NECROPOLÍTICA FRANCESA – POR PAUL B. PRECIADO [TRAD. SANTOS]

NECROPOLÍTICA FRANCESA – por Paul B. Preciado [Trad. Santos]

Necropolítica francesa, artigo de Paul B. Preciado, escritor, filósofo espanhol, diretor do Programa de Estudos Independentes do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (Macba), publicado em 22 de novembro de 2013 no jornal Libération. Preciado é um pensador que tem seu trabalho “Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual” (Ed. n-1, 2015), recentemente traduzido para o português , onde a mesma editora está lançando neste mês seu livro “Testo Junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica“, que segundo o filósofo espanhol pode ser lido como um manual de bioterrorismo de gênero na escala molecular. A editora n-1 também publicou neste ano o livro sob o título Necropolítica, (Ed. n-1, 2018), de Achille Mbembe. A discussão sobre este tema tem ganhado destaque em alguns espaços públicos e acadêmicos, desta forma acredito que esta tradução possa vir a contribuir para pensar a necropolítica, o poder da morte como forma de se fazer política, o qual possui alvos específicos, assim como Preciado nos relata sobre a França e que é possível perceber como ocorre no Brasil.

NECROPOLÍTICA FRANCESA - Paul B. Preciado
Paul B. Preciado

Cresci ouvindo histórias da Guerra Civil Espanhola. Durante anos, perguntei aos adultos como eles poderiam ter se matado entre irmãos, como a morte se torna a única maneira de se fazer política. Não consegui entender por que eles lutaram, o que os levou a destruírem-se, a destruir tudo. Minha avó, filha de vendedores ambulantes, era católica e anarquista. Seu irmão, um pobre trabalhador da indústria de sardinha, era ateu e comunista. Seu marido, contador da Prefeitura de uma cidade, era militante franquista. O irmão de seu marido, trabalhador agrícola, recrutado à força no exército de Franco¹, treinado para caçar os vermelhos. A história mais traumática da família, que voltava constantemente, como um sintoma, numa tentativa condenada ao retorno do sentido de fracasso, contava como o marido de minha avó libertou meu tio da prisão, o comunista, no dia previsto da sua execução. Os jantares familiares acabavam frequentemente em lágrimas de meu avô bêbado que gritava ao meu tio: “Eles quase me obrigaram a atirar em você pelas costas.” Meu tio respondeu: “E quem disse que você não seria capaz?” Sua resposta seguida por um cortejo de críticas, que no meu ouvido de criança soava como uma atualização póstuma da mesma guerra. Não tinha sentido nem solução.

Somente há alguns anos comecei a compreender que não foi a determinação ideológica, mas a confusão, desespero, depressão, fome, inveja/ciúmes [jalousie] e por que não dizer, a imbecilidade, que os conduziu até a guerra. Franco lançou uma lenda de seu képi, segundo o qual uma aliança diabólica entre maçons, judeus, homossexuais, comunistas, Bascos e Catalães ameaçava destruir a Espanha. Mas era ele quem iria destruir. O nacional-catolicismo inventou uma nação que não existia, desenhou o mito de uma eterna e nova Espanha, em nome do qual meus tios foram convocados. Como outrora na Espanha, uma nova linguagem nacional-cristã francesa buscou inventar uma nação francesa que não existe e que não propõe violência.

Vim morar na França seguindo os traços de 68, que podiam ser lidos através de uma filosofia cujo poder atlético [é] semelhante ao do futebol espanhol. Fiquei apaixonado pela língua francesa lendo Derrida, Deleuze, Foucault, Guattari; queria escrever nesse idioma, viver essa linguagem. Mas acima de tudo, imaginei a França como o lugar no qual a imbecilidade que leva ao fascismo seria desintegrada pela força das instituições democráticas – concebidas para encorajar a crítica em vez do consenso. Mas a imbecilidade e a confusão que derrubou meus ancestrais ibéricos poderia muito bem chegar à França.

Tenho dificuldade em acreditar, nos últimos tempos, no fascínio que exerce a linguagem do ódio defendido pelo nacional-cristianismo francês, na velocidade com a qual seus simpatizantes, estejam eles em oposição ou no governo – como Valls² que aplica com orgulho as políticas legisladoras no âmbito de um governo socialista. A extrema direita, a direita e uma parte da esquerda (aqueles que acreditam que os ciganos, imigrantes, muçulmanos, judeus, negros, homossexuais, feministas… são a causa da decadência nacional) pretendem demonstrar que a solução para os problemas sociais e econômicos virá da aplicação de técnicas de exclusão e morte contra uma parte da população. Não posso acreditar que 20% dos franceses encontram-se tão confusos que baseiam uma esperança de futuro na forma mais antiga e brutal de governo: a necropolítica – governo de uma população através da aplicação de técnicas de morte sobre uma parte (ou toda) dessa mesma população, em benefício não da população, mas de uma definição soberana e religiosa de identidade nacional.

O que preconiza as linguagens nacional-cristãs quando agitam a bandeira da ruptura e da rebelião social não podem ser chamadas de políticas, mas de guerra. A militarização das relações sociais. A transformação do espaço público em espaço de vigilância. Fechar as fronteiras, blindar os úteros, expulsar estrangeiros e imigrantes, proibi-los de trabalho, moradia, saúde, para erradicar o judaísmo, islamismo, prender e exterminar negros, homossexuais, transexuais… Finalmente, é para nos explicar que alguns órgãos da República não devem ter acesso às técnicas de governo, em função de sua identidade nacional, sexual, racial, religiosa, que há corpos nascidos para governar e outros devem permanecer como objetos de prática governamental. Se esta proposta política os seduz, e eu penso que os eleitores de Le Pen³, cujas declarações e ações que, infelizmente, sempre me foram familiares, é preciso chamá-lo pelo seu nome: que eles dizem o que desejam, é a guerra, e o que lhes convém é a morte.

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NOTAS:

1, Francisco Franco Bahamonde (1892-1975), foi militar, chefe de Estado e ditador espanhol. Conhecido como “Generalíssimo”, Francisco Franco ou simplesmente Franco, integrou o golpe de Estado na Espanha em julho de 1936 contra o governo da Segunda República, que deu início a Guerra Civil Espanhola.

2. Manuel Valls, político francês, deixou o Partido Socialista (PS) em 2017 e se juntou ao grupo LRM (República em Marcha) na Assembleia. Foi ministro francês do Interior de 16 de maio de 2012 a 31 de março de 2014. Nessa data, foi nomeado primeiro-ministro pelo presidente François Hollande, tendo ocupado esse cargo até 6 de dezembro de 2016, quando anunciou sua candidatura às eleições presidenciais francesas de 2017.

3. Marion Anne Perrine Le Pen, advogada e política de extrema-direita da França.

Tradução e Notas: Anderson dos Santos.

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