O DESEJO DO PSICANALISTA E A DIREÇÃO DA ANÁLISE – por Luciano Elia

Este texto foi apresentado pelo psicanalista Luciano Elia¹ no Encontro realizado pelo Núcleo São Paulo do Laço Analítico/Escola de Psicanálise no dia 3 de julho de 2022. 


I. NOTA PREAMBULAR

Não poderia começar a falar hoje para vocês sem primeiro dizer da alegria deste encontro, aqui em São Paulo, onde encontrei pares tão preciosos quanto decididos na aventura psicanalítica no mundo, que chamamos de Escola, seguindo esta indicação de Lacan.

Este encontro é, por assim dizer, norteado pelo desejo do psicanalista, seu tema, que habita todos nós aqui, em diferentes graus e de diferentes maneiras.

Desde já, portanto, quero agradecer aos que organizaram o encontro, colegas do Núcleo São Paulo do Laço Analítico/Escola de Psicanálise, e aos que vieram fazer disso um verdadeiro encontro.

II. ACERCA DO DESEJO

Para falar de desejo do psicanalista, penso que o melhor começo é justamente tomar a palavra desejo, que é o núcleo deste sintagma nominal. Pois que não só não é trivial como também inovador e até corajoso atribuir ao psicanalista um desejo, um “certo desejo”, como se exprimiu Jean Oury, num contexto próximo, o do Coletivo² como dispositivo de tratar a psicose em La Borde, para o que nada seria possível sem um correlato do desejo do psicanalista, senão o próprio.

Não sei se todos sabem, mas a palavra desejo foi banida do vocabulário filosófico desde Aristóteles, que considerava o desejo como uma coisa bestial, ou seja, coisa de animais, e fazia o corte distintivo do humano pela razão, na célebre fórmula “o homem é um animal… racional”, que poderíamos ler inserindo uma conjunção adversativa: “o homem é um animal, mas racional”. Então só a razão passou a ser glorificada como caráter distintivo do humano. E o desejo ficou por séculos relegado ao plano bestial, animalesco. Só com Spinoza o desejo, nomeadamente designado como desejo na “definição dos afetos”, recobrou seu direito de cidade na filosofia, numa série inaugurada por ele, que foi excomungado pela Igreja como Lacan veio a ser, pela outra igreja psicanalítica chamada IPA. Nas palavras do próprio Spinoza: 

O desejo [cupiditas] é a própria essência do homem, enquanto esta é concebida como determinada, em virtude de uma dada afecção qualquer de si própria, a agir de alguma maneira.³

Seguiram a via aberta por Spinoza Schopenhauer, que escreveu O mundo como vontade e representação4, Hegel, que concebeu o processo de constituição do humano (antropogênese) a partir de uma dialética de desejo, Nietzsche, Deleuze, Foucault, e teria sido também por Freud, se ele tivesse ingressado na filosofia, mas aí não teria criado a psicanálise, esta filha direta da ciência. Em Freud o desejo ganha status científico, ou para-científico, ou seja, psicanalítico, discursivo, rigoroso. É o Wunsch, que não se confunde nem com apetite – cujo termo em alemão é Begierde, empregado por Hegel na Fenomenologia do Espírito5 – nem com mero voto, mas como algo que contraria radicalmente a natureza, o vitalismo biológico, e que se articula com a pulsão, o que equivale a dizer: com a pulsão de morte. Freud então, seguindo uma linha inaugurada em outro campo por Espinosa, redignifica o desejo, e o extrai das malhas biológicas, o distingue da necessidade.

A despeito da insistência freudiana no Wunsch, inaugurada pela Interpretação de sonhos6 na virada do século, na qual ele afirma, com toda a propriedade, que se não conseguir dobrar os céus moverá o Acheronte, o rio dos infernos, o próprio movimento psicanalítico reproduziu em seu interior o rechaço ao desejo, o diabólico. Os pós-freudianos pararam de falar em desejo, passando a usar conceitos como impulso, defesa, fantasia e ansiedade, isso na vertente kleiniana, posto que na outra vertente, da psicologia do ego, só categorias psicológicas, integradoras e adaptacionistas eram aceitas. Foi Lacan que, dentro da psicanálise, reabilitou a o conceito e a própria palavra desejo.

III. O DESEJO DO PSICANALISTA

Mas imaginem falar em desejo do psicanalista, este ser neutro, apático, na interpretação desvitalizada que foi dada da dessubjetivação do analista! Nova heresia lacaniana, e por isso eu falei de coragem, além de inventividade, no início da seção II, acima.

Prova disso é que o máximo a que chegaram os psicanalistas pós-freudianos e pré-lacanianos foi explorar a categoria de contra-transferência como lugar em que se poderia localizar algo parecido com o desejo do psicanalista. Mas não. Pois a contra-transferência nada mais é do que a própria transferência só que provinda do pólo analista da relação analista-analisando, a despeito do que foi amplamente usada como técnica de interpretação. Se é transferência, e se formos rigorosos com nossos conceitos, ela é a atualização da realidade sexual do inconsciente, ela é edição do fantasma. E o psicanalista não pode se dar ao desfrute de usar assim de sua condição de sujeito do inconsciente em suas operações.

Por isso acho muito interessante e percuciente que Lacan tenha usado exatamente a categoria de desejo para exprimir o que sustenta a posição do psicanalista. Não podendo ser um desejo comum, ordinário, no sentido de inserido na ordem dos desejos nobres ou vulgares de todos os dias, determinado e norteado pelo fantasma, o desejo do psicanalista no entanto é desejo, e no entanto é um desejo outro, diferente, não-trivial, extraordinário. Minha tarefa aqui hoje é tentar dizer que especificidade é essa, que desejo peculiar é este.

Vou dar uma guinada aqui e dizer algo radical sobre o desejo comum, de todo dia e de todo sujeito, o desejo inconsciente. Em Observação sobre o Relatório de Daniel Lagache7, nos Escritos, Lacan afirma que é do lugar de objeto que se deseja. Afirmação surpreendente, sobretudo para os apologistas do sujeito, o sujeito desejante! Mas é como objeto que o tal sujeito desejante deseja. Isso é velado ao sujeito neurótico, que, nos melhores casos, se crê sujeito. Vamos ficar com essa observação em reserva para usá-la daqui a pouco a propósito do desejo do psicanalista em suas relações com a condição de objeto.

O ensino de Lacan pode ser considerado uma longa elaboração do objeto a, que não comparece nos primeiros momentos desse ensino, não por acaso, e constitui o que Lacan considera sua única invenção, todo o resto, segundo ele, estando presente em Freud.

Sabemos do lugar de importância e centralidade que Lacan deu ao que chamou Outro com maiúscula, o famoso Grande Outro, na trama conceitual que ele precisou tecer para salvar a psicanálise freudiana do naufrágio psico-biológico em que ela soçobrava no pós-guerra. O grande Outro é um campo, não uma função (esta é a fala, e também é o sujeito) e seu discurso constitui o próprio inconsciente, que fica, assim, claramente distinto de qualquer atributo do indivíduo psicológico isolado. Mas se observarmos bem, o Outro foi e é necessário para que finalmente seja constatada sua inconsistência, sua redução a um lugar. A longa elaboração do objeto a, que é conceituado como algo que “cai”, que se destaca do Outro e do sujeito que se constitui a partir dos significantes do Outro, fará com que este mesmo objeto venha, na reviravolta dos discursos dos seminários 16 e 17, a ser produzido pelo saber, S2. O objeto a vai, no processo de desenvolvimento do discurso psicanalítico, e no desenrolar de uma experiência de análise, que aliás lhe é correlata, tomando, por assim dizer, o lugar do Outro (título do seminário 16, De um Outro ao outro), que não deixa contudo de se manter como um lugar tornado inconsistente, e finalmente será o Outro sexo, o sexo Outro, a mulher, que não existe como categoria universal, assim como o Outro cessará de existir como campo simbólico, tornando-se Outro sexo (Seminário 20). 

Ora, o psicanalista, que Lacan afirma ser parte do conceito de inconsciente, é este ponto de redução do próprio inconsciente, de furo, de hiato, que é parte integrante dele. O psicanalista não ocupa na experiência psicanalítica o lugar de Outro, mas de objeto a causa de desejo. Este lugar está presente na estrutura do sujeito, é uma vicissitude possível para o sujeito, seu “futuro”, por assim dizer, na análise. A imagem escolhida pelos colegas do Núcleo São Paulo para ilustrar o cartaz deste evento foi, nesse sentido, muito feliz:

Tunga
Um dos desenhos da série “Gravitação”, de Tunga.

Esta obra do grande artista brasileiro que foi Tunga8 mostra a silhueta de uma figura humana cujo traçado, que a constitui como image, é “puxado” por uma lagartixa, que logicamente, portanto, “precede” a figura humana, a desenha – e não o contrário. A figura é o desenho a posteriori do rabo da lagartixa, o que ilustra, com poesia plástica, e que ganha, assim, valor de letra, a relação do objeto a com o sujeito.

O que o sujeito aparentemente tem diante de si sempre esteve, na verdade, na sua retaguarda, como causa. A função causa de desejo só pode ser operada por uma forma de desejo como esta, que já resultou da travessia pela qual o objeto passa da condição de alvo a atingir para a de mote que causa. Forma ativa e efetiva de um desejo que não se coloca à caça do objeto, segundo a gramática do fantasma, mas que, de um ponto exterior ao próprio fantasma, dele liberado, tem como seu ponto de mira um sujeito, não para fazer dele um objeto, posto que justamente objeto é já este agente operatório, mas para que o sujeito trabalhe a partir de sua divisão causada pelo objeto a em função de analista e produza, a partir deste trabalho, novos significantes mestres que demarcarão formas novas de gozo, ou seja, letras cuja função – por estarem em posição de produção no discurso, posição que é a do mais-de-gozar no discurso inaugural (discurso do mestre, que o da psicanálise tomou pelo avesso) – só podem literalizar o corpo com um gozo particular e inédito.

O desejo do psicanalista opera a partir da condição de objeto a, que é, como disse antes, uma condição própria à estrutura de todo sujeito. O psicanalista é uma função presente no sujeito, faz parte do conceito de inconsciente, mas nem por isso o sujeito tem qualquer razão para desejar operar como um psicanalista, concluída sua aventura psicanalítica. Se, como dissemos, é como objeto que o sujeito deseja, o analista é uma possibilidade inscrita na estrutura mesma do sujeito, mas há inúmeras outras formas a dar a esta posição produzida pela análise: se o psicanalista está em posição de causar o desejo – e este é o vetor de seu desejo de psicanalista – nem toda forma de causar o desejo implica, em contrapartida, que se faça a escolha de ocupar o lugar de psicanalista no laço social.

Caberiam aqui duas considerações: a posição de objeto a é impossível de ser ocupada por qualquer ser falante. Não se é nem se ocupa o lugar de objeto a. Lacan então formulou “o semblante”, o que ocupa, no plano das possibilidades de um falante, o lugar do vazio real do objeto a. Mas o semblante não é unicamente o objeto a, posição que o a assume no discurso psicanalítico. Mas em todo discurso o semblante, isto é, o que faz função do que, do real, não se pode apresentar na realidade, estará na posição de agenciar o discurso. Por isso não há discurso que não seja do semblante.

A segunda consideração diz respeito ao estatuto do desejo do psicanalista em relação ao inconsciente. Por estar em posição distinta e disjunta da posição do sujeito ao qual se endereça, o psicanalista não poderia operar a partir do “seu” inconsciente. Nem por isso ele opera desde a sua consciência. Qual é o estatuto da posição na qual o desejo do psicanalista opera?

Aqui articulam-se semblante, desejo do psicanalista e ato psicanalítico. No Seminário 16, Lacan, retomando, na parte final, o que desenvolvera no ano anterior (Seminário 15, O ato psicanalítico), afirma que, se a relação sexual não existe, não se escreve logica e matematicamente, o ato sexual, consequentemente, também não existe. E introduz um paradoxo:

A relação sexual, aqui o que costumeiramente se designa por esses termos, só poderia ser realizada por um ato. É isso que me permitiu avançar esses dois termos, que não há ato sexual, no sentido em que este ato seria aquele de uma justa relação e, inversamente, que só o ato sexual existe, no sentido de que só o ato pode fazer a relação ocorrer.9

Diz em seguida que a psicanálise revela que a dimensão de todo ato é o fracasso. Todo ato: o sexual, como matriz, e também o psicanalítico – todos os atos. Por isso, “no cerne da relação sexual, há na psicanálise o que se chama a castração”10.

Ora, se todo ato tem como sua dimensão própria o fracasso, o ato psicanalítico, por sua vez, seria aquele que, por estar advertido desse fracasso estrutural, só poderia ser “agido” a partir do que, na psicanálise, escreve o impossível da relação sexual, ou seja, o objeto a que, por sua vez, só faz operações na condição de semblante, aliás o semblante por excelência, já que há outros (em cada discurso o semblante será um dos 4 termos que constituem os discursos). O desejo do psicanalista é, assim, o desejo que “age” a partir deste ponto, este é seu ato.

Desejo de um sujeito já destituído da condição de sujeito, o desejo do psicanalista está fora do escopo da fantasia. Lacan diz que, no final da análise, a fantasia “solta”, por assim dizer, a pulsão de sua gaiola. O desejo que resulta de uma pulsão fora da fantasia é o desejo do psicanalista.

O desejo do psicanalista não é um desejo puro. É um desejo de obter a diferença absoluta, aquela que intervém quando, confrontado com o significante primordial, o sujeito vem pela primeira vez em posição de se assujeitar a ele. Só aí pode surgir a significação de um amor sem limite, porque ele está fora dos limites da lei, onde somente ele pode viver.11

Submeter-se ao significante primordial – seria o Nome-do-pai, do qual Lacan havia falado no momento justamente anterior a esta frase? Esta interpretação do significante primordial ao qual o sujeito vem pela primeira vez em posição de se assujeitar só é sustentável se uma tal submissão total ao significante, sem reservas, um consentimento subjetivo radical, fizer surgir, no mesmo ato, a significação de um amor sem limite, o que faz deste assujeitamento o mais justo contrário de toda e qualquer forma de servidão.

O desejo do psicanalista, que não é um puro desejo, visa a invenção do amor sem limite, inédito. O que pode querer dizer isso – um amor fora dos limites da lei? Seria um amor fora da lei, como um cowboy? Ou um amor fora dos estritos limites da lei do significante e da castração, fora dos limites da lei do desejo inconsciente, fora dos limites do inconsciente?


NOTAS

  1. Psicanalista, membro do Laço Analítico/Escola de Psicanálise, subsede do Rio de Janeiro.
  2. Oury, Jean – Le Collectif, Le Séminaire de Sainte-Anne, Nîmes, Champ Social Éditions, 2005.
  3. Spinoza. B. – Ética, Parte III – A origem e a natureza dos afetos, Definição dos afetos 1, Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2013, p. 237.
  4. Schopenhaurer, A. – O mundo como vontade e representação, São Paulo, Editora UNESP, 2005.
  5. Hegel, G. F. W. – La phénomenologie de l’esprit, Paris, Aubier, Editions Montaigne, 1941.
  6. Freud, S. – A interpretação de sonhos, 1900, in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas  Completasde Sigmund Freud, Rio de Janeiro, Imago Editora, 1969, Vol. IV.
  7. Lacan, J. – Remarque sur le rapport de Daniel Lagache: “Pychanalyse et structure de la personnalité”, in Écrits, Paris, Editions du Seuil, 1966.
  8. Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, conhecido como Tunga (nasceu em Palmares, Pernambuco, em 8 de fevereiro de 1952 e morreu aos 64 anos no Rio de Janeiro, 6 de junho de 2016. O desenho é da série Gravitações Magnéticas.
  9. Lacan, J. – Le Séminaire, Livre XVI – D’un Autre à l’autre (1968-69), Paris, Éditions du Seuil, 2006, p. 346. Note-se que a lição, de 4 de junho de 1969, intitula-se precisamente “Paradoxos do ato”;
  10. Ibidem, p. 346.
  11. Idem – Le Seminaire, Livre XI – Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse, (1964), Paris, Editions du Seuil, 1973, p. 248. (tradução livre do autor).

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