Uma das maiores e mais relevantes contribuições de Michel Foucault foi modificar o conceito de poder do campo da forma, da representação, da instituição para o nível das relações de forças.
Inclusive aprendemos com os institucionalistas que uma instituição ao invés dessa concepção estrutural, do lugar físico, é uma relação/contradição de forças, normas, lógicas, discursos, afetos que se movimenta incessantemente dando corpo mutante à instituição em seus processos instituintes e instituídos.
Pensemos conosco nas relações de poder na clínica…
Que linhas de força atravessam, transversalizam os corpos do paciente (por mais que essa palavra me soe como um palavrão por enunciar uma relação clássica de passividade) e do analista/terapeuta?
Os perigos de uma relação que privilegia o poder nas relações envolvem controlar, interpretar, “curar” uma pessoa na clínica psi. Há que se pensar fundamentalmente que compreensão de subjetividade se tem para produzir outras relações na clínica.
Se ainda nos colocamos a partir de uma relação que elenca um modo de vida como “normal” e, por sua vez, como saudável, estamos operando pela via da moral e privilegiando um modo de vida, uma forma, uma fôrma desejável, em detrimento das forças que fogem à curva delimitada do estratificado, do territorializado a partir de uma perspectiva social, econômica. (A lembrar do enclausuramento da loucura por não se encaixar nos interesses da burguesia in status nascendi).
Uma clínica que se furta à tentativa de alocar um corpo a uma forma esperada, apriorística e mapeia as forças que atravessam os corpos e cria-com. Preferir a multiplicidade, a diferença (onde a multiplicidade é substantivo e se rizomatiza de forma caosmopoiética) à identidade e universalização do eu, do sujeito, do tornar-se pessoa, do ser “o próprio terapeuta”.
O analista exerce o poder quando privilegia seu tecnicismo matematicamente programado em detrimento da sua sensibilidade de bailar com o acontecimento e dele experimentar possibilidades de ouvir, sentir, afetar e ser afetado. Diz Heidegger “a técnica é um meio para chegar um fim”. A potência está em colocar-se no meio (onde as multiplicidades vibram e os devires pululam) sem buscar um fim pré-determinado, mas construir planos, horizontes.
O/A analista exerce o poder quando diz que o saber está do lado do analisando, mas interpreta o que ele diz à luz de um referencial, da representação, da nosologia, mas toma a última palavra a do analista como um veredito… quando veste o jaleco branco do saber sobre os sentimentos do outro, saber as melhores saídas.
Se a/o analista ainda sustenta consigo a identidade detentor da cura, a qual será fornecida mediante um seguir-de-passos-ordenados por ele, perde-se na dicotomia anormal/normal/saúde-doença que tem se mostrado cada vez mais problemático, tendo em vista elementos epistemológicos, sociais, políticos e econômicos dos processos de saúde e processos de subjetivação.
As relações de poder na clínica vêm produzindo dependência, sujeição, disciplinarização através de um biopoder embasado no saber psi que constrói um ideal de sujeito psicológico (interiorizado, intrapsíquico) à luz do negativo, do erro, da culpa… O sujeito normal é aquele que NÃO tem isso, NÃO tem aquilo, NÃO tem esse cardápio de sintomas do DSM…
A própria escuta é canalizada, programada a identificar sintomas, erros, incoerências com o modelo correto de existir. E, aí sim elaborar um plano de ação, ou melhor, um plano de correção. Porque há uma crença de que existe um homem correto!
Este homem precisa ser superado, esta clínica do poder precisa ser destruída para produzir outras superfícies que deem conta de uma atitude ética-patética-peripatética, estética e política.
A clínica encontra sua potência na ética que rasga os modelos, as regras pré-estabelecidas que negam vidas a favor de um ideal e se questiona a cada encontro que modos de existência estão experimentados… Cartografa, experimenta-com, mapeia os afetos, as linhas de força, ao invés de interpretar-decalcar.
Uma clínica patética, path-ética segue a ética do pathos, como nos diria o psicólogo Afonso Fonseca. Essa lógica se bifurca em dois sentidos:
1) de ver o pathos (sofrimento) de forma ética e não moral, se questionar que encontros os corpos experimentam nos atravessamentos do pathos... Questionamento sine qua non para traçar rotas que possibilitem transmutar a estratificação do enclausuramento em criação de Corpos sem Órgãos (CsO’s) que permitam viver de forma intensiva e afirmativa, criando realidades/realteridades mesmo em meio ao pathos.
PathÉtica numa segunda acepção compreende Pathos não como a lógica romana de patologia, mas na perspectiva latina que vê no pathos a vivência da tragicidade com sensibilidade, pela via dos afetos.
A clínica patética segue a Ética do Pathos, um Ethos (atitude) da vivência dos afetos, de como os corpos se afetam, se agenciam, se diferenciam nos encontros.
A potência na clínica é Peripatética no sentido que nos presenteou Antônio Lancetti, companheiro de caminhada que nos deixou essa semana e nos inspira imensamente.
O conceito Peripatético deriva de uma escola criada por Aristóteles. O termo designa o hábito de dar aulas andando. O termo é utilizado como um adjetivo para qualificar o ato de ir, passear…
O Esquizo torce a lógica do divã ao se levantar e fazer um passeio peripatético, diz-no O Anti-Édipo! A clínica precisa aprender com este e aprender a caminhar, sair do lugar e mapear outras rotas, outros caminhos, perceber como o acontecimento produz singularidades, como as virtualidades se atualizam em Ato…
Peripatetizar é devir-cartógrafo/devir-antropofágico e ir degustando-com, interferindo, passeando, mapeando, expropriando, criando-com...
Levantar da cadeira das certezas do uno e peripatetizar com os rizomas, captar suas fugas, suas ramificações, suas intensidades e afetações. Fazer a pessoa levantar do divã de um inconsciente que rememora, repete, repete e criar um inconsciente superfície à luz do esquecimento que nos ensinara Nietzsche e que Cristina Rauter fez bem em escrever sua clínica do esquecimento.
A potência da clínica reside numa ESTÉTICA, onde a vida, a subjetivação não estão prontas, estruturadas e há um processo ininterrupto de instauração, de invenção, de criação de maneiras de existir, sentir…
A clínica como instituição, como um corpo também deve ser inventada, reinventada, destruída, arrancar todo o organismo que a faz repetir a reprodução do mesmo, de uma subjetividade serializada que dizem ser curada. Na veia estética da Clínica, a Arte é fundamentalmente a principal intercessora.
Compreender o plano da subjetividade, como o plano da produção por meio de vetores plurais é compreender que a política também interfere no campo do desejo, dos corpos, dos afetos… A lembrar da relação entre a máquina capitalística e a subjetividade presente em Deleuze e Guattari.
As tentativas de colocar a clínica como território da ciência e dissociá-la da política, da filosofia, da Arte dicotomizam e recortam a subjetividade numa lógica que não dá conta da multiplicidade das forças que nos constituem… A clínica em sua potência, considera as relações de poder (macro e micropolíticas) que produzem subjetividades, seja no plano das máquinas capitalísticas que descodificam e axiomatizam os fluxos na lógica do capital, seja no plano micropolítico das linhas maleáveis de controle, biopoder, microfascismo... Não há nada dissociado da política!
Além de considerar esses elementos molares e moleculares no plano da subjetivação, a clínica visa criar dispositivos de interferência, microguerrilha neste plano onde máquinas desejantes e socius se atravessam. Interferir nas máquinas de produção, apostar nas máquinas de guerra que operam na sua exterioridade as linhas de fuga a todos aparelhos de captura e criam outras possibilidades.
Desinstitucionalizar/ Desestratificar/ Desterritorializar/ Criar CsO’s da Clínica: cartografar saídas possíveis e poesíveis para uma clínica que privilegie a potência do acontecimento em detrimento do poder do acontecido, do fato, da hierarquia, da universalização.
Porém…
não há caminhos prontos: invente-os!
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FONTE
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* texto publicado em 19 de dezembro de 2016.