Isso, parece-me, é o que Mikhail Bakhtin nos convida a fazer, quando, a fim de especificar a enunciação estética em relação à avaliação ética e conhecimento objetivo, coloca a ênfase no caráter de um “englobamento do conteúdo pelo exterior”, o “sentimento de valor” e o fato que leva a experimentar a si mesmo como criador de forma4. O afeto vem junto do objeto estético, e o que eu gostaria de sublinhar é que não é modo algum o correlato passivo da enunciação, mas seu motor. É verdade que isto é um tanto paradoxal, porque o afeto é não-discursivo, não implicando um gasto energético, o que nos levou a qualificá-lo em outra parte como maquinismo desterritorializado.
A finitude, a consumação, a singularização existencial da pessoa tanto em relação a si mesma, tanto quanto na circunscrição de seu domínio de alteridade, não são evidentes, não se dá nem por direitos nem de fato, mas resultam de processos complexos de produção de subjetividade. E a criação artística, em condições históricas bem particulares, representou um crescimento, uma exacerbação extraordinária desta produção. Por isso, ao invés de reduzir a subjetividade a ser apenas o resultado de operações de significação, como os estruturalistas desejavam (neste sentido, ainda se está sob a influência da célebre fórmula lacaniana segundo o qual um significante deveria representar o sujeito para outro significante), preferimos cartografar os diversos componentes de subjetivação em sua heterogeneidade aterrada5. Mesmo no caso da composição de uma forma literária, que, sem dúvida, parece inteiramente tributária da língua, Bakhtin sublinha como seria redutor, para dar conta desta, limitar-se ao material bruto do significante. Opondo a personalidade criativa, organizada do interior (à qual ele assimila o contemplador da obra de arte), à personalidade passiva, organizada desde o exterior, do personagem, objeto de visão literária6, Bakhtin é levado a distinguir cinco “aspectos” do material linguístico, de forma a extrair um último nível de afeto verbal que assume o sentimento de engendrar ao mesmo tempo: o som, o sentido, os vínculos sintagmáticos e a valorização fática de ordem emotiva e volitiva.7 A atividade verbal de engendrar um som significante correlaciona-se assim com uma apropriação do ritmo, à entonação, aos elementos motores da mímica, à tensão articuladora, às gesticulações interiores da narração (criadoras de movimento), à atividade figurativa da metáfora e todo o impulso interno da pessoa “que ocupa ativamente por meio da palavra e dos enunciados uma determinada posição axiológica e semântica”8. Mas Bakhtin se preocupa por precisar bem que esse sentimento não pode se reduzir ao de um movimento orgânico bruto, engendrando a realidade física da palavra, mas que é também o do engendramento e o sentido de apreciação:
“Dito de outro, o sentimento de um movimento, de uma tomada de posição que tomaria a uma pessoa inteira, de um movimento em que são arrastados ao mesmo tempo o organismo e a atividade semântica, porque o que se engendra são a carne e o espírito da palavra, juntos, em sua unidade concreta.”9
Esta potência ativa do afeto, por ser não discursiva, não é menos complexa, eu inclusive a caracterizo como hiper-complexa, querendo indicar, assim, que é uma instância do engendramento da complexidade, processualidade em estado nascente, lócus da proliferação de devires mutantes. Com o afeto surge a questão de uma disposição da enunciação com base nos componentes modulares da proto-enunciação. O afeto fala comigo, ou pelo menos fala através de mim. O vermelho escuro de minha cortina entra em uma Constelação existencial com o crepúsculo, entre cachorro e lobo, para engendrar um misterioso Afeto que desvaloriza as evidências e as urgências que se impunham até poucos instantes atrás e fazem o mundo afundar em um vazio que parece irremediável. Por outro lado, outras cenas, outros Territórios Existenciais10, podem se tornar o suporte para Afetos altamente diferenciados. Por exemplo, os “leitmotivs” Das Rheingold11 induzirão inúmeros referenciais em mim: sentimentais, míticas, históricas, sociais. Ou pode ser que a evocação de um problema humanitário desencadeie um sentimento complexo de repulsa, de revolta e de compaixão. A partir do momento que tais disposições cênicas, ou disposições de territorialização, ainda quando decidem persistir por conta própria, começam a transbordar fora do meu ambiente imediato e invocar procedimentos memoriais e cognitivos, eu me vejo tributário de uma Agenciamento de enunciação com múltiplas cabeças. A subjetivação individuada que, em mim, se permite falar na primeira pessoa já não é nada mais do que a interseção flutuante, o “terminal” consciencial desses diversos componentes de temporalização. Com a cortina e a hora tardia, o afeto, que poderíamos chamar sensível se dava como ser imediatamente aí, enquanto que com objetos problemáticos, sua congruência espaço-temporal se dissolve e seus procedimentos de elucidação ameaçam partir em todas as direções.
Minha ideia, porém, é que os afetos problemáticos estão na base dos afetos sensíveis e não o contrário. Aqui o complexo deixa de estar baseado no elementar (como naquelas concepções predominantes nos paradigmas científicos), de modo a organizar, segundo sua própria economia, distribuições sincrônicas e devires diacrônicos.
Vamos analisar esses dois aspectos, sucessivamente.
Como resultado precário de uma composição de módulos heterogêneos de semiotização, sua identidade está permanentemente comprometida pela proliferação dos Phyla problematizantes que trabalham no Afeto, na sua versão “rica”, o Afeto está constantemente em busca de reconquistar a si mesmo. Além disso, é essencialmente deste vôo ontológico “para trás”, consequência de um movimento infinito de virtualização fractal12 que resulta seu poder de auto-afirmação existencial. Em um plano fenomenológico, essa questão do cruzamento de um limiar pelo Afeto, com o objetivo de alcançar uma consistência suficiente, está presente na maioria das síndromes psicopatológicas. Deste lado desse limiar, é a esfera do “tempo pático” – de acordo com a expressão feliz de von Gebsattel13 – que se encontra ameaçada. Igualmente, pode-se recordar o quiasma incisivo de Binswanger em relação ao autismo, que se caracterizaria menos por um tempo vazio – do tipo enfadado – do que por um vazio de tempo.14As síndromes psicopatológicas revelam, sem dúvida, melhor do que qualquer outro Agenciamento, o que eu chamaria de as dimensões incoativas inerentes ao Afeto, algumas dos quais se põe a trabalhar por conta própria. Isso não significa, no entanto, que a normalidade deva ser caracterizada por um equilíbrio harmônico entre os componentes modulares da temporalização. A normalidade pode ser tão “desordenada” quanto outros quadros. Alguns dos fenomenologistas relataram inclusive uma síndrome de hiper-normalidade na melancolia15. A discordância entre as diferentes formas de marcar o tempo – o que eu chamo de ritornelizações – não é específico de uma subjetividade anormal. O que caracterizaria melhor essa última é que um modo de temporalização se impõe, temporária ou definitivamente, sobre os outros. Enquanto que a psique normal, por outro lado, está sempre mais apta a passar de uma a outra, como Robert Musil dizia magnificamente a Ulrich: “A pessoa sã tem todas as insanidades mentais, o alienado só tem uma”16. A exploração dos níveis expressivos de temporalização pática, contudo, não foi feita seriamente. Parece-me, porém, que as consequências que se podem esperar largamente excederiam o campo estrito de psicopatologia e seriam particularmente significativas no domínio linguístico. Eu imagino que a análise das consequências modais e aspectuais do comportamento obsessivo, ou melancólico, do tempo poderia levar à formulação de uma função mais geral da inibição da enunciação e, simetricamente, que de sua aceleração louca maníaca (Ideenfluss) para uma função de liquefação. (“O maníaco é continuamente tomado por uma gama infinita de referências, sempre atuais, fugazes e intercambiáveis. Sua temporalização é ‘reduzida a um momentalização absoluta’ (que) ignora qualquer duração e desaparece com a temporalização melancólica.”17) Eu também posso imaginar o partido que semioticistas poderiam fazer de um estudo, que seria, sem dúvida, muito mais árduo, da lacuna entre a expressão muda do catatônico e a fantástica “gesticulação interior” – para retomar uma expressão de Bakhtin – que é a máscara. De um modo geral, é preciso admitir que o desordenamento dos ritmos de enunciação e as discrepâncias semióticas que resultam não podem ser consideradas em um registro homogêneo de produção de sentido. Eles sempre se referem a tomadas de poder por componentes extralinguísticos: somáticos, etológicos, mitográficos, institucionais, econômicos, estéticos, etc. Isto é menos visível no exercício “normal” da palavra, em virtude do fato de que os afetos existenciais são nela mais disciplinados, sujeitos a uma lei de homogeneização e equivalência generalizada.
Sob o termo genérico “ritornelo”, vou agrupar sequências discursivas reiteradas, fechadas sobre si mesmas, tendo como função uma catálise extrínseca dos afetos existenciais. Ritornelos podem tomar como substância formas rítmicas, plásticas, segmentos prosódicos, traços de facialidade, emblemas de reconhecimento, leitmotif, assinaturas, nomes próprios ou seus equivalentes invocacionais; igualmente eles podem ser estabelecidos transversalmente entre diferentes substâncias – como é o caso dos “ritornelos do tempo perdido” de Proust, que constantemente entram em correspondência um com o outro18.
Eles podem ser de uma ordem sensível (o biscoito mergulhado no chá, a pavimentação desarticulada do pátio do Hotel de Guermantes; a pequena frase de Vinteuil, as composições plásticas ao redor do campanário de Martinville…); ou de ordem problemática (a ambiência no salão de Verdurin); tanto quanto da ordem da facialidade (o rosto de Odette). Para situar sua posição de encruzilhada entre as dimensões sensíveis e problemáticas da enunciação, proponho “enquadrar” a relação de significação f (sign) (isto é, a relação de pressuposto recíproco ou de solidariedade, segundo a terminologia de Hjelmslev, entre a forma de Expressão e a forma de Conteúdo), de quatro funções semióticas relacionadas ao Referente e à Enunciação.
Assim teremos:
- uma função denotativa, f(den), correspondente às relações entre forma de Conteúdo e o Referente;
- uma função diagramática, f(diag), correspondente às relações entre matéria de Expressão e o Referente;
- uma função do afeto sensível (ritornelo), correspondente ao relações entre Enunciação e forma de Expressão;
- uma função de Afetos problemáticos (máquina abstrata), correspondendo às relações entre a Enunciação e a forma de Conteúdo.
Vamos notar que, na medida em que se pode conceber manter as funções significacionais, denotativas e diagramáticas no marco tradicional dos domínios sintáticos e semânticos, não se trata aqui de encerrar as duas funções de afeto existencial em uma terceira gaveta que seria rotulada de ‘pragmática’. Como enfatizou Hjelmslev, a linguística não poderia depender de uma axiomatização autônoma (não mais do que qualquer outras ciências semióticas)19. E é ao lado destas concatenações de Territórios enunciativos parciais que se produz uma fuga generalizada dos sistemas de expressão do lado do social, do “pré-pessoal”, do ético e do estético.
![RITORNELOS E AFETOS EXISTENCIAIS - por Félix Guattari [Cartografias Esquizoanalíticas]](https://clinicand.com.br/wp-content/uploads/2020/10/IMAGEM-G-3.jpg)
O que podemos esperar do nosso ritornelo-máquina abstrata bi-facial? Essencialmente uma localização e uma decifração dos operadores praxiais existenciais que se instalam na encruzilhada de Expressão-Conteúdo. Uma encruzilhada onde, insisto, nada está jogado de antemão em um sincronia estruturalista perfeita, na qual tudo é sempre um caso de Agenciamentos contingentes, de heterogêneses, de irreversibilização, de singularização. Com Hjelmslev aprendemos a reversibilidade definidora entre forma de Expressão e forma de Conteúdo, que domina a heterogeneidade das substâncias e das matérias que são seu suporte. Mas, com Bakhtin, nós aprendemos a ler as camadas da enunciação, sua polifonia e seu multicentramento. Como podemos reconciliar a existência desta interseção que unifica formalmente Expressão e Conteúdo, e da multivalência-multifluência da Enunciação? Como entender, por exemplo, que as vozes heterogêneas do delírio ou da criação podem contribuir no Agenciamento de produções de sentido fora do sentido comum, as quais, longe de se instituírem em uma posição deficitária do ponto de vista cognitivo, às vezes permitem aceder a verdades existenciais altamente enriquecedoras? Linguistas se recusaram, durante muito tempo, a considerar a enunciação, da qual só queriam levar em consideração suas efrações na trama estrutural dos processos semântico-sintáticos. Na verdade, a enunciação não é de nenhum modo um subúrbio distante da linguagem. Ela constitui o núcleo ativo da criatividade linguística e semiótica. E se os linguistas estivessem realmente inclinados a assumir a sua função de singularização, parece-me que estariam prontos, senão a substituir por nomes próprios os símbolos categoriais que dominam as árvores sintagmáticas e semânticas que herdaram dos Chomskyanos e pós-Chomskyanos, pelo menos para conectá-los aos Rizomas de ritornelos que se agarram a esses nomes próprios. Devemos aprender novamente os jogos dos ritornelos que fixam a ordem existencial do ambiente sensível e apoiar as cenas de meta-modelização dos Afetos problemáticos mais abstratos. Vamos ver alguns exemplos.
O porta-garrafas de Marcel Duchamp funciona como gatilho para uma Constelação de Universos de referência que desencadeiam reminiscências íntimas – a adega da casa, aquele inverno, raios de luz nas teias de aranha, a solidão adolescente – tanto como conotações de uma ordem cultural e econômica – a época em que garrafas ainda eram lavadas com uma escova … A aura benjaminiana20 ou o punctum de Barthes21 também remetem a esse gênero de ritornelização singularizante. É ainda isso que confere seu dimensionamento na escala dos Agenciamentos arquitetônicos22 – a que detalhes, às vezes detalhes minúsculos, se engancha a percepção de uma criança andando pelas passagens sombrias de um conjunto habitacional social (HLM)23? Como, a partir de uma serialidade angustiante, ele chega a consumar sua descoberta de um mundo de halos mágicos? Sem esta aura, sem esta ritornelização do mundo sensível – que se estabelece no prolongamento desterritorializado dos ritornelos etológicos24 e arcaicos25, os objetos do entorno perderiam seu “ar” de familiaridade e cairiam em uma estranheza angustiante.
Ritornelos de Expressão são de importância primordial em Afetos sensíveis: por exemplo, a entonação de um comediante fixará o estilo melodramático de uma ação, ou a “voz séria” de um pai irá desencadear a ira do Superego (pesquisadores americanos conseguiram demonstrar que até mesmo o sorriso de lábios mais forçados implica, à maneira dos reflexos pavlovianos, efeitos bio-somáticos antidepressivos!). Por outro lado, a prevalência de ritornelos de Conteúdo, ou máquinas abstratas, se afirmará com os Afetos problemáticos, que operam tanto na direção da individuação quanto de uma serialização social. (Por outro lado, esses dois procedimentos não são antagônicos: as opções existenciais, neste registro, não são mutuamente exclusivas, mas entretém relações de segmentaridade, substituição e aglomeração.) Por exemplo, um ícone da Igreja Ortodoxa não tem como finalidade principal um território de enunciação que o faça entrar em comunicação direta com este.26 O ritornelo facial extrai sua intensidade da maneira como ele intervém como um shifter – no sentido de uma “mudança de decoração” – no coração de um palimpsesto que superpõe os Territórios existenciais do corpo próprio e os da identidade personológica, conjugal, doméstica, étnica, etc.
Em um registro completamente diferente, uma assinatura adicionada em um recibo bancário, funciona também como um ritornelo da normalização capitalista: o que está por trás desse rabisco? Não simplesmente a pessoa que o denota, mas também as assonâncias de poder que desencadeia na sociedade de “pessoas localizadas”.
As ciências humanas, em especial a psicanálise, há muito nos acostumou a pensar o afeto em termos de uma entidade elementar. Mas também existem afetos complexos, inaugurando rupturas diacrônicas irreversíveis que deveriam ser chamadas de: Afeto-Crístico, Afeto-Debussista, Afeto-Leninista… É desta maneira que por décadas uma Constelação de ritornelos existenciais deu lugar a uma “Linguagem-Lênin”, envolvendo procedimentos específicos, tanto de ordem retórico e léxico como a partir das ordem fonológica, prosódica ou facial, etc. O cruzamento de um limiar – ou a iniciação – que legitime uma relação de puro pertencimento existencial a um grupo-sujeito27 depende de uma certa concatenação e tomada de consistência desses componentes, ritornelizados desse modo. Algum tempo atrás eu tentei mostrar, por exemplo, que Leon Trotsky nunca realmente conseguiu atravessar o limiar de consistência da Agenciamento coletivo do Partido Bolchevique28 .
A enunciação é como o regente da orquestra que às vezes aceita a perda de controle dos membros da orquestra: em certos momentos, o prazer de articulatório ou ritmo, a menos que seja a prosopopéia do estilo, o que se coloca a tocar seu solo, e impôr-se aos demais. Enfatizemos que, se um Agenciamento de enunciação pode comportar múltiplas vozes sociais, compromete igualmente vozes pré-pessoais capazes de produzir um êxtase estético, uma efusão mística ou um pânico etológico – por exemplo, uma síndrome agorafóbica – tanto quanto um imperativo ético. Pode-se perceber que todas as formas de emancipação são concebíveis. Um bom condutor não tentará despoticamente sobresignificar todos os componentes da partitura, mas ele buscará a passagem coletiva do limiar de acabamento do objeto estético, designado pelo nome no topo da partitura. “É isto! Você conseguiu!” Tempo, acentos, fraseamento, o equilíbrio das partes, harmonias; ritmos e timbres: tudo conspira na reinvenção do trabalho e na sua propulsão em direção a novas órbitas de sensibilidade desterritorializada.
O afeto não é, então, um estado passivamente sofrido, como sua representação dada nas disciplinas “psi”. É uma territorialidade subjetiva complexa de proto-enunciação, o locus de um trabalho, de um práxis potencial, que depende de duas dimensões conjuntas:
- Um processo de dissimetrização extrínseca, que polariza uma intencionalidade em direção a campos de valor não discursivo (ou Universos de referência); esta “eticização” da subjetividade é correlativo de uma historicização e de uma singularização de sua trajetória existencial.
- Um processo de simetrização intrínseca, evocando não apenas realização estética de Bakhtin, mas também a fractalização de Benoit Mandelbrot29, e que consiste em conferir ao afeto uma consistência de um objeto desterritorializado e uma autonomização enunciativa auto-existencializante.
Vamos ouvir mais uma vez Bakhtin: “através de sua própria força, a palavra transpõe a forma consumadora de conteúdo: assim, na poesia, a imploração, organizada esteticamente – começa a bastar-se em si mesma e já não precisa ser satisfeita, por assim dizer, pela própria forma de sua expressão; uma oração deixa de precisar de deus para escutá-la; a queixa já não precisa de socorro, o arrependimento deixa de precisar de perdão, e assim por diante. Com a ajuda do único material, a forma preenche o evento, qualquer tensão ética, até o seu pleno cumprimento. Junto de seu material, o autor adota uma atitude criadora, produtora em relação ao conteúdo, isto é, no que diz respeito aos valores cognitivos e éticos. É como se o autor entrasse, por assim dizer, no evento isolado e se tornasse o criador nele, sem se tornar um participante30.” Essa função de consumação como a disjunção de conteúdo – no sentido que pode acontecer com um medidor de energia elétrica quando funciona mal -, esta auto-geração de enunciação me parece inteiramente satisfatória. Mas os outros traços que Bakhtin caracteriza na forma estética significante, a saber: a unificação, a individuação, a totalização e o isolamento33 me parecem precisar de desenvolvimento. Isolamento: sim, mas isolamento ativo, na direção do que eu chamei em outro lugar de uma a-significância processual. Unificação, individuação e totalização: certamente, mas abertas, “multiplicantes”. É aqui que eu gostaria de apresentar essa outra ideia de uma tomada de consistência fractal. Na realidade, a unidade do objeto é apenas o movimento de subjetivação. Nada é dado em si mesmo. A consistência só é obtida por um perpétuo vôo, como uma fuga mais adiante de um para-si, que conquista um Território existencial ao mesmo tempo que o perde, se esforçando para, no entanto, reter uma memória estroboscópica dele. A referência aqui não é nada mais do que o suporte de um ritornelo reiterativo. O que importa é o corte, a lacuna (gap), que fará girar em torno de si, em círculos, e que irá gerar não só um sentimento de ser – um Afeto sensível – mas também um modo ativo de ser – um Afeto problemático.
Esta reiteração desterritorializante é igualmente efetuada ao longo de dois eixos sincrônico e diacrônico, desta vez não mais separados em coordenadas extrínsecas autonomizadas, mas entrelaçadas também em ordenações intensivas:
- Ordenações intencionais de acordo com as quais cada território afetivo é o objeto de uma fractalização – que podemos ilustrar mediante a transformação matemática chamada de baker que desenvolve relações de simetria interna32. Eu entendo por isso que é por uma tensão incipiente, um “trabalho em progresso” permanente, que se renova, que adquire consistência, a “tomada de ser” do afeto; nenhuma de suas divisões, mesmo que sejam infinitesimais, escapam dos procedimentos de homotetia33 existenciais realizados, fora dos registros de extensividade discursiva, pelos ritornelos sensíveis e problemáticos. Não são apenas todos os ângulos espaço-temporais da abordagem que serão explorados e subsumidos, mas o conjunto (ou a integralidade) de pontos de vista de escala (para voltar mais uma vez a esta fundamental categoria da arquiteturologia).
- Um eixo trans-monádico, ou eixo de transversalidade, que confere um caráter transitivista para a enunciação, fazendo-a derivar constantemente de uma Territorialidade existencial para outra, ao gerar, a partir desta, datas e durações singularizantes. (Mais uma vez o exemplo privilegiado aqui é o dos ritornelos proustianos).
A subjetivação é uma interseção de pontos de vista enunciativos atuais e virtuais. Ela quer ser tudo exclusivamente, e de fato não é nada, ou quase nada, porque é irremediavelmente fragmentária, está perpetuamente mudando, fora de si e de suas obras34. A finitude, a consumação existencial, são resultado do cruzamento de um limiar que não é de modo algum uma demarcação, ou uma circunscrição. O si mesmo e o outro se aglomeram no coração de uma intencionalidade ética e da promoção estética de um fim. O que falseia completamente a leitura de autores da psicanálise quando lidam com o Eu, é que literalmente não sabem do que eles estão falando; porque eles não se deram os meios para entender que o Eu não é um conjunto discursivo em paridade com relações gestálticas com um referente. Assim, não se pode aceitar como válidos os recortes que propõe. Certamente, é sempre possível fazermo-nos em uma representação “deslocada”, para construir a propósito de algo uma cena de meta-modelagem para decretar que o “Eu” se identifica precisamente com esta cena. De todas as maneiras, dificilmente temos outros meios para falar sobre Ele (Eu), para esboçar ou escrever algo Ele (Eu). Não é menos certo que o Eu continua a ser o mundo inteiro. “Eu sou tudo isso!” Como o cosmos, eu não reconheço limites para mim mesmo. Se, por acaso, fosse diferente, se eu tivesse que cair de volta no meu corpo, então haveria um mal estar. O Eu remete a uma lógica de “tudo ou nada”. Sempre existe uma parte de mim-mesmo que tolera mal que alguém possa decretar que não há eu mais além deste território. Não! Mais além, sempre será eu; mesmo que outro território tente se impor a mim – a menos que a questão do Eu deixe de ser colocada e toda possibilidade de auto-enunciação seja abolida. Esta é uma perspectiva assustadora e inominável, que preferimos não olhar de cara, e que geralmente nos leva a falar de outra coisa…
É porque o Afeto não é uma energia massivamente elementar, mas a matéria desterritorializada de enunciação, integralmente “insight” e “outsight” altamente diferenciadas, com o qual se pode fazer algo, que pode ser trabalhado. Não no estilo dos psicanalistas tradicionais, isto é, dizer, à força das identificações modelizantes e das integrações simbólicas, mas distribuindo suas dimensões ético-estéticas através da mediação dos ritornelos. (Neste ponto eu concordo com Emmanuel Levinas quando ele liga intrinsecamente a facialidade e a ética.36) Considerem, por exemplo, os ritornelos sintomáticos que povoam os automatismos psicológicos de Pierre Janet, as experiências delirantes primárias de Karl Jaspers e o inconsciente fantasmático de Freud. Duas atitudes são possíveis: as que fazem disso um estado imóvel, e as que, por outro lado, partem da ideia de que nada está dado de antemão, que umas práticas analítico-estéticas e ético-sociais são capazes de abrir novos campos de possíveis. O freudismo, nas suas origens, realiza uma verdadeira mutação nos Agenciamentos de enunciação. Suas técnicas de interpretação, suas intervenções em ritornelos oníricos e psicopatológicos apenas se referiam em aparência a conteúdos semânticos – a revelação ilusória de um “conteúdo latente”. Na verdade, toda sua arte consistiu em fazer seus ritornelos jogarem em cenas de afetos inéditos: livre associação, sugestão, transferência… – tantas novas maneiras de dizer e ver as coisas! Mas o que a psicanálise não viu, no curso de seu desenvolvimento histórico, é a heterogênese dos componentes semióticos de sua enunciação. Originalmente, o inconsciente freudiano levava em consideração duas matérias de expressão, a linguística e a icônica; mas com sua estruturalização, a psicanálise pretendeu reduzir tudo ao significante, mesmo o “matema”. Tudo me leva a pensar que, ao contrário, seria preferível que a psicanálise se multiplicasse e diferenciasse os componentes expressivos que põe em jogo, tanto quanto possível. E que seus próprios Agenciamentos de enunciação não estivessem necessariamente ordenados ao lado do divã e de tal maneira que a dialética do olhar seja radicalmente excluída. A análise tem tudo a ganhar com o ampliação de seus meios de intervenção; pode funcionar com a palavra, mas igualmente com modelagem de argila (como faz Gisela Pankow), ou com vídeo, cinema, teatro, estruturas institucionais, interações familiares, etc. De maneira sintética, tudo o que permite aguçar as facetas a-significantes dos ritornelos que encontra e de maneira que esteja em melhores condições de serem estimuladas suas funções catalíticas de cristalização de novos Universos de referência (função de fractalização). Nestas condições, a análise já não estará mais referenciada na interpretação de fantasmas e o deslocamento de afetos, mas se aventurará a tornar ambos operativos novamente, para marcá-los com uma novo “alcance”, no sentido musical. Seu trabalho básico consistirá em detectar singularidades enquistadas – o que dá voltas, o que insiste no vazio, o que obstinadamente se recusa às evidências dominantes, o que se coloca em sentido contrário dos interesses manifestos… – e para explorar suas virtualidades pragmáticas.
Em que se pode apoiar o pendente significante reducionista sobre a qual o afeto psicanalítico não parou de escorregar, com a suas transferências cada vez mais vazias, suas trocas cada vez mais estereotipadas e assépticas? Na minha opinião, isso é inseparável da curvatura muito mais geral dos Universais capitalísticos em direção a uma entropia das equivalências significacionais. Um mundo em que tudo se equivale, em que todas as singularidades existenciais são metodologicamente desvalorizadas; em que, sobretudo, os afetos da contingência, relativos à velhice, à doença, à loucura, à morte, são esvaziados de seus estigmas existenciais para remeterem somente a parâmetros abstratos, geridos por uma rede de serviços de assistência e cuidados – tudo banhado em uma atmosfera inefável, mas onipresente de angústia e culpabilidade
inconsciente36. Desencanto Weberiano, correlativo, lembremo-nos dele, uma desvalorização, uma “anti-magia sacramental”37, ou de um reencantamento em todas as direções das produções de subjetividade pela despolarização dos Universos referência coletivos, com respeito aos valores da equivalência generalizada e em benefício de uma desmultiplicação de capturas de valor existenciais? Ainda que a inflação atual das lógicas informáticas e comunicacionais dificilmente parece ir nessa direção, me parece que nosso futuro depende, em qualquer nível que o consideremos, da promoção de práticas analíticas sociais e estéticas preparando a chegada desta era pós-media.
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NOTAS
- Freud, Sigmund. L’Interpretation des rêves. Op. cit. p.460. (A frase que Guattari se refere é a citação de Salomon Stricker’s Studien uber das Bewusstsein. N.T. espanhol)
- Spinoza, B. de. Ouvres complétes, Paris: Gallimard, La Pléiade, 1954. Edição bras. Obra completa (I, II, III e IV): São Paulo: Editora Perspectiva, 2014.
- No que diz respeito à alienação esquizofrênica, a psiquiatria fenomenológica advoga por um diagnóstico baseado n vivido precoce (Rümke), o sentimento (Binswanger), e a intuição (Weitbrecht). Tellenbach conceitua um “diagnóstico atmosférico” como constatação da dissonância entre as atmosferas próprias dos dois “parceiros” [no diagnóstico], sem acumular sintomas (Cf. Arthur Tatossian, Phénoménologie des psychoses. Paris: Masson, 1980.
- “Todas as conexões verbais sintáticas, para se tornarem conexões composicionais e realizar a forma no objeto artístico, devem ser permeadas pela unidade do sentimento único de uma atividade de vinculação que é direcionada para a própria unidade, vínculos objetivos e semânticos de caráter cognitivo ou ético, na unidade do sentimento de tensão e englobamento, formador do englobamento exterior do conteúdo teórico e ético.” Mikhail Bakhtin ‘O Problema do Conteúdo’, Esthétique et théorie du roman. Paris: Gallimard, 1978. Publicado em inglês em Art and Answerability. Ed. Michael Holquist and Vadim Liapunov. Trad.. de Vadim Liapunov and Kenneth Brostrom. Austin: University of Texas Press [escrito entre 1919–1924, publicado entre 1974-1979] [N.T.]
- Fonciére também pode ser traduzido por ‘da terra’ [N.T.
- Ibid., pág. 81.
- Ibid., pág. 74.
- Ibid., pág. 71 e 74.
- Ibid., pág. 74.
- Guattari aplica neste texto uma série de conceitos que derivam daquilo que ele chamou de 4 funtores, centrais para o desenvolvimento da obra Cartografias Esquizoanalíticas. “Um esquema de quatro partes que consiste em Fluxos, Phylums, Universos [de referência] e Territórios [existenciais],” como nos explicam Young, Genosko e Watson. E seguem: “Em seu trabalho tardio, Guattari desenha dezenas de versões do esquema, geralmente organizadas em quadrantes que se assemelham aos de um gráfico x-y. [Os funtores] servem como uma ferramenta diagramática para as práticas relacionadas: esquizoanálise, cartografia esquizoanalítica, metamodelização e ecosofia. Guattari afirma que o esquema não é matemático e é não-representacional. Substitui estruturas, modelos ordinários das ciências sociais, binários e matemas lacanianos. Às vezes apresentado como um mapeamento do plano de consistência ou um agenciamento. (…) Fornece a base teórica para a “Caosmose” e também informa “O que é filosofia?” (Young, E. Genosko, G. e Watson, J. The Deleuze and Guattari Dictionary, Londres/Nova Iorque: Bloomsbury, 2013. p. 143.
- Obra de Richard Wagner, composição datada em 1869. [N.T.]
- “Aqui a virtualidade está correlacionada com uma desterritorialização fractal, que tem uma velocidade infinita em um plano temporal e geradora de desvios infinitesimais em um plano espacial.” (cf. Capítulo 3 do livro Cartografias Esquizoanalíticas, “O Ciclo de Assemblages”, [não traduzido integralmente ao português]).
- Citado por A. Tatossian, Phénoménologie des psychoses, op. cit. p.169.
- Ibid., p. 117.
- Ibid., p. 103.
- Musil, Robert. L’homme sans qualité (‘O homem sem qualidades’) Paris: Seuil, 1956, t. II, p. 400.
- Tatossian, Phénoménologie des psychoses, op. cit. p.186.
- Ver em meu livro capítulo ‘Ritornelos do tempo perdido’ em meu livro (ed. Bras.) O Inconsciente Maquínico: ensaios de esquizoanálize, Tradução de Constança Marconces César e Lucy Moreira César. Campinas: Papirus Editora, 1988.
- Hjelmslev, Louis. Ensaios novos (Nouveaux essais) op. cit. pp.74–5.
- Benjamin, Walter. Iluminações (Illuminations) Nova Iorque: Harcourt Brace and World, 1968.
- Barthes, Roland. Camera Lucida. Nova Iorque: Farrar Strauss and Giroux, 1981. Ed. brasileira: A Câmara clara: nota sobre fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
- Girard, Christian. Architecture et concepts nomades. Brussels: Mardaga, 1986. Philippe Boudon (em La ville de Richelieu, editado por AREA, 28, Rua Barbet-de-Joy 75.007, Paris,1972) distinguiu vinte tipos de escalas consideradas como espaço de referência para o pensamento arquitetônico: técnicas, funcionais, simbólicas formais, simbólica dimensional de modelo, semântica, sociocultural, de vizinhança, de visibilidade, ótica, parcelária, geográfica, de extensão, cartográfica, de representação, geométrica, dos níveis de concepção, humana, global e econômica. Podemos conceber outras classificações e outros reagrupamentos, mas o respeito à heterogeneidade dos pontos de vista é o que importa aqui.
- Guattari usa HLM e não habitação social no texto original em francês. Significa literalmente “habitation à loyer moderé”, habitação de aluguel barato. [N.T. e do tradutor para o espanhol]
- Veja o capítulo ‘A etologia dos ritornelos sonoros, visuais e comportamentais no mundo animal’ em O Inconsciente Maquínico op. cit. (p. 110-144).
- Marcel Granet mostra a complementaridade entre os ritornelos sonoros de demarcação social na China antiga e os afetos, ou virtudes, como ele os chama, nascidos de nomes, formas escritas, emblemas, etc: “a virtude específica de uma razão imponente é expressa numa dança cantada (com um motivo animal ou vegetal). Sem dúvida, é apropriado ver uma espécie de emblema musical em nomes de família antigos – um emblema que é traduzido graficamente em uma espécie de forma heráldica – toda a eficácia da dança e dos cantos habitam tanto o emblema gráfico quanto o emblema vocal”. Em: Granet, Marcel. La pensée chinoise, Paris, Albin Michel, 1950, p. 50-1. (col. “Evolutión de l’humanité”).
- Isso só é verdade para os ícones cuja fabricação foi espalhada entre os séculos XI e XVI, centrada em uma misteriosa e quase sacramental facialidade. Posteriormente, ícones foram sobrecarregados com detalhes de roupas, personae multiplicado e receberam revestimentos de metal (oklad). Cf. O artigo ‘Icone’ de Jean Blankoff and Olivier Clement em Encyclopaedia Universalis IX, 1984, p.739–742.
- Guattari apresenta uma definição de grupo-sujeito e grupo assujeitado em ‘Transversalidade’, Publicado em Revolução molecular, Pulsações Políticas do Desejo. São Paulo: Brasiliense, 1987. [N.T]
- ‘La coupure leniniste’ (A Ruptura Leninista) em Guattari Psychanalyse et transversalité. Essais d’analyse institutionnelle, prefácio de Gilles Deleuze, Paris: Maspéro, 1974. p.183–94.
- Mandelbrot, Benoît. Les objets fractals. (2a. ed.) Paris: Flammarion, 1984; ‘Les fractals’ em Encyclopaedia Universalis [não especificada], p. 319–323.
- Bakhtin, Michael. Esthétique et théorie du roman. Paris: Gallimard, 1978. p. 73-74.
- Ibid., p. 47.
- Ilya Prigogine and Isabelle Stengers La Nouvelle alliance, Paris: Gallimard, 1979. Em inglês: Order out of Chaos. Man’s Dialogue with Nature. New York: Bantam, 1984; Ivan Ekelard. Le calcul, l’imprévu op. cit. Seuil, Paris, 1984 (col. “Science ouverte”).
- Homotetia: Deslocamento devido à multiplicação da distância de um ponto qualquer do espaço a um ponto fixo, colocando-o sobre a reta estabelecida por esses dois pontos (Michaelis). [N.T.]
- Guattari escreve à côté de ses pompes et de ses oeuvres, fazendo um jogo com a expressão marcher à côté de ses pompes (caminhar ao lado de seus sapatos). A tradução em espanhol para o texto de Guattari sugere que essa expressão se refere à pessoas distraídas, e/ou “fora de si”. [N.T. E do tradutor para o espanhol]
- Emmanuel Levinas: “Eu penso, por outro lado, que o acesso à face (ou à facialidade) é diretamente ético”. (Éthique et infini, Paris, 1985, p. 89). “A significação do rosto não é uma espécie cuja indicação o simbolismo seria o gênero.” (Heidegger ou la question du Dieu, livro coletivo, Paris: Grasset, 1981, p. 243). “A responsabilidade para com o próximo não é uma acidente que suceda ao sujeito, mas precede ele na Essência, o compromisso para com o outro.” (Humanisme de l’autre homme, Paris: Livre de Poche, 1987).
- Cf. Delumeau, Jean. Le péché et la peur. La culpabilisation en Occident. Paris, Fayard, 1983.
- Max Weber associou a idéia do desencanto (Entzau berung) do mundo a uma desvalorização (Entwertung) dos sacramentos como mensagem de salvação e com perda da magia sacramental, consecutiva ao crescimento da subjetividade capitalista. Max Weber. L’éthique protestante el le esprit du capitalisme. Paris: Edition Plan, 1967.
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FÉLIX GUATTARI foi filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês praticamente autodidata. É autor de inúmeras obras, algumas delas em colaboração com Gilles Deleuze. Entre os conceitos e noções criadas por Guattari estão: Transversalidade, Ecosofia, Caosmose, Desterritorialização, Ritornelo, Singularidade, Produção de Subjetividade, Capitalismo Mundial Integrado, etc. Teorizou também sobre a questão da transdisciplinaridade, do desejo, das instituições e foi, juntamente com Deleuze, o mais profundo crítico da Psicanálise.
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Publicado em Cartografias Esquizoanalíticas (1989), Paris: Éditions Galilée ….e… GIS (Gesto, Imagem e Som), Revista de Antropologia (USP), São Paulo, v. 4, n.1, p. 383-397, Out. 2019. Tradução: Cristina Thorstenberg Ribas, Revisão: Suzana Calô.