PRAGMATISMO PULSIONAL: Clínica Psicanalítica – por João Perci Schiavon

Sooner murder an infant in its cradle than nurse unacted desires. He who desires but acts not, breeds pestilence. (William Blake)¹

Seria um exagero voltar ao conceito de pulsão, a fim de esclarecê–lo, como se ainda permanecesse obscuro? Mas ele permanece obscuro, e a psicanálise, seja no plano teórico ou no processo clínico, talvez não seja outra coisa que a retomada incessante de tal esclarecimento. A pulsão é uma dessas fendas conceituais por onde o pensamento faz seu retorno à vida. Como é possível este retorno? Como o pensar pode se ajustar novamente à vida, ao vivo? Será possível esta justiça? Era o que Lacan entendia por final de análise, o momento em que o sujeito passa a viver a pulsão².

A psicanálise se torna simples e translúcida, quando se entende que sua inteligibilidade é dada pela pulsão. Mas a pulsão não é um conceito simples, ou melhor, não se alcançou ainda sua elucidação exaustiva e seu uso mais aguçado, muito pelo contrário. Já em Freud adquiriu diferentes aspectos, conforme aumentava a exigência de precisão clínica e se aprofundava a elaboração teórica. A clareza a respeito da pulsão depende, porém, da experiência que se faz dela. Desde Freud são notáveis as descrições de como afetos originários mudam de aspecto a ponto de se tornarem irreconhecíveis, embora – fato curioso, porém previsível – a maior parte dos afetos reconhecidos como originários possam ser ainda derivados, secundários, correspondendo, em código lacaniano, aos efeitos de significante³. É o que se passa com a pulsão, dos temas psicanalíticos o mais original, pois mesmo o inconsciente deve ser considerado sob o seu prisma, todavia obscuro e, como dissemos acima, pouco explorado, o que exige uma renovação constante da crítica e da suspeita.

Pode–se objetar que, ao contrário, este conceito foi demasiadamente investigado, que não se parou de falar dele, de maneira que se deveria passar adiante de coisa já tão resolvida, seja integrando–a de vez ou dispensando–a. Mas como o conceito de pulsão foi tratado até aqui? Como pulsão parcial, ligada à zona erógena, perfazendo um circuito em retorno, contornando o objeto e voltando à origem – a exemplo das pulsões oral, anal ou escopofílica? Como pulsões sexuais e suas antíteses, as pulsões do eu? Ou como pulsões de vida e de morte, para descrever uma vez mais, e de um modo ainda mais radical, com um acento cósmico ou bíblico, o insistente circuito em retorno – do pó viestes e ao pó retornarás? Não estarão todas essas modalidades de aparição do processo pulsional, a se mostrar a cada vez segundo o regime de entendimento que irá captar esse processo, compreendidas na fórmula maior do retorno – “onde isso era devo eu advir”, por ser precisamente pelo dizer e pelo entendimento que devo ali advir?

Apesar das diferenças significativas de visão que se pode ter sobre o assunto, conservamos o conceito de pulsão por ser igualmente aplicável:

1) ao impessoal ou extra–pessoal, pois a pulsão precede o regime meramente pessoal da experiência; é este traço, aliás, decorrente de seu caráter sexual e ao mesmo tempo ético, que torna possível a escuta analítica e a chamada comunicação de inconscientes;

2) ao singular, porque não há pulsão que não exista em ato e não se expresse à sua maneira, isto é, como um dizer, por mais alheio e distante que esteja da experiência subjetiva;

3) ao simples, por ela ser elementar e originária, feita de uma única peça;

4) ao refinado, uma vez que ela é, imediatamente, seu destino mais nobre, a sublimação, de modo a se definir também como dedicação, disciplina, sobriedade, autonomia e arte;

5) ao abstrato, por três razões: não se esclarece pelas relações da forma e da matéria, mas por linhas de força, movimentos e temporalidades; não se dirige a um objeto natural ou específico – o seu, justamente, é um x, a variação por excelência; e consiste, essencialmente, em uma prática constante e sem modelo;

6) ao real, pois é como pulsão, ou através dela, que se concebe a vida, a atividade e a lucidez em psicanálise.

Como se pode constatar, cada uma dessas aplicações tem seu duplo, e compõe com ele uma espécie de dueto destinado a fazer ouvir a pulsão. Extra–pessoal e singular, simples e refinado, abstrato e real são termos que, remetendo a um mesmo conceito, poderiam sugerir alguns paradoxos. Uma análise mais detida, porém, aproxima–os de tal modo que se tornam indiscerníveis. Tomemos um deles, o dueto simples–refinado. Certas obras de Arcângelo Ianelli, como é o caso de Vibrações em azul, de 1996, são, ao mesmo tempo, profundamente refinadas e profundamente simples – as intensidades do azul. E as Figuras de Francis Bacon, embora exijam uma gama considerável de procedimentos, uma limpeza exaustiva, de modo a eliminar os clichês figurativos e a narração, ganham o caráter simples de uma figuração direta das forças. Na música, o que Deleuze e Guattari chamam de plano sonoro imanente, em que “as formas cedem lugar a puras modificações de velocidade”4, aponta ainda o dueto pulsional, pois se trata sempre de um único e mesmo plano (a peça única) de composição, com todas as suas velocidades e lentidões. Ao descrever uma dança popular dos índios tarahumara, Artaud ressaltava o ritmo, a música que lhe fazia ouvir algo desse “plano fixo sonoro”: “Dançam ao som de uma música pueril e refinada que nenhum ouvido europeu pode conceber; parece que estamos escutando sempre o mesmo som, escandido sempre com o mesmo ritmo; porém, com o tempo, esses sons sempre idênticos e esse ritmo despertam em nós como que a recordação de um grande mito; evocam o sentimento de uma história misteriosa e complicada.”5

Mas se, ao mesmo tempo, a peça única se dá com aquilo que ela dá, deve–se ver aí uma prática constante e sem modelo, o abstrato–real.

O conceito de pulsão é em tudo apropriado para designar a idade de ouro no devir dos afetos, isto é, uma idade de ouro sempre a ponto de recomeçar.

A distinção entre pulsão e instinto, corrente depois de Lacan, permite situar a distância em que nos encontramos de tudo que possa ser conotado de natural e conhecido ao nos ocuparmos do campo, digamos inóspito, da pulsão, já por ele ser, a princípio, de difícil acesso. Na verdade, ainda que se trate de uma condição originária da experiência humana, é a raridade com que esse acesso se verifica que nos recomenda as maiores reservas quanto ao natural e ao conhecido. Por um lado, esse campo já foi exaustivamente catalogado, descrito; por outro, nos é inteiramente desconhecido. Será que o humano como tal, com sua decantada duplicidade, chega a entrar aí? Será que anunciando as “novas núpcias do significante com o vivo”, que é como são apresentados os Outros escritos de Lacan, se estaria dando o passo necessário? Ao se falar de “núpcias” se efetua, de fato, um avanço na compreensão da pulsão, se tivermos em vista o que se disse a respeito da mesma em toda a digressão lacaniana anterior. Sustentar o discurso analítico na intocável divisão do sujeito, no sujeito barrado e na verdade mentirosa, era permanecer ainda aquém da linha do horizonte psíquico; no melhor dos casos nas suas imediações, isto é, na borda da cratera do vulcão. Além se estende, ainda desconhecido, inexplorado, o campo metapsíquico.

Haveria uma experiência de fronteira? A primeira abordagem conceitual da pulsão, realizada por Freud, ao situar o campo analítico propriamente dito, foi considerá–la como ser de fronteira, entre o psíquico e o somático, a ponto de ela parecer dúplice ou de dupla face, ideia e afeto. A pulsão se faz sentir ou pressentir nos fenômenos de fronteira, no sinal da angústia, na presença do estranho, na divisão do sujeito no processo de defesa, nas formações do inconsciente, mas ela mesma, ela em si, não é fronteira, tendo sua vigência além da divisão, além da angústia e da castração. De um ponto de vista relativo, não há uma e sim diversas experiências de fronteira, conforme avança a análise do inconsciente e se transita de um estrato ideo–afetivo a outro, segundo a direção que é dada pela pulsão; mas de um ponto de vista absoluto há uma única fronteira, cuja transposição dá acesso ao real, isto é, à experiência direta da pulsão.

As “novas núpcias do significante com o vivo” constituiriam um ponto mais avançado da experiência em relação ao passado? Ou ainda se pensaria a mesma disjunção de ideia e afeto, de simbólico e sexual, de linguagem e vida? O gozo decorre do significante, como quer J. A. Miller em seu prólogo aos Outros escritos? Desde que o significante decorra do vivo, que não é apenas afetado pelas “manipulações linguageiras”, não é apenas gozo histérico, mas atividade, poder de manipulação, razão primeira da existência simbólica e do que dela resulta. Aliás, é nisto que consiste a genial lalangue de Lacan, o idioma indígena de cada um.

A nossa proposição é de que operando aquelas disjunções não estamos ainda na altura da pulsão. Eis para o que serve este conceito, já que, apesar das tentativas de diluir seu caráter estranho, sua face estrangeira – assimilando–o, por exemplo, à pulsão de morte, como vertente última e exclusiva – ainda ficou a salvo de reduções definitivas, e isto pela própria natureza da pesquisa analítica, quando ela não perde de vista o seu filão. Que esta pesquisa constitua um saber de não–senso, como pretendia Lacan, é o que encaminha a turba claudicante dos sentidos na direção da pulsão6. E no entanto, ideia e afeto pulsionais, indiscerníveis na origem, não só garantem o sentido dessa mesma direção como também, para além da última fronteira, decidem o lugar de todas as demais coisas, isto é, de todos os demais destinos, agora esvaziados de seu poder e de seu saber: sentido inaudito, visionário, soberano, inacessível aos outros; daí, precisamente, sua face de não–senso.

O campo pulsional

Existem assim destinos pulsionais que não são redutíveis às organizações neuróticas e perversas da sexualidade, e nem tampouco se confundem com as desorganizações psicóticas. Devires, são filhos do futuro. As chamadas estruturas clínicas compreendem decisões, decisões em favor de subjetividades não pulsionais, sem excetuar aqui as psicoses, onde toda escolha, bem como as tentativas de representação de um sujeito, tendem a ser profundamente solapadas – não sem que obscuras decisões tenham sido tomadas nessa direção. Destinos ignorados escapam àquelas estruturas tanto quanto possível, pois elas são, justamente, modalidades de defesa contra esses destinos. Por isso a análise envolve uma escolha constante, caminhos que se bifurcam e alianças que se renovam ou se desfazem. A escolha se fará pela representação ou pelo que chamamos de afeto originário7? A análise seguirá o caminho da identidade ou da diferença? Fará aliança com o eu ou com a pulsão?

A determinação progressiva do campo pulsional destina–se a torná–lo mais praticável; o que se concebe acerca desse campo – que se pode chamar igualmente de analítico – é inseparável do grau de liberação da escuta, com todas as suas consequências. O que se concebe a propósito da pulsão concebe–se gradualmente, e nisto consiste o progresso da análise, o que não impede que a experiência da pulsão seja a de um salto no real. Aliás, presidindo todo o processo, este salto é a pedra de toque da constância analítica 8 . Pois não se trata apenas de compreender, mas de agir, de decidir – não sem compreender, o que difere da passagem ao ato inconsciente. No plano do inconsciente, porém, é uma constante passagem ao ato esclarecido. De chofre, um solo originário.

Já dissemos em outro lugar que a psicanálise, originariamente clínica e uma teoria do real, necessita, no entanto, de um contínuo banho de real para se colocar à altura de sua destinação e aí permanecer, e que este banho consistiu, até agora, no crivo pelo qual fizeram–na passar o próprio Freud, depois Lacan, e até mesmo Deleuze e Guattari, aparentemente seus antípodas. A esquizo–análise é ainda a psicanálise, como a física quântica é ainda a física. Colocar–se à sua própria altura – mas é isto, repetimos, que se opera in progress, como convém à ciência da pulsão. Tudo depende de se manter essa direção, de não perder o rumo. Não avançar, bem entendido, já é perdê–lo. Insistimos, portanto, acreditando que por meio desta insistência seja possível dar um passo esclarecedor, sobretudo quando lidamos com um tema cuja assimilação se mescla imediatamente à sua prática. Prática do pensar, mas também do viver. Talvez haja um ponto em que o pensar e o viver sejam indiscerníveis, e esse seja o seu ponto mais alto.

Qual a amplitude do campo pulsional (ou analítico)? Será possível dizer que nada fica fora desse campo, que ele é o um–todo, o ovo filosófico, e por isto também a derradeira descoberta da ciência – nada fica fora do seu campo? Da física e da química à biologia e desta à psicanálise há um percurso, que se poderia chamar de crítico e ético, pelo qual se renovam as condições do saber no Ocidente; é o processo amplo e molecular em que o sujeito da ciência, subvertido, retorna ao inconsciente, ao real. Ao agente da subversão foi dado o nome de pulsão. É desse processo e de sua necessidade clínica que nasce o conceito. Estamos às voltas com uma concepção de sujeito que, se manifesta o ser em algum sentido, manifesta–o como atividade e poder de avaliação. A condição ativa nos adverte, no entanto, que é apenas desde uma ordem de representação que a subversão aparece como tal, pois no plano dos afetos, isto é, da vida pulsional, opera–se uma reversão ética, legitima por sua origem, de feição pré–socrática em alguns aspectos, kierkegaardiana em outros, onde o viver e o saber coincidem9.

A práxis analítica não faz outra coisa que revolver o solo das vitalidades e dos saberes esquecidos e ainda por vir; e assim não cessa de relembrar, no curso da escuta flutuante, que o esquecido originário é o devir do saber e da vida. Ela ensina, aliás, que não há outro devir. Diga–se de passagem, é preciso contar com uma considerável potência de esquecimento para lembrar disso. Esse gênero de recordação, espécie de recordação pura, evoca diretamente o sujeito do inconsciente, isto é, o lugar e a ocasião da maior vitalidade e da maior lucidez. É uma recordação pura, sem conteúdo ou representação, por ser o pressuposto de todas as histórias subjetivas; mas aparece também como um resultado, como a eclosão da diferença e um futuro. “Diferença”, aqui, não decorre de uma busca de diferenciação em relação aos outros, busca equivocamente narcísica, onde, inclusive, os outros continuariam sendo a medida de todo o esforço empreendido e, por esta razão, necessariamente abortado. “Diferença” é um modo preciso de nomear a lucidez de um mundo e seu brilho, sua verdade.

Pensamos assim em uma ciência da vida para além da biologia, numa bio-lógica, de maneira a envolver com esse termo a noção freudiana de metapsicologia. Para exprimi–lo em poucas palavras, o que não é biológico e nem psíquico, e nem imediatamente ontológico, é ético10. Que a pulsão seja de consistência ética (e não apenas um problema ético), é coisa que precisa ser ainda estabelecida.

Costuma–se dizer que a pulsão é um construto teórico, uma ficção, como queria Freud, quando fazia intervir die Hexe, a bruxa metapsicológica, para resolver um impasse teórico que, no caso da psicanálise, teria sempre consequências clínicas. Não o real, mas uma espécie de mito acerca do real, um meio de representá–lo, de torná–lo inteligível. “A teoria das pulsões é, por assim dizer, nossa mitologia” (Freud). Não sendo somática e nem propriamente psíquica, a pulsão não é diretamente apreendida senão como ideia e afeto. Essa noção central, no entanto, deve ter uma funcionalidade, deve servir clinicamente, já que não há pensamento psicanalítico sem implicações clínicas. É daí justamente que advém a força e a fecundidade da análise, do fato de se tratar de uma prática, ou ainda de um pensamento prático. Desde sua origem, é um pensar que se desarranja e se orienta pelo choque das aberturas de sentido e pelos enigmas com os quais se defronta na clínica. Os conceitos precisariam estar aliados a esse empreendimento. Ora, deste ponto de vista, a pulsão mesma será entendida, e muito especialmente ela, não só como potência estranha que aturde e mobiliza o pensamento, mas também como práxis, isto é, como procedimento ou exercício em seus diversos graus de inteligibilidade real. A questão da pulsão é a da experiência que se pode fazer dela e da sua eficácia, e se ela é produção do real como pretende, por exemplo, Garcia–Roza, é ainda em um sentido diferente de ser uma descrição do real que o produz como “uma ficção autenticamente científica”. Ela será concebida como práxis que produz e re–produz, por efeito de superação constante, suas próprias condições de exercício. Este conceito se torna, imediatamente, uma operação. Há uma armadilha da teoria que é uma armadilha do pensamento: como a pulsão “nunca se dá por si mesma (nem a nível consciente e nem a nível inconsciente), ela só é conhecida pelos seus representantes: a ideia (Vorstellung) e o afeto (Affekt). Além do mais, ela é meio física e meio psíquica. Daí seu caráter mitológico”11. Com isso, a metapsicologia pulsional não teria uma incidência imediata na prática analítica. Os traços de equivocidade e de indiscernibilidade da pulsão dão abertura e elasticidade clínica ao conceito, mas é preciso não perder logo adiante o que há pouco se conquistou. Afastando–se muito facilmente o problema da pulsão para o espaço da representação, perde–se o fio pragmático, essencialmente ativo, desse conceito admirável, com o agravante de desconhecer, de modo implícito, que o real é a experiência direta da pulsão.

Ainda mais contundente em sua forma de afastar para o campo teórico e especulativo o problema das pulsões, Fabio Herrmann afirma que “as teorias diversas que compõem a metapsicologia freudiana, como o nome o diz, formam uma espécie de metafísica da psique e possuem, como tal, valor operacional interpretante; valor, porém, que só é vigente nos campos teóricos”12. Uma vez reduzida ao horizonte metafísico da teoria e desconhecida sua enorme plasticidade, a noção de pulsão, que devia ser o alfa e o ômega da clínica, perde sua eficácia e se torna clinicamente inútil. Note–se o que está em jogo: a pulsão é, a cada vez, a medida de nossa relação com o inconsciente, ou seja, com a verdade de nosso ser, com o coração deste ser, ainda que ele seja afetado de uma profunda indeterminação – indeterminação decorrente, é claro, do andamento que ainda será dado a essa relação. Assim, a neutralização desse conceito extemporâneo, dotado de tal virtude operatória, não deixará de ter consequências teóricas e clínicas. Mas o que Herrmann irá chamar de “sentido de imanência”, aduzindo a esta noção um caráter misterioso, não será, precisamente, a pulsão de vida enquanto princípio ativo, atuando, ao longo do tempo, em diferentes graus de experimentação? O vivo, embora não habitualmente detectado, é de uma evidência prática espantosa, em especial na operação analítica – seja a irrupção do vivo no lapso, ou, para usar conceitos de Herrmann, no vórtice que anuncia a ruptura de um campo psíquico. Acontece de ser este vivo uma determinação constante, e se de alguma forma ele resulta, como quer esse autor, do método psicanalítico aplicado, que ao seu tempo o provoca, o convoca, isto se dá legitimamente na medida em que o método guarda uma aliança essencial com a vida – isto é, com a pulsão – e sua ética originária. A partir daí, essa ética encontra no método seu meio de afirmação, sua precisão. A psicanálise não é uma ciência do “homem psicanalítico”, mas da vida, tal como ela se diferencia, se aprofunda e se abisma nas condições de experiência do homem. E não, é claro, do homem em geral, mas de cada um, conquanto o destino de um possa interessar ao destino de todos. Dizer que a pulsão de vida não é uma coisa metafísica, meramente especulativa, mas uma prática, aproxima–nos de suas condições reais.

Quais os passos teóricos que permitiriam transpor a barreira da representação em direção à determinação desse conceito prático, a ponto de esclarecer seu vetor clínico? E com qual intuito o faríamos? Como diz um personagem de Godard, “conhecer a possibilidade de representar nos consola da sujeição à vida. Conhecer a vida nos consola do fato de que a representação tem caráter de sombra”13. O poder de curar reside no segundo conhecimento.

O clínico é originário14. Aliás, desde Nietzsche, com o antecedente da Ética de Spinoza, a filosofia é (para usar ainda uma expressão deleuziana) crítica e clínica. Crítica porque avalia as condições de um pensamento; clínica porque essa avaliação, além de considerar um pensamento pelo prisma sintomatológico, é também uma medicina. Uma visão clínica avalia os estados de saúde e de doença, os graus de vitalidade de um processo, de um pensamento; esta visão não é a de um juiz, ela pertence ao processo e é como que o seu cerne, a subjetividade do processo. Quanto mais singular este for, mais viva e lúcida será a avaliação de que é capaz. Entenda–se que o singular, aqui, não é um sujeito constituído de suas particularidades – é um acontecimento único, originário e, como tal, uma anomalia, capaz de recriar e sanear, à sua maneira, as formas e dispositivos culturais com os quais se enfrenta. A propósito da literatura, diz Deleuze que “não se escreve com as próprias neuroses (…) A doença não é processo, mas parada do processo (…) Por isso o escritor, enquanto tal, não é doente, mas antes médico, médico de si próprio e do mundo”15. No caso da psicanálise, nada impede que se veja no analista uma espécie de médico, desde que ele se alie à pulsão que é, ela mesma, a medicina adequada. A pulsão é o médico e a medicina, o curador e o modo de curar. É o mesmo que Freud já dizia, com outras palavras, no estágio inicial da sua teoria – que o sujeito é o verdadeiro intérprete do sonho.

Mas ele só é efetivamente o verdadeiro intérprete do sonho se fizer justiça ao seu descentramento, o que é garantido pela pulsão. Cabe perguntar, porém, se não se opera assim um recentramento do sujeito, agora no plano de uma realidade pulsional, perdendo–se de vista o que fora obtido com a noção de inconsciente, ou seja, que as questões subjetivas não se fechassem em um fundamento, em uma essência, aos quais pudessem ser referidas de uma vez por todas. Não é este o caso se concebermos a pulsão como atividade, como dizer. Se nos ativermos a isso, a ideia de centro deixa de ser aplicável e dá lugar às noções de linha, de movimento, de direção. A virtude do conceito reside, precisamente, em sua pertinência aos atos. A Trieb freudiana continua sendo uma novidade no campo dos conceitos. Através dele, como dissemos no início, o pensamento faz seu retorno à vida. Não é difícil entender porque será um retorno clínico.


NOTAS

  1. “Antes assassinar uma criança em seu berço que nutrir desejos que não agem”. “Aquele que deseja, mas não age, gera a peste”. Dos Provérbios do inferno, em Blake, W., O matrimônio do céu e do inferno – e O livro de Thel, p. 24 e 28, Iluminuras, SP, 1995.
  2. Lacan, Jacques, O seminário, Livro 11– Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, p. 258, Zahar, RJ, 1998.
  3. É até onde foi, de modo geral, a escola lacaniana no concernente ao afeto. A angústia assinalava uma fronteira, a presença e já a ausência de uma concatenação significante. Era uma aproximação do que chamamos de afetos originários.
  4. Deleuze, G. e Guattari, F., Mil platôs, vol., 4, p. 56, Editora 34, SP, 1997.
  5. Artaud, A., Los tarahumara, p. 79, Barral Editores, Barcelona, 1977. Félix Guattari considera as potencialidades criativas do caos segundo um mesmo tipo de paradoxo: “Essa concepção do caos me permite caracterizar o funtor ontológico que qualifico de Universo incorporal, ao mesmo tempo hipersimples – ritornelo alijado de qualquer relação com uma referência – e o hipercomplexo, desenvolvendo–se no seio de campos de virtualidade infinitos”. Caosmose: um novo paradigma estético, p. 78, Editora 34, SP, 1998.
  6. O não–senso, aqui, poderia ser um caos, e foi identificado, mais de uma vez, ao inconsciente a céu aberto da psicose. Este inconsciente, porém, decorre ainda da visão neurótica do universo e de sua dissolução. Outra coisa é o inconsciente pulsional.
  7. Se, conforme Pierre Lévy, numa lúcida retomada da visão freudiana, um psiquismo pode ser pensado segundo quatro dimensões – a topológica, a semiótica, a axiológica e a energética –, o afeto se define como processo ou acontecimento que põe em jogo pelo menos uma dessas dimensões. “Mas, sendo essas quatro dimensões mutuamente imanentes, um afeto é, de maneira mais geral, uma modificação do espírito, um diferencial de vida psíquica. Simetricamente, a vida psíquica manifesta–se como um fluxo de afetos”. Lévy, P., O que é o virtual?, 103–105, Ed. 34, 1999, SP.
  8. O que chamamos de salto no real corresponde ao momento de “retificação das relações do sujeito com o real”, tal como foi destacado por Jacques Lacan em A direção do tratamento (em Escritos, Zahar, RJ, 1998). Segundo esse autor, trata–se do primeiro passo propriamente analítico, seguido da transferência e da interpretação. Mas é também o passo constante, sempre retomado, até o fim do processo analítico. É um salto, pois implica em mudança de plano. Nunca se trata, porém, de um único salto, e sim de uma série deles, o que indica uma graduação, uma aproximação por graus – graus do real.
  9. É bem verdade que em Kierkegaard se trata da fé, da crença, e não do saber, dimensão menor da vida cristã, segundo este autor. A noção de pulsão, porém, traz para o campo do saber o que Kierkegaard chamaria de energia da fé, uma espécie de convicção quanto à passagem ao ato. Cf. Kierkegaard, Sören, O desespero humano, p. 160 e 161, Livraria Tavares Martins, 1961.
  10. Uma ontologia adequada à ética em questão seria possivelmente uma ontologia da imanência semelhante à de Spinoza. Deve–se distingui–la, como pretende Deleuze (em aula sobre Spinoza: Cours Vincennes – 12/12/ 1980, www.webdeleuze.com), da metafísica do Uno. Se este é o Bem, é superior ao ser, pois só o Bem faz ser, só ele garante o ser, e assim hierarquiza a ordem dos seres. É o prisma moral instalado no cerne de todo o pensamento metafísico, de Platão a Schopenhauer. Os seres estão julgados de antemão. No regime da imanência, porém, o ser se diz da mesma maneira de cada ente, e cada qual se esforça por efetuar sua potência: toda hierarquia só se erige secundariamente, o que faz a questão do ser e da potência, de início ontológica, refluir para uma ética da existência. A filosofia se torna prática. O bem e o mal cedem lugar às apreciações reais acerca do bom e do mau, do que favorece a vida, ou seja, do que é favorável à efetuação da potência em tais circunstâncias, aumenta a capacidade de agir e dá lugar a alegrias ativas, e o que a envenena e paralisa, promovendo as paixões tristes. O conhecimento, que nos faz experimentar alegrias ativas, é assim diretamente ético. O ponto de partida da análise, sua neutralidade, sua ausência de preconceitos e de juízos sobre a existência, torna–a exemplar como prática da imanência.
  11. Garcia–Roza, Luiz Alfredo, Freud e o inconsciente, p. 115, Zahar, RJ, 1999.
  12. Herrmann, F., Introdução à teoria dos campos, p. 85, Casa do Psicólogo, SP, 2004. “Não resta dúvida que, se alguém se sente tentado a usar sem mediações tais teorias de alto nível na clínica diária, será inexoravelmente conduzido a cometer aberrações do tipo da reificação implicada em explicar a destrutividade de um analisando pelo montante de seu “instinto de morte” e, quando este melhora, justificar o fato pela vitória do “instinto de vida”, em favor do qual colaborou o analista”. O uso abusivo e mesmo aberrante destas noções não autoriza, no entanto, seu abandono clínico, pois vida e morte são critérios éticos pelos quais o sujeito, via pulsão, é reconduzido à posição de desejo e saber. A pulsão não é um mero conceito explicativo, operante apenas no campo teórico; é um conceito polêmico, clínico e provocativo. Não se trata aqui, porém, de criticar Herrmann e sua concepção de clínica. É apenas um exemplo da disparidade de perspectivas na compreensão da análise ou, no mínimo, conforme pensamos, de seu conceito fundamental.
  13. Extraído do filme Para sempre Mozart, de Jean–Luc Godard.
  14. Assinalemos, de passagem, que uma tendência atual a condenar a clínica psicanalítica devido ao micro–poder implicado nos dispositivos clínicos em geral, com suas modalidades de subjetivação e sujeição, desconhece o poder peculiar da análise de restaurar as vias singulares, existenciais – isto é, pulsionais – pelas quais os modelos de subjetividade são subvertidos e superados. Ora, essas vias se inscrevem num plano ético, relativo, em última instância, à vida e à morte. O clínico e o ético pertencem, assim, ao mesmo plano.
  15. Deleuze, G., Crítica e clínica, p. 13, Ed. 34, SP, 1997.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

n.12 (2010). Cadernos de Subjetividade. / Núcleo de Estudos da Subjetividade – PUC-SP.


João Perci Schiavon é psicanalista desde 1980. Publicou no ano de 2002 O caminho do campo analítico (Travessa dos Editores), em 2003 A lógica da vida desejante (Criar Edições) e 2019 Pragmatismo Pulsional – clínica psicanalítica (N-1 Edições). Doutorou-se em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade de São Paulo (2012), com a tese Pragmatismo pulsional – clínica psicanalítica. Leciona na PUC-SP, no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica (Núcleo de Estudos da Subjetividade).


Abaixo algumas informações sobre o livro PRAGMATISMO PULSIONAL – clínica psicanalítica, de João Perci Schiavon, publicado em 2019 pela N-1 Edições.

“O saber ou o gozo pulsional tem esse traço de não servir a nenhum bem, algo meio desconcertante se tivermos em vista o título do presente escrito: “pragmatismo pulsional”. Se o saber em questão é uma avaliação, uma apreciação, operando em diversos graus de profundidade e de agudeza, não seria o mais útil dos saberes?

Repetimos, ele não serve a nenhum bem, não serve a nada, porque dele decorrem todos os bens possíveis e todas as utilidades. É o não sujeitável. A pulsão é a phisis freudiana, indicando a presença do originário no homem e no pensamento. Não convém esquecer, em nome de uma justa apreciação do saber analítico, que a pulsão é uma autoridade no que diz respeito ao vivo ou ao desejo. Ela só precisa ser exercida. Cura é o nome que damos a esse exercício.”


“Raros são os psicanalistas que têm tamanho domínio de Lacan e de Guattari a um só tempo e que a exemplo de João Perci Schiavon conseguem, escrevendo, um alcance clínico e filosófico de tal envergadura. Pragmatismo Pulsional é uma pérola. Desde o início o leitor é introduzido a uma atmosfera (um plano de imanência) em que as armas teóricas ou ideológicas são depostas e os clichês removidos, em favor de uma aventura sutilíssima em que somos convidados a experimentar o fluxo inconsciente e a aposta clínica num diapasão em tudo singular.

Entrecruzando a contribuição freudiana a uma linhagem filosófica que vai de Nietzsche a Deleuze, a pulsão reaparece sob uma nova luz, a ética desponta como um crivo incessante, Lacan se vê virado do avesso, a esquizoanálise se adivinha como uma nota quase inaudível e no entanto persistente, e os casos clínicos ganham rara vivacidade. O livro inteiro pode ser lido e vivido como uma “experiência”, subjetiva, clinica, filosófica, micropolítica – isto é, de transformação. O que mais se pode exigir de um livro hoje – a saber, que ele faça diferença, e diferença para a vida?” (Peter Pál Pelbart)

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