Porque, nesse vaivém entre La Borde e Paris, às vezes eu atendia pessoas que diziam: “Ai que problema, que drama, ai minha mulher, meu trabalho.” Mas quando você está completamente impregnado pela visão de mundo de um esquizofrênico, você pensa “que raios é isso?”. É como uma espécie inesperada de iluminação, possível de ser compreendida através da referência ao Zen, que faz você pensar: “o que é que estou fazendo neste planeta?”
Lembro de um esquizofrênico, de quem gosto muito, com quem conversava com prazer quando eu era jovem, que me interessava por causa de todos os seus problemas. Um dia, ele me olhou longamente nos olhos, escutando o que eu estava dizendo, sem dizer nada, até que finalmente ele disse: ‘e ele ainda continua falando comigo’. Isso ficou comigo para o resto da minha vida. Claro, eu pensei, foi como se toda a linguagem tivesse caído das minhas mãos. ‘E ele ainda continua falando comigo’. Para mim, isso é o Zen. É mais do que uma escola, é uma espécie de redução, não sei se é uma redução eidética, mas é outro tipo de relação. Agora, isso não quer dizer que a esquizofrenia como tal seja alegria, claro que não, nem a revolução. Diziam que nós tínhamos inventado uma nova via revolucionária, que deveríamos nos tornar esquizofrênicos. Nada disso! A psicose é algo horrível e os hospitais psiquiátricos são monstruosos, mas o processo esquizo que podemos conquistar, a ruptura dos agenciamentos, a entrada da singularidade que vai fazer você rir, que vai fazer você ver as coisas de outra maneira, isso é válido. Quanto ao processo Zen, é prodigiosamente extraordinário. A vida é algo sinistro, horrível e, ao mesmo tempo, é engraçada, curiosa. Por que nos agitamos tanto, o que está acontecendo? Como fazemos para inventar coisas, produzir coisas, inventar novos objetos? Que aventura extravagante! E que escândalo que na maior parte do tempo isso seja tão sinistro.”
30 de março de 1984.
Félix Guattari, Confrontações. São Paulo: n-1 edições, 2016. Entrevista com Kuniichi Uno, 1984, trad. Hortencia Santos Lencastre.