RITORNELOS E AFETOS EXISTENCIAIS – por Félix Guattari [Cartografias Esquizoanalíticas]

“Se tenho medo de ladrões em meus sonhos, os ladrões, com certeza, são imaginários, mas o medo deles é real,” assinalava Freud em A interpretação dos sonhos¹. O conteúdo de uma mensagem onírica pode se transformar, maquiar, mutilar, mas não sua dimensão afetiva, seu componente tímico. O Afeto adere à subjetividade, de maneira ‘glischocárica’, retomando a qualificação de Minkowski para descrever a epilepsia.  Exceto que ele gruda tanto na subjetividade de seu enunciador quanto ao de seu destinatário e, ao fazê-lo, desqualifica a dicotomia enunciativa:  locutor-auditor.  Spinoza havia detectado perfeitamente este caráter transitivista do afeto (“é impossível para nós imaginarmos alguém como nós sendo afetado sem sermos afetados com experimentar esse afeto”), do qual resultou o que ele chamou de ‘uma emulação do desejo’ e o desdobramento de composições afetivas multipolares.  Assim a tristeza que sentimos através do outro torna-se comiseração, enquanto que é “impossível representar o ódio contra nós por aqueles que são semelhantes a nós sem odiá-los em troca; e esse ódio não pode acontecer sem um desejo de destruição que se manifesta em raiva e crueldade².”  O afeto é assim, essencialmente, uma categoria pré-pessoal, estabelecendo-se “antes” da circunscrição de identidades, e que se manifesta por transferências não localizáveis do ponto de  vista  de  sua  origem  e  de  seu  destino.  Em algum lugar, há ódio da  mesma  forma  que,  em  sociedades  animistas,  circulam  influências  benéficas  ou  nocivas  através  dos  espíritos  ancestrais  e,  ao  mesmo  tempo,  dos  animais  totêmicos,  ou  através  do  “mana”  de  um  lugar  sagrado,  o  poder  de uma tatuagem ritual, uma dança cerimonial, o relato de um mito, etc. Uma polivalência, então, de componentes de semiotização que estão ainda em busca de sua consumação existencial. Tanto quanto a cor da alma humana, como os devires-animais e das magias cósmicas, o afeto  permanece  difuso,  atmosférico³,  e  ainda  assim  é  perfeitamente  perceptível na medida em que se caracteriza pela existência de limiares de passagem e de transformações polares. A dificuldade aqui reside na sua delimitação não ser discursiva, isto é, não estar fundamentada em sistemas de oposições distintivas que seguem sequências lineares de inteligibilidade ou capitalizadas em memórias informáticas compatíveis entre si. Assimilável nesse aspecto à duração bergsoniana, o afeto não se  enquadra  em  categorias  extensivas,  suscetíveis  de  serem  numeradas, mas sim nas categorias intensivas e intencionais, correspondentes a um auto-posicionamento existencial. Assim que se procura quantificar um afeto, imediatamente perdem-se suas dimensões qualitativas e seu potencial de singularização, de heterogênese. Dito de outra forma, as  composições  acontecimentais,  as  “hecceidades”  [hecceités]  que  promete.  Foi  o  que  aconteceu  com  Freud  quando  ele  quis  fazer  do  afeto  a  expressão qualitativa da quantidade de unidade energia pulsional (libido) e de suas variações. Afeto é um processo de apropriação existencial pela contínua criação de durações de ser heterogêneas, e, nesse aspecto, seria melhor renunciar tratá-lo sob a égide de paradigmas científicos, de modo a voltar-nos deliberadamente para paradigmas ético-estéticos.

Isso, parece-me, é o que Mikhail Bakhtin nos convida a fazer, quando, a fim de especificar a enunciação estética em relação à avaliação ética e conhecimento objetivo, coloca a ênfase no caráter de um “englobamento do  conteúdo  pelo  exterior”,  o  “sentimento  de  valor”  e  o  fato  que  leva  a experimentar a si mesmo como criador de forma4. O afeto vem junto do objeto estético, e o que eu gostaria de sublinhar é que não é modo algum o correlato passivo da enunciação, mas seu motor. É verdade que isto é um  tanto  paradoxal,  porque  o  afeto  é  não-discursivo,  não  implicando  um gasto energético, o que nos levou a qualificá-lo em outra parte como maquinismo desterritorializado.

A finitude, a consumação, a singularização existencial da pessoa tanto  em  relação  a  si  mesma,  tanto  quanto  na  circunscrição  de  seu  domínio  de  alteridade,  não  são  evidentes,  não  se  dá  nem  por  direitos  nem  de  fato,  mas  resultam  de  processos  complexos  de  produção  de subjetividade. E a criação artística, em condições históricas bem particulares, representou um crescimento, uma exacerbação extraordinária desta produção. Por isso, ao invés de reduzir a subjetividade a ser apenas o resultado de operações de significação, como os estruturalistas desejavam (neste sentido, ainda se está sob a influência da célebre fórmula lacaniana segundo o qual um significante deveria representar o sujeito para outro significante), preferimos cartografar os diversos componentes de subjetivação em sua heterogeneidade aterrada5. Mesmo no caso da composição de uma forma literária, que, sem dúvida, parece inteiramente tributária da língua, Bakhtin sublinha como seria redutor, para dar conta  desta,  limitar-se  ao  material  bruto  do  significante.  Opondo  a  personalidade  criativa,  organizada  do  interior  (à  qual  ele  assimila  o  contemplador  da  obra  de  arte),  à  personalidade  passiva,  organizada  desde  o  exterior,  do  personagem,  objeto  de  visão  literária6,  Bakhtin  é  levado  a  distinguir  cinco  “aspectos”  do  material  linguístico,  de  forma  a extrair um último nível de afeto verbal que assume o sentimento de engendrar ao mesmo tempo: o som, o sentido, os vínculos sintagmáticos e a valorização fática de ordem emotiva e volitiva.7 A atividade verbal de engendrar um som significante correlaciona-se assim com uma apropriação do ritmo, à entonação, aos elementos motores da mímica, à tensão articuladora, às gesticulações interiores da narração (criadoras de movimento), à atividade figurativa da metáfora e todo o impulso interno da pessoa “que ocupa ativamente por meio da palavra e dos enunciados  uma  determinada  posição  axiológica  e  semântica”8.  Mas Bakhtin se preocupa por precisar bem que esse sentimento não pode se reduzir ao de um movimento orgânico bruto, engendrando a realidade física da palavra, mas que é também o do engendramento e o sentido de apreciação:

“Dito  de  outro,  o  sentimento  de  um  movimento,  de  uma  tomada  de  posição  que  tomaria  a  uma  pessoa  inteira,  de  um  movimento  em  que  são  arrastados  ao  mesmo  tempo  o organismo e a atividade semântica, porque o que se engendra são a carne e o espírito da palavra, juntos, em sua unidade concreta.”9

Esta potência ativa do afeto, por ser não discursiva, não é menos complexa, eu inclusive a caracterizo como hiper-complexa, querendo indicar, assim, que é uma instância do engendramento da complexidade, processualidade em estado nascente, lócus da proliferação de devires mutantes. Com o afeto surge a questão de uma disposição da enunciação com base nos componentes modulares da proto-enunciação. O afeto fala comigo, ou pelo menos fala através de mim. O vermelho escuro de minha cortina entra em uma Constelação existencial com o crepúsculo, entre cachorro e lobo, para engendrar um misterioso Afeto que desvaloriza as evidências e as urgências que se impunham até poucos instantes atrás e  fazem  o  mundo  afundar  em  um  vazio  que  parece  irremediável.  Por outro  lado,  outras  cenas,  outros  Territórios  Existenciais10,  podem  se  tornar  o  suporte  para  Afetos  altamente  diferenciados.  Por  exemplo,  os  “leitmotivs” Das  Rheingold11 induzirão  inúmeros  referenciais  em  mim:  sentimentais,  míticas,  históricas,  sociais.  Ou pode  ser  que  a  evocação  de um problema humanitário desencadeie um sentimento complexo de repulsa, de revolta e de compaixão. A partir do momento que tais disposições cênicas, ou disposições de territorialização, ainda quando decidem persistir por conta própria, começam a transbordar fora do meu ambiente imediato e invocar procedimentos memoriais e cognitivos, eu me vejo tributário de uma Agenciamento de enunciação com múltiplas cabeças. A subjetivação individuada que, em mim, se permite falar na primeira pessoa já não é nada mais do que a interseção flutuante, o “terminal” consciencial desses diversos componentes de temporalização. Com a cortina e a hora tardia, o afeto, que poderíamos chamar sensível se dava como ser imediatamente aí, enquanto que com objetos problemáticos, sua congruência espaço-temporal se dissolve e seus procedimentos de elucidação ameaçam partir em todas as direções.

Minha ideia, porém, é que os  afetos  problemáticos  estão  na  base  dos  afetos sensíveis e não o contrário. Aqui o complexo deixa de estar baseado no elementar (como naquelas concepções predominantes nos paradigmas  científicos),  de  modo  a  organizar,  segundo  sua  própria  economia, distribuições sincrônicas e devires diacrônicos.

Vamos analisar esses dois aspectos, sucessivamente.

Como resultado precário de uma composição de módulos heterogêneos de semiotização, sua identidade está permanentemente comprometida pela  proliferação  dos  Phyla  problematizantes  que  trabalham  no  Afeto,  na  sua  versão  “rica”,  o  Afeto  está  constantemente  em  busca  de  reconquistar a si mesmo. Além disso, é essencialmente deste vôo ontológico “para  trás”,  consequência  de  um  movimento  infinito  de  virtualização  fractal12 que  resulta  seu  poder  de  auto-afirmação  existencial.  Em  um  plano fenomenológico, essa questão do cruzamento de um limiar pelo Afeto, com o objetivo de alcançar uma consistência suficiente, está presente  na  maioria  das  síndromes  psicopatológicas.  Deste  lado  desse  limiar, é a esfera do “tempo pático” – de acordo com a expressão feliz de von Gebsattel13 – que se encontra ameaçada. Igualmente, pode-se recordar o quiasma incisivo de Binswanger em relação ao autismo, que se caracterizaria menos por um tempo vazio – do tipo enfadado – do que por um vazio de tempo.14As síndromes psicopatológicas revelam, sem dúvida, melhor do que qualquer outro Agenciamento, o que eu chamaria de as dimensões incoativas inerentes ao Afeto, algumas dos quais se põe a trabalhar por conta própria. Isso não significa, no entanto, que a normalidade deva ser caracterizada por um equilíbrio harmônico entre os componentes modulares da temporalização. A normalidade pode ser tão “desordenada” quanto outros quadros. Alguns dos fenomenologistas relataram inclusive uma síndrome de hiper-normalidade na melancolia15. A discordância entre as diferentes formas de marcar o tempo – o que eu chamo de ritornelizações – não é específico de uma subjetividade anormal. O que caracterizaria melhor essa última é que um modo de temporalização se impõe, temporária ou definitivamente, sobre os outros. Enquanto que a psique normal, por outro lado, está sempre mais apta a passar de uma a outra, como Robert Musil dizia magnificamente a Ulrich: “A pessoa sã tem todas as insanidades mentais, o alienado só tem uma”16. A  exploração  dos  níveis  expressivos  de  temporalização  pática,  contudo,  não foi feita seriamente. Parece-me, porém, que as consequências que se podem esperar largamente excederiam o campo estrito de psicopatologia e seriam particularmente significativas no domínio linguístico. Eu imagino que a análise das consequências modais e aspectuais do comportamento obsessivo, ou  melancólico,  do  tempo  poderia  levar  à  formulação  de uma função mais geral da inibição da enunciação e, simetricamente, que de sua aceleração louca maníaca (Ideenfluss) para uma função de liquefação. (“O maníaco é continuamente tomado por uma gama infinita de referências, sempre atuais, fugazes e intercambiáveis. Sua temporalização é ‘reduzida a um momentalização absoluta’ (que) ignora qualquer duração e desaparece com a temporalização melancólica.”17) Eu também posso  imaginar  o  partido  que  semioticistas  poderiam  fazer  de  um  estudo,  que  seria,  sem  dúvida,  muito  mais  árduo,  da  lacuna  entre  a  expressão muda do catatônico e a fantástica “gesticulação interior” – para retomar uma expressão de Bakhtin – que é a máscara. De um modo geral, é preciso admitir que o desordenamento dos ritmos de enunciação e as discrepâncias  semióticas  que  resultam  não  podem  ser  consideradas  em um registro homogêneo de produção de sentido. Eles sempre se referem a tomadas de poder por componentes extralinguísticos: somáticos, etológicos, mitográficos, institucionais, econômicos, estéticos, etc. Isto é menos visível no exercício “normal” da palavra, em virtude do fato de que os afetos existenciais são nela mais disciplinados, sujeitos a uma lei de homogeneização e equivalência generalizada.

Sob  o  termo  genérico  “ritornelo”,  vou  agrupar  sequências  discursivas  reiteradas, fechadas sobre si mesmas, tendo como função uma catálise extrínseca dos afetos existenciais. Ritornelos podem tomar como substância  formas  rítmicas,  plásticas,  segmentos  prosódicos,  traços  de  facialidade, emblemas de reconhecimento, leitmotif, assinaturas, nomes próprios ou seus equivalentes invocacionais; igualmente eles podem ser estabelecidos  transversalmente  entre  diferentes  substâncias  –  como  é  o caso dos “ritornelos do tempo perdido” de Proust, que constantemente entram em correspondência um com o outro18.

Eles  podem  ser  de  uma  ordem  sensível  (o  biscoito  mergulhado  no  chá,  a  pavimentação desarticulada do pátio do Hotel de Guermantes; a pequena frase de Vinteuil, as composições plásticas ao redor do campanário de Martinville…);  ou  de  ordem  problemática  (a  ambiência  no  salão  de  Verdurin);  tanto quanto da ordem da facialidade (o rosto de Odette). Para situar sua posição de encruzilhada entre as dimensões sensíveis e problemáticas da enunciação, proponho “enquadrar” a relação de significação f (sign) (isto é, a relação de pressuposto recíproco ou de solidariedade, segundo a terminologia de Hjelmslev, entre a forma de Expressão e a forma de Conteúdo), de quatro funções semióticas relacionadas ao Referente e à Enunciação.

Assim teremos:

  1. uma função denotativa, f(den), correspondente às relações entre forma de Conteúdo e o Referente;
  2. uma  função  diagramática,  f(diag),  correspondente  às  relações entre matéria de Expressão e o Referente;
  3. uma função do afeto sensível (ritornelo), correspondente ao relações entre Enunciação e forma de Expressão;
  4. uma função de Afetos problemáticos (máquina abstrata), correspondendo às relações entre a Enunciação e a forma de Conteúdo.

Vamos notar que, na medida em que se pode conceber manter as funções significacionais,  denotativas  e  diagramáticas  no  marco  tradicional  dos   domínios sintáticos e semânticos, não se trata aqui de encerrar as duas funções  de  afeto  existencial  em  uma  terceira  gaveta  que  seria  rotulada  de ‘pragmática’. Como enfatizou Hjelmslev, a linguística não poderia depender de uma axiomatização autônoma (não mais do que qualquer outras ciências semióticas)19. E é ao lado destas concatenações de Territórios enunciativos parciais que se produz uma fuga generalizada dos sistemas de expressão do lado do social, do “pré-pessoal”, do ético e do estético.

RITORNELOS E AFETOS EXISTENCIAIS - por Félix Guattari [Cartografias Esquizoanalíticas]
Figura 1: Triângulo semiótico e triângulo enunciativo.

O que podemos esperar do nosso ritornelo-máquina abstrata bi-facial? Essencialmente  uma  localização  e  uma  decifração  dos  operadores  praxiais  existenciais  que  se  instalam  na  encruzilhada  de  Expressão-Conteúdo.  Uma  encruzilhada  onde,  insisto,  nada  está  jogado  de    antemão  em  um  sincronia estruturalista perfeita, na qual tudo é sempre um caso de Agenciamentos contingentes, de heterogêneses, de irreversibilização, de singularização.  Com  Hjelmslev  aprendemos  a  reversibilidade  definidora  entre forma de Expressão e forma de Conteúdo, que domina a heterogeneidade das substâncias e das matérias que são seu suporte. Mas, com Bakhtin, nós aprendemos a ler as camadas da enunciação, sua polifonia e seu multicentramento. Como podemos reconciliar a existência desta interseção que unifica formalmente Expressão e Conteúdo, e da multivalência-multifluência da Enunciação? Como entender, por exemplo, que as vozes heterogêneas do delírio ou da criação podem contribuir no Agenciamento de produções de sentido fora do sentido comum, as quais, longe de se instituírem em uma posição  deficitária  do  ponto  de  vista  cognitivo,  às  vezes  permitem  aceder  a  verdades  existenciais  altamente  enriquecedoras?  Linguistas  se  recusaram, durante muito tempo, a considerar a enunciação, da qual só queriam levar  em  consideração  suas  efrações  na  trama  estrutural  dos  processos  semântico-sintáticos.  Na  verdade,  a  enunciação  não  é  de  nenhum  modo  um subúrbio distante da linguagem. Ela constitui o núcleo ativo da criatividade  linguística  e  semiótica.  E  se  os  linguistas  estivessem  realmente inclinados a assumir a sua função de singularização, parece-me que estariam  prontos,  senão  a  substituir  por  nomes  próprios  os  símbolos  categoriais que dominam as árvores sintagmáticas e semânticas que herdaram dos  Chomskyanos  e  pós-Chomskyanos,  pelo  menos  para  conectá-los  aos  Rizomas  de  ritornelos  que  se  agarram  a  esses  nomes  próprios.  Devemos  aprender novamente os jogos dos ritornelos que fixam a ordem existencial do  ambiente  sensível  e  apoiar  as  cenas  de  meta-modelização  dos  Afetos  problemáticos mais abstratos. Vamos ver alguns exemplos.

O porta-garrafas de Marcel Duchamp funciona como gatilho para uma Constelação de Universos de referência que desencadeiam reminiscências íntimas – a adega da casa, aquele inverno, raios de luz nas teias de aranha, a solidão adolescente – tanto como conotações de uma ordem cultural e econômica – a época em que garrafas ainda eram lavadas com uma escova … A aura benjaminiana20 ou o punctum de Barthes21 também remetem  a  esse  gênero  de  ritornelização  singularizante.  É  ainda  isso  que   confere   seu   dimensionamento   na   escala   dos   Agenciamentos arquitetônicos22 – a que detalhes, às vezes detalhes minúsculos, se engancha a percepção de uma criança andando pelas passagens sombrias de um conjunto habitacional social (HLM)23? Como, a partir de uma serialidade angustiante, ele chega a consumar sua descoberta de um mundo de  halos  mágicos?  Sem  esta  aura,  sem  esta  ritornelização  do  mundo  sensível  –  que  se  estabelece  no  prolongamento  desterritorializado  dos  ritornelos etológicos24 e arcaicos25, os objetos do entorno perderiam seu “ar” de familiaridade e cairiam em uma estranheza angustiante.

Ritornelos de Expressão são de importância primordial em Afetos sensíveis: por exemplo, a entonação de um comediante fixará o estilo melodramático de uma ação, ou a “voz séria” de um pai irá desencadear a ira  do  Superego  (pesquisadores  americanos  conseguiram    demonstrar  que até mesmo o sorriso de lábios mais forçados implica, à maneira dos reflexos pavlovianos, efeitos bio-somáticos antidepressivos!). Por outro lado,  a  prevalência  de  ritornelos  de  Conteúdo,  ou  máquinas  abstratas,  se  afirmará  com  os  Afetos  problemáticos,  que  operam  tanto  na  direção da individuação quanto de uma serialização social. (Por outro lado, esses dois procedimentos não são antagônicos: as opções existenciais, neste registro, não são mutuamente exclusivas, mas entretém relações de segmentaridade, substituição e aglomeração.) Por exemplo, um ícone da Igreja Ortodoxa não tem como finalidade principal  um território de enunciação que o faça entrar em comunicação direta com este.26 O ritornelo facial extrai sua intensidade da maneira como ele intervém como um shifter – no sentido de uma “mudança de decoração” – no coração de um palimpsesto que superpõe os Territórios existenciais do corpo próprio e os da identidade personológica, conjugal, doméstica, étnica, etc.

Em um registro completamente diferente, uma assinatura adicionada em um recibo bancário, funciona também como um ritornelo da normalização  capitalista:  o  que  está  por  trás  desse  rabisco? Não  simplesmente a pessoa que o denota, mas também as assonâncias de poder que desencadeia na sociedade de “pessoas localizadas”.

As  ciências  humanas,  em  especial  a  psicanálise,  há  muito  nos  acostumou  a  pensar  o  afeto  em  termos  de  uma  entidade  elementar.  Mas  também existem afetos complexos, inaugurando rupturas diacrônicas irreversíveis  que  deveriam  ser  chamadas  de:  Afeto-Crístico,  Afeto-Debussista, Afeto-Leninista… É desta maneira que por décadas uma Constelação de ritornelos existenciais deu lugar a uma “Linguagem-Lênin”, envolvendo procedimentos específicos, tanto de ordem retórico e léxico como  a  partir  das  ordem  fonológica,  prosódica  ou  facial, etc.  O  cruzamento de um limiar – ou a iniciação – que legitime uma relação de puro pertencimento  existencial  a  um  grupo-sujeito27 depende  de  uma  certa  concatenação e tomada de consistência desses componentes, ritornelizados desse modo. Algum tempo atrás eu tentei mostrar, por exemplo, que  Leon  Trotsky  nunca  realmente  conseguiu  atravessar  o  limiar  de  consistência da Agenciamento coletivo do Partido Bolchevique28 .

A enunciação é como o regente da orquestra que às vezes aceita a perda de controle dos membros da orquestra: em certos momentos, o prazer de articulatório ou ritmo, a menos que seja a prosopopéia do estilo, o que se coloca a tocar seu solo, e impôr-se aos demais. Enfatizemos que, se um Agenciamento de enunciação pode comportar múltiplas vozes sociais, compromete igualmente vozes pré-pessoais capazes de produzir um êxtase estético, uma efusão mística ou um pânico etológico – por exemplo, uma síndrome agorafóbica – tanto quanto um imperativo ético. Pode-se perceber que todas as formas de emancipação são concebíveis. Um bom condutor não tentará despoticamente  sobresignificar  todos  os  componentes  da  partitura,  mas  ele buscará a passagem coletiva do limiar de acabamento do objeto estético,  designado  pelo  nome  no  topo  da  partitura.  “É  isto!  Você  conseguiu!”  Tempo, acentos, fraseamento, o equilíbrio das partes, harmonias; ritmos e timbres: tudo conspira na reinvenção do trabalho e na sua propulsão em direção a novas órbitas de sensibilidade desterritorializada.

O afeto não é, então, um estado passivamente sofrido, como sua representação  dada  nas  disciplinas “psi”.  É  uma territorialidade  subjetiva  complexa  de  proto-enunciação,  o  locus  de  um  trabalho,  de  um  práxis  potencial, que depende de duas dimensões conjuntas:

  1. Um processo  de  dissimetrização  extrínseca,  que  polariza  uma  intencionalidade em direção a campos de valor não discursivo (ou  Universos  de  referência);  esta  “eticização”  da  subjetividade  é correlativo de uma historicização e de uma singularização de sua trajetória existencial.
  2. Um processo de simetrização intrínseca, evocando não apenas realização estética de Bakhtin, mas também a fractalização de Benoit Mandelbrot29,  e  que  consiste  em  conferir  ao  afeto  uma consistência de um objeto desterritorializado e uma autonomização enunciativa  auto-existencializante.

Vamos ouvir mais uma vez Bakhtin: “através de sua própria força, a palavra transpõe a forma consumadora de conteúdo: assim, na poesia, a imploração, organizada esteticamente – começa a bastar-se em si mesma e já  não  precisa  ser  satisfeita,  por  assim  dizer,  pela  própria  forma  de  sua  expressão; uma oração deixa de precisar de deus para escutá-la; a queixa já não precisa de socorro, o arrependimento deixa de precisar de perdão, e assim por diante. Com a ajuda do único material, a forma preenche o evento, qualquer tensão ética, até o seu pleno cumprimento. Junto de seu material, o autor adota uma atitude criadora, produtora em relação ao conteúdo, isto é, no que diz respeito aos valores cognitivos e éticos. É como se o autor entrasse, por assim dizer, no evento isolado e se tornasse o criador nele, sem se tornar um participante30.” Essa função de consumação como a disjunção de conteúdo – no sentido que pode acontecer com um medidor de energia elétrica  quando  funciona  mal  -,  esta  auto-geração  de  enunciação  me  parece inteiramente satisfatória. Mas os outros traços que Bakhtin caracteriza na forma estética significante, a saber: a unificação, a individuação, a  totalização  e  o  isolamento33 me  parecem  precisar  de  desenvolvimento.  Isolamento: sim, mas isolamento ativo, na direção do que eu chamei em outro lugar de uma a-significância processual. Unificação, individuação e totalização: certamente, mas abertas, “multiplicantes”. É aqui que eu gostaria de apresentar essa outra ideia de uma tomada de consistência fractal. Na realidade, a unidade do objeto é apenas o movimento de subjetivação. Nada é dado em si mesmo. A consistência só é obtida por um perpétuo vôo, como uma fuga mais adiante de um para-si, que conquista um Território existencial ao mesmo tempo que o perde, se esforçando para, no entanto, reter uma memória estroboscópica dele. A referência aqui não é nada mais do que o suporte de um ritornelo reiterativo. O que importa é o corte, a lacuna (gap), que fará girar em torno de si, em círculos, e que irá gerar não só um sentimento de ser – um Afeto sensível – mas também um modo ativo de ser – um Afeto problemático.

Esta  reiteração  desterritorializante  é  igualmente  efetuada  ao  longo  de  dois eixos sincrônico e diacrônico, desta vez  não mais separados em coordenadas extrínsecas autonomizadas, mas entrelaçadas também em ordenações intensivas:

  1. Ordenações intencionais de acordo com as quais cada território afetivo é o objeto de uma fractalização – que podemos ilustrar mediante a transformação matemática chamada de baker que desenvolve relações  de  simetria  interna32.  Eu  entendo  por  isso  que  é  por  uma  tensão  incipiente,  um  “trabalho  em  progresso”  permanente, que se renova, que adquire consistência, a “tomada de ser” do afeto; nenhuma de suas divisões, mesmo que sejam infinitesimais, escapam dos procedimentos de homotetia33 existenciais realizados, fora dos registros de extensividade discursiva, pelos ritornelos sensíveis e problemáticos. Não são apenas todos os ângulos espaço-temporais da abordagem que serão explorados  e  subsumidos,  mas  o  conjunto  (ou  a  integralidade)  de  pontos  de  vista  de  escala  (para  voltar  mais  uma  vez  a  esta  fundamental categoria da arquiteturologia).
  2. Um eixo trans-monádico, ou eixo de transversalidade, que confere um  caráter  transitivista  para  a  enunciação,  fazendo-a  derivar  constantemente de uma Territorialidade existencial para outra, ao gerar, a partir desta, datas e durações singularizantes. (Mais uma vez o exemplo privilegiado aqui é o dos ritornelos proustianos).

A subjetivação é uma interseção de pontos de vista enunciativos atuais e virtuais. Ela quer ser tudo exclusivamente, e de fato não é nada, ou quase nada, porque é irremediavelmente fragmentária, está perpetuamente mudando, fora de si e de suas obras34. A finitude, a consumação existencial, são resultado do cruzamento de um limiar que não é de modo algum uma demarcação, ou uma circunscrição. O si mesmo e o outro se aglomeram no coração de uma intencionalidade ética e da promoção estética  de  um  fim.  O  que  falseia  completamente  a  leitura  de  autores  da psicanálise quando lidam com o Eu, é que literalmente não sabem do que eles estão falando; porque eles não se deram os meios para entender  que  o  Eu  não  é  um  conjunto  discursivo  em  paridade  com  relações  gestálticas com um referente. Assim, não se pode aceitar como válidos os recortes que propõe. Certamente, é sempre possível fazermo-nos em uma representação “deslocada”, para construir a propósito de algo uma cena de meta-modelagem para decretar que o “Eu” se identifica precisamente com esta cena. De todas as maneiras, dificilmente temos outros meios para falar sobre Ele (Eu), para esboçar ou escrever algo Ele (Eu). Não  é  menos  certo  que  o  Eu  continua  a  ser  o  mundo  inteiro.  “Eu  sou  tudo isso!” Como o cosmos, eu não reconheço limites para mim mesmo. Se,  por  acaso,  fosse  diferente,  se  eu  tivesse  que  cair  de  volta  no  meu  corpo, então haveria um mal estar. O Eu remete a uma lógica de “tudo ou nada”. Sempre existe uma parte de mim-mesmo que tolera mal que alguém possa decretar que não há eu mais além deste território. Não! Mais além, sempre será eu; mesmo que outro território tente se impor a mim – a menos que a questão do Eu deixe de ser colocada e toda possibilidade de auto-enunciação seja abolida. Esta é uma perspectiva assustadora e inominável, que preferimos não olhar de cara, e que geralmente nos leva a falar de outra coisa…

É  porque  o  Afeto  não  é  uma  energia  massivamente  elementar,  mas  a  matéria  desterritorializada  de  enunciação,  integralmente  “insight”  e  “outsight” altamente diferenciadas, com o qual se pode fazer algo, que pode ser trabalhado. Não no estilo dos psicanalistas tradicionais, isto é, dizer, à força das identificações modelizantes e das integrações simbólicas, mas distribuindo suas dimensões ético-estéticas através da mediação dos ritornelos. (Neste ponto eu concordo com Emmanuel Levinas quando ele liga intrinsecamente a facialidade e a ética.36) Considerem, por  exemplo,  os  ritornelos  sintomáticos  que  povoam  os  automatismos  psicológicos  de  Pierre  Janet,  as  experiências  delirantes  primárias  de  Karl  Jaspers  e  o  inconsciente  fantasmático  de  Freud.  Duas  atitudes  são possíveis: as que fazem disso um estado imóvel, e as que, por outro lado,  partem  da  ideia  de  que  nada  está  dado  de  antemão,  que  umas  práticas  analítico-estéticas  e  ético-sociais  são  capazes  de  abrir  novos  campos  de  possíveis.  O  freudismo,  nas  suas  origens,  realiza  uma  verdadeira  mutação  nos  Agenciamentos  de  enunciação.  Suas  técnicas  de  interpretação,  suas  intervenções  em  ritornelos  oníricos  e  psicopatológicos  apenas  se  referiam  em  aparência  a  conteúdos  semânticos  –  a  revelação ilusória de um “conteúdo latente”. Na verdade, toda sua arte consistiu em fazer seus ritornelos jogarem em cenas de afetos inéditos: livre associação, sugestão, transferência… – tantas novas maneiras de dizer e ver as coisas! Mas o que a psicanálise não viu, no curso de seu desenvolvimento histórico, é a heterogênese dos componentes semióticos de sua enunciação. Originalmente, o inconsciente freudiano levava em consideração duas matérias de expressão, a linguística e a icônica; mas com sua estruturalização, a psicanálise pretendeu reduzir tudo ao significante,  mesmo  o  “matema”.  Tudo  me  leva  a  pensar  que,  ao  contrário, seria preferível que a psicanálise se multiplicasse e diferenciasse os  componentes  expressivos  que  põe  em  jogo,  tanto  quanto  possível.  E  que seus próprios Agenciamentos de enunciação não estivessem necessariamente ordenados ao lado do divã e de tal maneira que a dialética do olhar seja radicalmente excluída. A análise tem tudo a ganhar com o ampliação de seus meios de intervenção; pode funcionar com a palavra, mas  igualmente  com  modelagem  de  argila  (como  faz  Gisela  Pankow),  ou com vídeo, cinema, teatro, estruturas institucionais, interações familiares, etc. De maneira sintética, tudo o que permite aguçar as facetas a-significantes dos ritornelos que encontra e de maneira que esteja em melhores condições de serem estimuladas suas funções catalíticas de  cristalização  de  novos  Universos  de  referência  (função  de  fractalização). Nestas condições, a análise já não estará mais referenciada na interpretação de fantasmas e o deslocamento de afetos, mas se aventurará  a  tornar  ambos  operativos  novamente,  para  marcá-los  com  uma  novo  “alcance”,  no  sentido  musical.  Seu  trabalho  básico  consistirá  em  detectar singularidades enquistadas – o que dá voltas, o que insiste no vazio, o que obstinadamente se recusa às evidências dominantes, o que se coloca em sentido contrário dos interesses manifestos… – e para explorar suas virtualidades pragmáticas.

Em que se pode apoiar o pendente significante reducionista sobre a qual o afeto psicanalítico não parou de escorregar, com a suas transferências cada vez mais vazias, suas trocas cada vez mais estereotipadas e assépticas?  Na  minha  opinião,  isso  é  inseparável  da  curvatura  muito  mais  geral dos Universais capitalísticos em direção a uma entropia das equivalências significacionais. Um mundo em que tudo se equivale, em que todas as singularidades existenciais são metodologicamente desvalorizadas; em que, sobretudo, os afetos da contingência, relativos à velhice, à doença, à loucura, à morte, são esvaziados de seus estigmas existenciais para remeterem somente a parâmetros abstratos, geridos por uma rede de serviços de assistência e cuidados – tudo banhado em uma atmosfera inefável, mas onipresente de angústia e culpabilidade
inconsciente
36.  Desencanto  Weberiano,  correlativo,  lembremo-nos  dele,  uma  desvalorização, uma “anti-magia sacramental”37, ou de um reencantamento em todas as direções das produções de subjetividade pela despolarização  dos  Universos  referência  coletivos,  com  respeito  aos  valores  da  equivalência  generalizada  e  em  benefício  de  uma desmultiplicação de capturas de valor existenciais? Ainda que a inflação atual das lógicas informáticas  e  comunicacionais  dificilmente  parece  ir  nessa  direção,  me parece que nosso futuro depende, em qualquer nível que o consideremos, da promoção de práticas analíticas sociais e estéticas preparando a chegada desta era pós-media.

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NOTAS

  1. Freud, Sigmund. L’Interpretation des rêves. Op. cit. p.460. (A frase que Guattari se refere é a citação de Salomon Stricker’s Studien uber das Bewusstsein. N.T. espanhol)
  2. Spinoza, B. de. Ouvres complétes, Paris: Gallimard, La Pléiade, 1954. Edição bras. Obra completa (I, II, III e IV): São Paulo: Editora Perspectiva, 2014.
  3. No que diz respeito à alienação esquizofrênica, a psiquiatria fenomenológica advoga por um diagnóstico  baseado  n  vivido  precoce  (Rümke),  o  sentimento  (Binswanger),  e  a  intuição  (Weitbrecht). Tellenbach  conceitua  um  “diagnóstico  atmosférico”  como  constatação  da  dissonância  entre  as  atmosferas  próprias  dos  dois  “parceiros”  [no  diagnóstico],  sem  acumular  sintomas    (Cf.  Arthur  Tatossian,  Phénoménologie  des psychoses. Paris: Masson, 1980.
  4. “Todas as conexões verbais sintáticas, para se tornarem conexões composicionais e realizar a forma no objeto artístico, devem ser permeadas pela unidade do sentimento único de  uma  atividade  de  vinculação  que  é  direcionada  para  a  própria  unidade,  vínculos objetivos e semânticos de caráter cognitivo ou ético, na unidade do sentimento de  tensão  e  englobamento,  formador  do  englobamento  exterior  do  conteúdo  teórico  e  ético.” Mikhail Bakhtin ‘O Problema do Conteúdo’, Esthétique et théorie du roman. Paris: Gallimard, 1978. Publicado em inglês em Art and Answerability. Ed. Michael Holquist and Vadim Liapunov. Trad.. de Vadim Liapunov and Kenneth Brostrom. Austin: University of Texas Press [escrito entre 1919–1924, publicado entre 1974-1979] [N.T.]
  5. Fonciére também pode ser traduzido por ‘da terra’ [N.T. 
  6. Ibid., pág. 81.
  7. Ibid., pág. 74.
  8. Ibid., pág. 71 e 74.
  9. Ibid., pág. 74.
  10. Guattari aplica neste texto uma série de conceitos que derivam daquilo que ele chamou de 4 funtores, centrais para o desenvolvimento da obra Cartografias Esquizoanalíticas. “Um esquema de quatro partes que consiste em Fluxos, Phylums, Universos [de referência] e Territórios [existenciais],” como nos explicam Young, Genosko e Watson. E seguem: “Em seu trabalho tardio, Guattari desenha dezenas de versões do esquema, geralmente organizadas em quadrantes que se assemelham aos de um gráfico x-y. [Os funtores] servem como uma ferramenta diagramática para as práticas relacionadas: esquizoanálise, cartografia esquizoanalítica, metamodelização e ecosofia. Guattari afirma que o esquema não é matemático e é não-representacional. Substitui estruturas, modelos ordinários das ciências sociais, binários e matemas lacanianos. Às vezes apresentado como um mapeamento do plano de consistência ou um agenciamento. (…) Fornece a base teórica para a “Caosmose” e também informa “O que é filosofia?” (Young, E. Genosko, G. e Watson, J. The Deleuze and Guattari Dictionary, Londres/Nova Iorque: Bloomsbury, 2013. p. 143.
  11. Obra de Richard Wagner, composição datada em 1869. [N.T.]
  12. “Aqui a  virtualidade  está  correlacionada  com  uma  desterritorialização  fractal,  que  tem uma velocidade infinita em um plano temporal e geradora de desvios infinitesimais em um plano espacial.” (cf. Capítulo 3 do livro Cartografias Esquizoanalíticas, “O Ciclo de Assemblages”, [não traduzido integralmente ao português]).
  13. Citado por A. Tatossian, Phénoménologie des psychoses, op. cit. p.169.
  14. Ibid., p. 117.
  15. Ibid., p. 103.
  16. Musil, Robert. L’homme sans qualité (‘O homem sem qualidades’) Paris: Seuil, 1956, t. II, p. 400.
  17. Tatossian, Phénoménologie des psychoses, op. cit. p.186.
  18. Ver em meu livro capítulo ‘Ritornelos do tempo perdido’ em meu livro (ed. Bras.) O Inconsciente Maquínico: ensaios de esquizoanálize, Tradução de Constança Marconces César e Lucy Moreira César. Campinas: Papirus Editora, 1988.
  19. Hjelmslev, Louis. Ensaios novos (Nouveaux essais) op. cit. pp.74–5.
  20. Benjamin, Walter. Iluminações (Illuminations) Nova Iorque: Harcourt Brace and World, 1968.
  21. Barthes, Roland. Camera Lucida. Nova Iorque: Farrar Strauss and Giroux, 1981. Ed. brasileira: A Câmara clara: nota sobre fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
  22. Girard,  Christian.  Architecture  et  concepts  nomades.  Brussels:  Mardaga,  1986.  Philippe  Boudon (em La ville de Richelieu, editado por AREA, 28, Rua Barbet-de-Joy 75.007, Paris,1972) distinguiu  vinte  tipos  de  escalas  consideradas  como  espaço  de  referência  para  o  pensamento arquitetônico: técnicas, funcionais, simbólicas formais, simbólica dimensional de modelo,  semântica,  sociocultural,  de  vizinhança,  de  visibilidade,  ótica,  parcelária,  geográfica, de extensão, cartográfica, de representação, geométrica, dos níveis de concepção, humana, global e econômica. Podemos conceber outras classificações e outros reagrupamentos, mas o respeito à heterogeneidade dos pontos de vista é o que importa aqui.
  23. Guattari usa HLM e não habitação social no texto original em francês. Significa literalmente “habitation à loyer moderé”, habitação de aluguel barato. [N.T. e do tradutor para o espanhol]
  24. Veja o capítulo ‘A etologia dos ritornelos sonoros, visuais e comportamentais no mundo animal’ em O Inconsciente Maquínico op. cit.  (p. 110-144).
  25. Marcel Granet mostra a complementaridade entre os ritornelos sonoros de demarcação social  na  China  antiga  e  os  afetos,  ou  virtudes,  como  ele  os  chama,  nascidos  de  nomes,  formas escritas, emblemas, etc: “a virtude específica de uma razão imponente é expressa numa dança cantada (com um motivo animal ou vegetal). Sem dúvida, é apropriado ver uma espécie de emblema musical em nomes de família antigos – um emblema que é traduzido graficamente em uma espécie de forma heráldica – toda a eficácia da dança e dos cantos habitam tanto o emblema gráfico quanto o emblema vocal”. Em: Granet, Marcel. La pensée chinoise, Paris, Albin Michel, 1950, p. 50-1.  (col. “Evolutión de l’humanité”).
  26. Isso  só  é  verdade  para  os  ícones  cuja  fabricação  foi  espalhada  entre  os  séculos  XI  e  XVI, centrada em uma misteriosa e quase sacramental facialidade. Posteriormente, ícones foram sobrecarregados com detalhes de roupas, personae multiplicado e receberam revestimentos de metal (oklad). Cf. O artigo ‘Icone’ de Jean Blankoff and Olivier Clement em Encyclopaedia Universalis IX, 1984, p.739–742.
  27. Guattari   apresenta   uma   definição   de   grupo-sujeito   e   grupo   assujeitado   em   ‘Transversalidade’, Publicado em Revolução  molecular, Pulsações  Políticas  do  Desejo.  São  Paulo: Brasiliense, 1987. [N.T]
  28. ‘La coupure leniniste’ (A Ruptura Leninista) em Guattari Psychanalyse et transversalité. Essais d’analyse institutionnelle, prefácio de Gilles Deleuze, Paris: Maspéro, 1974. p.183–94.
  29. Mandelbrot, Benoît. Les objets fractals. (2a. ed.) Paris: Flammarion, 1984; ‘Les fractals’ em Encyclopaedia Universalis [não especificada], p. 319–323.
  30. Bakhtin, Michael. Esthétique et théorie du roman. Paris: Gallimard, 1978. p. 73-74.
  31. Ibid., p. 47.
  32. Ilya  Prigogine  and  Isabelle  Stengers  La  Nouvelle  alliance,  Paris:  Gallimard,  1979.  Em  inglês: Order out of Chaos. Man’s Dialogue with Nature. New York: Bantam, 1984; Ivan Ekelard. Le calcul, l’imprévu op. cit. Seuil, Paris, 1984 (col. “Science ouverte”).
  33. Homotetia: Deslocamento devido à multiplicação da distância de um ponto qualquer do espaço a um ponto fixo, colocando-o sobre a reta estabelecida por esses dois pontos (Michaelis). [N.T.]
  34. Guattari escreve à côté de ses pompes et de ses oeuvres, fazendo um jogo com a expressão marcher à côté de ses pompes (caminhar ao lado de seus sapatos). A tradução em espanhol para  o  texto  de  Guattari  sugere  que  essa  expressão  se  refere  à  pessoas  distraídas,  e/ou  “fora de si”. [N.T. E do tradutor para o espanhol]
  35. Emmanuel Levinas: “Eu penso, por outro lado, que o acesso à face (ou à facialidade) é diretamente ético”. (Éthique et infini, Paris, 1985, p. 89). “A significação do rosto não é uma espécie  cuja  indicação  o  simbolismo  seria  o  gênero.”  (Heidegger  ou  la  question  du  Dieu, livro coletivo, Paris: Grasset, 1981, p. 243). “A responsabilidade para com o próximo não é uma acidente que suceda ao sujeito, mas precede ele na Essência, o compromisso para com o outro.”  (Humanisme de l’autre homme, Paris: Livre de Poche, 1987).
  36. Cf. Delumeau, Jean. Le péché et la peur. La culpabilisation en Occident. Paris, Fayard, 1983.
  37. Max Weber associou a idéia do desencanto (Entzau berung) do mundo a uma desvalorização (Entwertung) dos sacramentos como mensagem de salvação e com perda da magia  sacramental,  consecutiva  ao  crescimento  da  subjetividade  capitalista.  Max  Weber.  L’éthique protestante el le esprit du capitalisme. Paris: Edition Plan, 1967.

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FÉLIX GUATTARI foi filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês praticamente autodidata. É autor de inúmeras obras, algumas delas em colaboração com Gilles Deleuze. Entre os conceitos e noções criadas por Guattari estão: Transversalidade, Ecosofia, Caosmose, Desterritorialização, Ritornelo, Singularidade, Produção de Subjetividade, Capitalismo Mundial Integrado, etc. Teorizou também sobre a questão da transdisciplinaridade, do desejo, das instituições e foi, juntamente com Deleuze, o mais profundo crítico da Psicanálise.

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Publicado em Cartografias Esquizoanalíticas (1989), Paris: Éditions Galilée ….e… GIS (Gesto, Imagem e Som), Revista de Antropologia (USP), São Paulo, v. 4, n.1, p. 383-397, Out. 2019. Tradução: Cristina Thorstenberg Ribas, Revisão: Suzana Calô.

RITORNELOS E AFETOS EXISTENCIAIS - por Félix Guattari [Cartografias Esquizoanalíticas]

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