LYGIA CLARK E A PSICANÁLISE

Paris, 6.7.1974

Meu querido,

Sem cabeça para escrever num processo muito profundo de análise e criatividade. Tanta coisa aconteceu que me é impossível tentar te contar agora em véspera de ir ao Brasil. Parto no próximo sábado e lá ficarei dois meses, devendo pois voltar em meados de setembro. Fiquei encantada com seu projeto dedicado a […]. Maravilhoso, e só recebi na semana passada o seu questionário que não terei tempo de responder agora, fica para a volta. Guy passou por aqui há três dias e conversamos muito como sempre. Foi para a China e voltará aqui em outubro. Voltarei rápido pela minha psicanálise, que foi das coisas mais criativas e mitológicas vividas até hoje por mim. Um dia te contarei e terei um mundo mítico mágico-fantástico para no futuro fazer um livro onde entra toda essa experiência, meu trabalho que no fundo é uma só coisa! Continuo na Sorbonne, onde encontrei pela primeira vez condições para comunicar o meu trabalho; jovens que elaboro um ano inteiro e são preparados desde a nostalgia do corpo – no fundo o morcellement do mesmo – até a reconstrução do mesmo para acabar no que chamo de corpo coletivo, baba antropofágica ou canibalismo. Depois de cada experiência peço o vécu, que é a parte mais interessante, pOIS o mesmo trabalho suscita coisas completamente diferentes e ainda há mudanças, dependendo se é a primeira vez ou a segunda de quem as vive. Já vi que meu trabalho é para ser feito desta maneira e não posso me exprimir mais como num espetáculo em que as pessoas nada vivem, um pouco como no filme de Eduardo em que os jovens estavam fazendo as experiências pela primeira vez. A televisão francesa filmou o meu grupo com o qual trabalhei este ano e o que eles expressaram foi um barato … Falam dentro da linguagem do próprio trabalho, sentem todo o desenvolvimento do mesmo desde o morcellement até a fase final do corpo coletivo. Foi muito linda a filmagem. Ando também numa fase de grande criatividade escrevendo frases em que o corpo fala a si próprio através de suas partes. É o costurar o corpo, fase em que me encontro na psicanálise. É por vezes engraçado, poético, insólito e muito divertido. Um seio lendo um horóscopo diz ao outro: – Somos gêmeos até que um câncer nos separe; o nariz fala à boca: – Sobe, sobe pra cima de mim, bichinha; nesta posição não dá; o clitóris ao pênis: – Puxa, como você é desenvolvido!; a lágrima ao olho: – Sou a estrela que cai deixando um rastro na sua pálpebra. E há também a conversa dos objetos: um sapato diz ao outro: – Aproveitemos a nossa liberdade antes que o compasso das pernas nos unifique; uma garrafa diz ao copo: – Me esvazia, estou com o saco cheio; o joelho diz à geometria: – Ajoelhar é a descoberta do ângulo reto; a cabeça refletindo: – A geometria nasce do reflexo do corpo projetado na minha mente. E vou por aí com mil e um aforismos que amo, me divertem, me encantam … Mando para você uma foto de um trabalho que chamo de Baba antropofágica. Uma pessoa se deita no chão. Em volta os jovens que estão ajoelhados põem na boca um carretel de linha de várias cores. Começam a tirar com a mão a linha que cai sobre a deitada até esvaziar o carretel. A linha sai plena de saliva e as pessoas que tiram a linha começam por sentir simplesmente que estão tirando um fio, mas em seguida vem a percepção de que estão tirando o próprio ventre para fora. É a fantasmática do corpo, aliás, o que me interessa, e não o corpo em si. Depois elas se digam com essa baba e aí começa uma espécie de luta que é o défoulement para quebrar a baba, o que é feito com agressividade, euforia e alegria e mesmo dor, porque os fios são duros para serem quebrados. Depois peço o vécu, o que é o mais importante, e assim vou me elaborando através da elaboração do outro … Outras experiências que chamo de canibalismo: o grupo come de olhos vendados do ventre de um jovem deitado, e agora estou com outras ideias, sendo que uma é muito forte. A Cabeça coletiva: uma grande cabeça construída que é colocada num jovem que se assenta no meio do grupo; o grupo vai abrindo várias fendas e tirando de dentro desde bichinhos, plantas, terra, pedrinhas até o saber, provavelmente frases como as que escrevo atualmente; que tal?

Meu telefone daqui é 532 92 56. O do Rio é 2572270. Mando junto a esta a fotocópia pedida pela Regina. Diga-lhe que não terei tempo para lhe escrever, fica para a volta. 

Te mando todo o meu amor de sempre. 


FONTE:

Lygia Clark e Hélio Oiticia. Cartas (1964-74). Organização Luciano Figueiredo, ed. UFRJ.

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