Mesa redonda realizada em 1978 no SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE PSICANÁLISE, GRUPOS E INSTITUIÇÕES, Rio de Janeiro/RJ. Com a participação de Félix Guattari, Gregorio Baremblitt, Armando Bauleo.
Félix Guattari: Eu não queria, eu realmente recusei o título desta mesa porque acreditei que se a gente circunscreve muito os problemas relativos ao desejo no campo social, a uma questão como a da sexualidade e a uma técnica particular, creio que se perde o essencial desse problema. Aí, podemos limitar-nos a uma tecnologia como a sexologia, a psicoterapia familiar, a de grupo, enfim dezenas de procedimentos desse tipo que proliferam na atualidade. Se, com Gilles Deleuze, nós tomamos o partido de nunca falar da sexualidade e sempre falar do desejo é porque nós consideramos que os problemas da vida, da criação, nunca são redutíveis a qualquer coisa que é diretamente subjacente ao corpo, a funções fisiológicas, de reprodução, de comunicação interpessoal. O desejo engaja tanto em elementos que ultrapassam o indivíduo, as pessoas e os sujeitos por todos os lados no campo social e político, assim como também as estruturas e complexos universais estereotipados que supostamente os determinam, segundo os psicanalistas. No campo social, o desejo remete a singularidades complexas que não podem ser etiquetadas e que estão aquém tanto das estruturas como de seus efeitos.
A evolução das sociedades capitalistas e outras assimiláveis, sociedades burocráticas, sempre tendem a desenvolver, a colocar o acento sobre dimensões cada vez mais amplas que transbordam ao indivíduo por toda parte; de um lado visam a generalizações que vão até à mundialização da produção, da divisão internacional do trabalho, das representações na mídia, e isso faz com que os indivíduos fiquem presos nas engrenagens de uma gigantesca máquina econômica repressiva. Mas essas mesmas coiseidades, cada vez mais cavam no interior do indivíduo, tendem a assujeitar o indivíduo aquém das relações interpessoais e intersubjetivas, tendem a modelar sua maneira de perceber o mundo, sua maneira de perceber sua referência ao tempo, sua referência ao outro, ao corpo, às imagens etc. Logo, há uma espécie de expansionismo, de imperialismo do capitalismo que vai em dois sentidos contrários e complementares, sempre a mais peso social, mais controle social, mais repressão se articulando com formações de poder cada vez mais amplas. Hoje não importa qualquer problema local numa cidade, numa aldeia ou num país; nada pode encontrar solução para as questões mais importantes senão à escala internacional. Dá na mesma que se trate de uma escolha tecnológica, quer seja uma escolha política; existem sistemas de arbitragem sucessivas que não incluem forçosamente as capitais que se chamarão Brasília, Nova York, Moscou, mas que remeterão a toda uma rede, digamos, para esquematizar, que faz pensar, por exemplo, nas multinacionais, não sendo os únicos agentes neste caso. De outro lado, o imperialismo capitalista se desenvolveu por meio de um controle social cada vez mais íntimo, não somente sobre a vida social, a vida no bairro, as relações grupais, os círculos restritos; ele pretende reger o modo de relação do casal, a família, o modo de educação das crianças, senão o modo de relação consigo mesmo, com os sonhos, com as disciplinas.
A psicanálise, na origem, ensaiou instituir um discurso para abordar problemas que até então estavam colocados sob a responsabilidade da moral consuetudinária, a Igreja, o poder de Estado, todos os sistemas de leis que, de longa data, fixam a regulação do comportamento dos indivíduos nas suas relações sexuais, nas suas entradas nas diferentes idades, nas suas posições relativas a diferentes estratos e classes sociais. O freudismo apareceu a partir do momento em que havia uma falência generalizada desses sistemas normativos – no momento em que era ressentido em particular o caráter irrisório, insuficiente, das categorias psiquiátricas e psicológicas. Ele deixou, portanto, um campo imenso descoberto à exploração, mas tornou a fechar esse campo brutalmente, tornou a clausurá-lo muito mais inteligentemente que a psiquiatria e mais eficazmente que as brutais técnicas readaptativas behavioristas, ou que os diferentes métodos de assujeitamento que puderam existir naquela época. A psicanálise introduziu uma técnica refinada de controle social. No início, ele fez sua experimentação sobre os histéricos, as pessoas que eram qualificadas de neuróticas, não qualquer histérico ou qualquer obsessivo, mas os neuróticos ligados a um meio social bem particular, aos grupos de elite. O primeiro esquizoparanoico que foi analisado por Freud, não diretamente, mas sobre a base de um texto das suas memórias, foi o presidente Schreber, que era um alto personagem da justiça. Depois, pouco a pouco, esta experimentação, quase que verdadeiramente microscópica, tanto mais que passava pela psicanálise de Freud sobre ele mesmo, progressivamente ganhou terreno: a psicanálise, que se interditava de ser aplicada a psicóticos e a crianças, conquistou o terreno dos enfermos mentais graves, dos infantes, dos autistas e progressivamente a psicanálise se interessou pelos fenômenos de massa, a civilização etc.
Essa doutrina, que no começo era maldita, condenada, escandalosa, torna-se hoje uma espécie de referência, tão universal quanto uma religião, no domínio da psicologia, das ciências humanas e mais além. Essa prática confidencial, esse ritual de divã, para pessoas extraordinárias, ricas, continua com sua versão primitiva, com algumas transformações, em direção das elites; mas progressivamente procurou e soube se adaptar para fazer seu trabalho de normalização mediante outros métodos em camadas muito mais amplas da sociedade. Tanto é assim que existe atualmente um tipo de psicanálise de massas que passa pelos equipamentos coletivos, os dispensários, os psicoterapeutas de crianças nas escolas (falo da Europa, não conheço precisamente a situação aqui no Brasil), mas eu penso que, desde esse ponto de vista, pode-se pensar que a evolução de um país como este pode ir nessa mesma direção, dado que já encontramos essa psicanálise nas revistas, na televisão, no rádio, em toda parte. Essa ciência confidencial e maldita tornou-se uma referência mais ou menos geral – em todo caso, nos nossos países europeus.
Então, por que esses êxitos? O que contribuiu para isso? Manifestamente a psicanálise não pode ser considerada uma técnica médica de simples cura. Os psicanalistas chegaram, com bom senso, a reconhecer que seu objetivo não podia ser o de curar e foram obrigados a admitir, na medida em que perceberam que, precisamente, não curam as pessoas, mas que, de uma maneira muito sutil, as adaptam; as adaptam, em primeiro lugar, à situação psicanalítica. As primeiras análises duravam umas poucas semanas ou alguns meses; hoje, as análises didáticas, as análises de ricos ou as psicanálises de gabinete duram anos. Na França, não é excepcional ver psicanálises que duram dez, quinze anos e ver um paciente passar de uma análise que durou vários anos para outro analista.
Isso se trata de algo muito diferente de uma cura, se trata de uma coisa que tende a modelar certo tipo de relação com a palavra, com o outro, com o campo social. A meu ver, trata-se, sempre nesse nível, de um novo tipo de formação de poder, de um novo tipo de subjetividade que tem por objetivo permitir aos indivíduos passar através dos sistemas de implicação social; a pessoa que está em análise, aos poucos, pega a maestria de sua relação com a linguagem, a sua relação com a fala mais íntima, mais interiorizada. Pouco a pouco, a pessoa em análise toma uma distância crítica em relação ao discurso cotidiano do meio, seu discurso se descola do discurso dos outros na sociedade. Isso não quer dizer que fica surdo, mas quer dizer que seu investimento não está aí onde era tomado pela paixão, pela cólera, por todas as espécies de movimento de desejo. Progressivamente, seu desejo se desvia, se desterritorializa, e isso é uma perspectiva que funciona frequentemente; isso permite à pessoa que está em análise ter uma atitude muito mais distante: ela pensa que é mais objetiva em relação aos problemas sociais. Dito de outra maneira, o ideal de subjetividade capitalista é o de desapaixonar as relações com o meio microssocial, com o outro, com os problemas políticos etc.
Isto que eu exponho, a meu ver, é totalmente verificável caso se fale com as pessoas que estiveram em análise, ao menos certo tempo, porque isso que eu descrevo geralmente não acontece antes de cinco, seis a oito meses de análise. Então, pode-se dizer, por que não, no fundo, os sistemas de normalização, de controle social, sempre existiram, porque não é necessário empregar uma técnica ou outra para aceder a este tipo de ceticismo, esse modo de controle de si, das paixões, e, em particular, em todos os meios dirigentes, sempre existiu um tipo de formação rigorosa, notadamente, sobre as crianças que estavam destinadas a ocupar responsabilidades nos poderes dominantes. Logo, colocando-se na perspectiva do poder da burguesia, não há nenhuma crítica a se fazer à psicanálise. Ela é um modo de disciplinarização, um modo de formatação de um novo tipo de quadro, de chefe, e talvez finalmente muito melhor adaptado, mais eficaz que a antiga educação que consistia em montar a cavalo, em aprender a fazer esgrima e coisas do gênero.
Vejam só, eis que essa perspectiva, essa fascinação pela análise e também pelos psicanalistas (eu citarei de passagem), não visa somente a formação de elites, também visa ao controle de outras camadas sociais, visa trabalhar no mesmo sentido que as outras técnicas de recuperação e adaptação dos trabalhadores, das mulheres, das crianças ao sistema social dominante de maneira que as conversações que nós temos sobre a definição de inconsciente, sobre a posição do analista, a questão da transferência, os temas da psicanálise, todas essas coisas que parecem ser joias de capela, assuntos de especialistas, de fato a meu ver colocam em jogo um imenso problema que não se refere somente às pessoas que se preocupam com a psicologia da higiene mental.
Esse problema é o de saber se o capitalismo, após ter devastado todos os modos de relações do mundo tradicional, todas as economias clássicas, depois de ter destruído os antigos tipos de família, a forma das relações pré-capitalistas arcaicas de ligar-se ao trabalho e ao tempo, aos antigos ritmos de vida, aos antigos modos de falar, toda uma série de cerimoniais, de comunicações, após haver reduzido os indivíduos a não ser mais que engrenagens, concentrados sobre o valor monetário de seus atos… consegue que eles correspondam ao mercado capitalista, se tornem cifras em relação ao equivalente geral do capitalismo. Todos esses indivíduos que são fascinados pela sua promoção. Cada signo de promoção lhes dá acesso a tal tipo de alojamento, a tal tipo de relação social, a tal tipo de prestígio. Após ter destruído todo um modo de vida, o capitalismo vai conseguir construir outro modo de família, de relação homem-mulher, de relação pai-filho, de outro tipo de relação com o tempo. Porque, nesse caso, é mister admitir que todos os projetos de transformação social, de revolução histórica, serão consideravelmente ameaçados. Nós temos visto imensas revoluções que derrubaram as antigas relações de produção, que expropriaram o poder da burguesia, que reencontraram quase que automaticamente, inconscientemente, mecanicamente, os antigos valores relativos à alienação da mulher, relativos a um certo tipo de família centrada no poder do homem, um certo tipo de alienação da criança, de hierarquização alienante da burocracia, uma motivação absurda para o trabalho que consiste em obrigar a trabalhar segundo finalidades que não correspondem a nenhuma sorte de interesses vitais, nem para a sociedade, nem para o indivíduo.
Logo, o que está em jogo é o seguinte: se existe uma possibilidade de salvar a espécie humana, pois creio que é assim, simplesmente, que devo dizer as coisas, de impedi-la de ir mais rápido em direção a essa espécie de fim catastrófico para o qual ela se encaminha, dessa espécie de destruição do meio ambiente, dessa sorte de conflitos mortais que estalam em todas as direções, às vezes, com objetivos rigorosamente absurdos, que não avançam em nada a situação dos oprimidos. Se a gente quer reorganizar a produção para os objetivos que permitam as pessoas no mínimo de viver, ser feliz… se a gente quer criar uma sociedade que permita criar verdadeiros – isso que chamei, em outras exposições – valores de desejos e, bem, eu creio que é necessário tomar consciência, o mais profundamente possível, de que uma drástica reorientação das lutas deve ser traçada. Não somente as lutas sociais devem ser levadas em grande escala pelos partidos, pelos sindicatos, pelos movimentos revolucionários, os movimentos de luta de toda natureza correspondentes às relações de força. Mas também essa mesma luta, essa mesma revolução, deve ser levada a todos os degraus das situações locais, aparentemente minúsculas.
Eu acredito que aquilo que conta é a construção de sistemas alternativos, microscópicos, por exemplo, de encarregar-se das pessoas que hoje são enviadas aos hospitais psiquiátricos, das pessoas que, na saída do hospital psiquiátrico, não encontram alojamento, nem trabalho, das pessoas que têm necessidade simplesmente de falar, porque é importante falar de certas coisas e impossível sair de certas situações dramáticas da vida se não há alguém, ou vários, para escutar ou para propor alguma outra coisa. E é pavoroso ter que pagar para falar com alguém nessas situações.
Bom, mesmo na escala mais microscópica, de próximo a próximo, alguma coisa pode ser construída, esse é o sentido de que tratamos de fazer na Europa com a rede alternativa à psiquiatria. Essa é a orientação de diferentes tentativas que são precárias, que não trazem soluções definitivas, mas que são, talvez, os verdadeiros lugares onde os problemas podem ser colocados, não forçosamente contra os especialistas, mas sempre que eles aceitem falar nesses lugares, explicar que é que eles fazem efetivamente, como eles se desembaraçam das suas incertezas.
Eu desconfio fundamentalmente das sociedades psicanalíticas dos psicanalistas e de seus status nas sociedades; isso que digo não é nenhuma condenação a priori; é provável que uma reconversão seja possível, sobretudo em países como esse, onde os problemas estão colocados com uma acuidade, numa dimensão extraordinária. Eu desconfio do caráter elitista de uma reunião como esta aqui, porque eu tenho a impressão que isso que nós falamos, a linguagem que usamos, concerne talvez mais a todo o resto do Brasil que não esteja hoje aqui, toda a massa das pessoas que não têm terra, que estão numa miséria pavorosa, esses jovens que não veem nenhuma perspectiva para sua existência, todas essas pessoas que estão nos hospitais psiquiátricos etc.
Então, eu faço votos para que, após estes encontros, haja, por diferentes meios que caibam, (acerca dos quais eu não tenho nenhum tipo de ideias), possibilidades de que tudo o que foi dito aqui seja retomado, incluindo os níveis mais simples. Isso não quer dizer que estou propondo uma solução acabada, mas que, pouco a pouco, ouvindo uma orientação que nos inclua a nós mesmos, possamos adquirir certa confiança para inverter a orientação que nos é dada pela universidade, pela mídia e, assim, acharemos (estou convencido) verdadeiras soluções na medida em que inventemos novas práticas.
Gregorio Baremblitt: Esta brilhante abertura feita por Félix Guattari vai me permitir ser menos redundante e basear-me nas definições que nos acaba de transmitir. Há em português um belo refrão que diz: “O melhor é inimigo do bom”. Quando se lê ou se ouve textos e discursos de crítica da função reprodutiva da psicanálise, aprende-se realmente muito, tanto de críticos que eu chamaria de moderados, como Robert Castel, quanto de radicais, como seria o discurso de Guattari. Esses estudos nos permitem, trabalhadores da saúde mental com formação psicanalítica (entre muitas outras), compartilhar uma profunda suspeita acerca da teoria, o método, a técnica, a clínica e a inscrição doutrinária dessa disciplina. Dão-se voltas até que se chega à conclusão de que definitivamente é assim: a psicanálise é uma maquinaria social que cumpre fielmente, homogeneamente, ou não desigualmente, a função de reprodutor do modo de produção (dito num sentido muito amplo). É muito possível que seja assim, mas na América Latina, quando se estuda quais são os sistemas psicológicos (ou não) dos quais se valem os equipamentos de Estado para criar um doutrinamento reprodutivo dos valores da vida cotidiana, encontramos, pelo menos do ponto de vista estatístico, uma absoluta insignificância da psicanálise. Justamente pelo chamado subdesenvolvimento dos instrumentos de controle disciplinários não são os mais “modernos”. Tanto como prática assistencial, pela capacidade de tratamento de pacientes que um psicanalista individual pode atender, ou ainda na análise grupal, ou na pseudoanálise institucional de inspiração psicanalítica, a quantidade de usuários é bastante limitada (veja se o levantamento de dados feito por Eduardo Mascarenhas neste Simpósio). Por outra parte, a inscrição do discurso psicanalítico como maneira de fundamentar as mensagens dos meios massivos de difusão, é muito superficial e bastante pouco frequente. Então, não se demora em advertir que a psicologia norte-americana, através de diferentes correntes de tipo multitudinário, é a que realmente funciona como aparelhos de produção de subjetivância na América Latina. Então, quais são essas correntes? Hoje mesmo comentava em outro curso que temos: as terapias comportamentalistas, a gestalt-terapia, o neo-reichismo bioenergético, a terapia centrada no cliente de Rogers, o holismo, o transacionalismo, a teoria da comunicação, a sistêmica, a engenharia humana, o coaching, a qualidade total, a psicanálise existencial, a logoterapia, a terapia fenomenológica etc. Esses discursos e técnicas psicológicas não só são psicanalíticos, mas frequentemente são francamente antipsicanalíticos e seu conjunto hegemoniza toda a manipulação da subjetividade neste subcontinente. As pequenas elites universitárias, as pequenas burguesias assalariadas, funcionários ou comerciantes, e/ou a baixa grande burguesia que se psicanaliza mesmo é um número insignificante da população. É apenas talvez o 0,1% dos habitantes em geral. Quiçá na Argentina essa influência seja mais pronunciada.
Se aprofundarmos e ampliarmos um pouco mais a análise, as verdadeiras maquinarias de imobilização política de massas no Brasil são as religiões (com a única exceção da Teologia da Libertação). O Brasil é o país com mais católicos no mundo, além de evangélicos, pentecostais, protestantes, hebraicos, budistas, hinduístas, islâmicos e uma enorme quantidade de seitas esdrúxulas, sem falar dos complexos e contraditórios cultos afros.
Aqui, na América Latina, a psicanálise não é a parafernália predominante usada pelo conservadorismo, os fascismos e o neoliberalismo para o que poderíamos chamar pitorescamente de a “produção dos homens”, a fabricação de certos ideais do ego etc. A ética (a rigor, a moral) do discurso psicanalítico (geralmente cética, pessimista, resignada, dilatória, pseudolibertária etc) é contraditória demais. Apesar de ter inspirado movimentos subversivos em alguns países e momentos, os marcou com um individualismo que lhe é muito característico.
Mas o problema é que, como já foi observado claramente neste Simpósio, a produção de demanda de serviços psicológicos é colossal no país, e a formação dos trabalhadores da saúde mental pode ser tanto unilateral e fanática como saturada, confusa e dispersa.
Então, quando se quer planejar no Brasil estratégias de luta democrática que tenham certas prioridades, a saúde, em geral, e a saúde mental, em especial, são temas (entre outros) de imperiosa necessidade. Por certo que as micropolíticas populares autogestionadas sobre o particular são o fundo da questão, e é óbvio que seus agentes as protagonizarão de acordo com suas respectivas singularidades. Cada trabalhador da saúde mental tem uma, e tenho a convicção de que não se pode incitá-los a esquecer tudo o que aprenderam para a cada hora atuar com quem está do lado e fazer uma “boa ação” coloquial microrrevolucionária full-time completamente inespecífica. Isso lembra um pouco o slogan de “amar ao próximo” que inspira tanta desconfiança com a psicanálise. A tessitura microrrevolucionária não descarta certo planejamento de estratégias, táticas e técnicas, objetivos próprios de cada âmbito, hierarquizados e sempre provisoriamente calculados, segundo um estudo autoanalítico de conjuntura.
Mas, por outra parte, temos que considerar que os trabalhadores da saúde mental também são cidadãos, também têm direito a uma sobrevivência digna.
Como seu nome indica, eles têm que trabalhar para viver e, dificilmente, possam fazê-lo (embora desejável) fora da condição de profissionais liberais autônomos ou de assalariados. Diversas estatísticas mostram que mais da metade dos formados, nas diversas especialidades da saúde mental, não consegue trabalho ou, se consegue, frequentemente, é mal paga e exerce em condições de tarefa insalubre.
As organizações, sociedades científicas etc, aquelas em que esses agentes tentam dificultosamente ingressar, mais que lugares de aperfeiçoamento da formação são equipamentos para aquisição de prestígio, conexões profissionais, encaminhamento de pacientes etc. Dificilmente essas instituições, organizações, estabelecimentos têm importantes polos instituintes que propiciem uma associação, formação e prestação de serviços variavelmente democrática, solidária e popular. Muitos têm um setor de “clínica social” gratuita, que costuma ser uma engrenagem a mais para prender os candidatos nas supervisões. Não obstante, isso não justifica preconizar e convencer os trabalhadores da saúde mental (como afirma um ilustre participante desse Simpósio) de que toda instituição, organização ou estabelecimento cujo nome começa com “Psi” são reacionários.
Se assim fosse, se todo consultório, hospital, clínica, escola, consultoria ou gabinete psicopedagógico é exclusivamente repressivo e reprodutivo, então devemos aconselhar os trabalhadores da saúde mental: “Deixem tudo isso” e como dizia Hamlet a Ofélia: “Vai para um convento”, ou vai como voluntário trabalhar com os indígenas na Amazônia, ou com os Sem-Terra, ou como eu mesmo fiz nos meus bons tempos, com psicoterapia dos companheiros da luta armada urbana em bares e botecos. Lamentavelmente, a enorme maioria não seguiria esses “conselhos”. Essa maioria gastou cinco anos da sua vida e de seu salário ou patrimônio para formar-se. Não tem família opulenta, talvez queira reunir-se para formar outros tipos de associações autogestionárias ou cogestionárias, nas redes de saúde do terceiro setor, atender a usuários com poucos recursos etc. Cabe dizer para todos que deixem essas “malditas profissões e especialidades” e se dediquem ao microapostolado de dialogar com quem precise e não possa pagar nada? É uma sugestão corretíssima e emocionante, sem dúvida, não é para psicanalistas “abstinentes”, mas o mais provável é que não seja seguida. Um amigo me dizia que as emoções revolucionárias no capitalismo duram 15 minutos, que é o tempo que se leva para sair daqui e chegar em casa. Por outro lado, se eu lhes menciono que nas próximas crises cada vez existirão menos consultórios particulares, empregos em corporações ou em postos de Estado, se lhes explico que a única forma que têm de sobreviver dignamente é formar grêmios e sindicatos fortes, unir-se, integrar uma organização conjunta com todos os servidores da saúde mental – e ainda com todos os outros – para defender suas reivindicações trabalhistas, que têm que formar, por exemplo, cooperativas de ensino, de pesquisa ou de prestação de serviços, até pode acontecer que muitos o façam.
Acontece que cada conjuntura é única e irrepetível, singular, isso me ensinaram Deleuze e Guattari, e que em cada encruzilhada (entre outras constatações) é preciso definir qual é o inimigo principal. Creio que aqui no Brasil, neste momento, na frente da saúde mental e na da cultura, o inimigo principal não é a psicanálise. E isso sou eu quem lhes diz, sendo que saí estrepitosamente de uma associação psicanalítica filial da Associação Internacional, por razões fundamentalmente ético- -políticas, para poder desenvolver outro tipo de concepção e exercício possíveis em nome (ou não) da psicanálise. Não sei se encontramos ou não essas alternativas; inclusive, hoje, tenho sérias dúvidas sobre se é recomendável ou não, seguindo a crítica radical que fazia Guattari. Mas vi alguns resultados interessantes a esse respeito, entretanto tratava de inventar outras opções. Sem dúvida, considero que aqui o inimigo principal não é a psicanálise, apesar de que há três associações psicanalíticas afiliadas à Associação Internacional da Psicanálise, terrivelmente reacionárias. Mas é justamente por serem fechadas como são que se tornam “protetoras” do ponto de vista macropolítico. Mas a capacidade real que elas têm de mobilizar e aceitar profissionais ativos, ou pelo menos funcionar como promessa de ingresso, é minúscula. A massa de trabalhadores da saúde mental se orienta em outras direções, ligadas à medicalização de todo tipo de sofrimento humano. Então essas opções podem vir a ser o inimigo principal, assim nossa finalidade tem que ser a luta contra os aspectos mais alienantes e repressivos dessas outras direções. Mas, a partir de que teoria lutar? Desde as melhores, e uma delas me parece ser a que acaba de expor Félix Guattari. Há anos que estudo essa teoria e cada vez a compartilho e tento utilizá-la mais consistentemente. Microrrevoluções em todos os lados e, ao mesmo tempo, pequenas revoluções todos os dias. Em cada instante. Mas tenho, conjunturalmente, outra concepção estratégica de como aplicar essa teoria, porque acontece que quando se propõem objetivos muito puristas e exclusivos, acaba-se por não fazer nada. A experiência de muitos, e a minha, me mostrou que, muitas vezes, o único que se pode produzir são agenciamentos, teorias e procedimentos aparentemente próximos ao que “todo o mundo” parece saber “que estão aí”. Se me permitem uma metáfora, diria que essa ideia lembra aquele lema clássico que recomendava “Partir da ideologia espontânea do proletariado” ou do segmento social que se procura conscientizar e ajudar a organizar-se.
Estou convencido de que, pelo menos aqui, na América Latina, temos que trabalhar, manifesta ou clandestinamente, em dispositivos criados ad hoc, ou “infiltrados” em todas as entidades do Estado, das corporações e da sociedade civil em geral. Esperamos que chegue um tempo em que tudo o que usamos como “camuflagem” poderá ser criticamente abandonado.
O que não podemos tampouco propiciar fazer, nestes tempos sombrios, é o suicídio da luta armada. Não porque não se justifique, mas porque a perdemos. Então, me parece que temos que propugnar um tipo de organização ainda cogestionária, que simplesmente vai aproveitando os resquícios, as linhas de fuga, os desejos das formações anteriores. São os trabalhadores da saúde mental, dos hospitais, dos dispensários, das clínicas, das escolas, fábricas, de todos os lados, os que organizados sindical e profissionalmente, respeitado seu lugar na sociedade civil, que podem produzir algum efeito que os desalienem e que os ajudem na transformação do sistema segundo sua qualificação intelectual, profissional e científica. Tudo isso pode ser feito, ao mesmo tempo, micro e macropoliticamente, sem descartar outros territórios nos que se pode militar de maneira molecular, mas conspícua.
Acredito que as máquinas e equipamentos de Estado não são máquinas monolíticas; elas têm áreas de permeabilidade das que temos que analisar cuidadosamente as fendas e polos funcionantes que podem ser intensificados. Todo hospital, escola, associação de bairro, clube esportivo etc pode ser um lugar de luta, de “infiltração”, como em algumas das suas obras dizem Deleuze e Guattari. Mas a “infiltração”, embora não possa seguir linhas duras, deve seguir também as linhas mais flexíveis que não estão ausentes nas figuras institucionais da profissionalização e da especialização. Como muitos autores já sustentaram, até uma sessão psicanalítica pode ser um lugar de “conspiração” ou de confrontação. Podem-se fazer simulacros de psicanálise e deflagrar linhas de fuga do desejo, desmolarizando pequenos dispositivos produtivos e desejantes nesse âmbito. O mesmo se pode fazer, com muitos limites, dentro dos grupos psicanalíticos, sem apologizar uma violência universal e simultânea. E quando alguém condena o discurso e certas práticas aparentemente psicanalíticas, é preciso que considere se o panorama político repressivo os justifica. Mudar um hospital psiquiátrico (que “cura” com reclusão e com eletrochoque) e torná-lo um lugar acolhedor para a proteção transitória de quem precisa: será que deixa de ser um espaço fechado? É possível, mas, ao mesmo tempo, pode ser um reduto salvo de reunião, um espaço de mútua conscientização, com psicoterapia familiar, grupal, assembléias etc. dentro de um panorama terrorista de Estado. Essa foi a experiência do grande institucionalista Tosquelles.
Concluiria dizendo, provisoriamente, que provavelmente haja uma diferença estratégica e tática em nossas concepções. Mas eu tenho a impressão de que aqui, neste momento, para a América Latina, precisa-se de um espectro amplo de opções. Fui testemunha da imensa importância (negativa) que a direita dá a uma modernização e humanização dos hospitais psiquiátricos. Para a ditadura militar argentina, um processo desse tipo, digamos, progressista, levado adiante no célebre hospital da localidade de Lanús (província de Buenos Aires), teve tanta importância que foi vítima de um feroz ataque com tanques e helicópteros. Por quê? Porque esse hospital, apesar de estar imbuído de uma ideologia psicanalítica, comunicacional e sistêmica, era de fato mais democrático (e muito mais “infiltrável”) que os hospitais clássicos, que eram, simplesmente, um quartel a mais. Isso fica demonstrado porque, pelo menos aqui, nas ditaduras da América Latina, a repressão cai sempre sobre iniciativas que, em outra parte, talvez seriam integralmente modernos equipamentos de biocontrole. Então, encerraria estas palavras dizendo que do ponto de vista cultural e político, a psicanálise cumpre (apenas por enquanto) uma função ou bem insignificante ou bem aproveitável para sua infiltração por linhas conjunturalmente subversivas.
Agora, do ponto de vista de seu porvir econômico, a psicanálise tradicional não serve para nada, porque tem a ver fundamentalmente com a renda dos analisados, o que não tem nenhum vínculo relevante com modificações profundas no nível das instâncias econômicas, se aceita-se chamar assim ao processo de produção de bens materiais. Porque a psicanálise “aplicada” incide muito pouco sobre a produção propriamente econômica, e não é praticamente utilizável, por exemplo, em nível do incremento da extração de mais-valia absoluta. O capitalismo industrial, por exemplo, produziu doutrinas e procedimentos técnicos que deram origem a vários ramos da Psicologia Social estrutural- -funcionalista, ou comportamentalista, que nada têm de psicanalíticas, e que são bastante eficazes no sentido da produção de mais-valia, e do controle.
Terminaria dizendo, então que, se posso dar alguma mensagem, se posso fazer uma exortação, como diz Guattari (exortação que é para nós mesmos também), é que tudo quanto façamos no sentido hoje proposto o façamos juntos.
Armando Bauleo: Como não é bom que seja de outra maneira, gostaria de colocar minha intervenção em certa contraposição as de Guattari e de Gregorio, aos quais escutei com agrado e atenção. Pareceu-me que nas exposições deles, ademais de outra série de contribuições, havia certa tendência à exortação. Em alguns momentos houve uma inclinação a dizer para a audiência “o que fazer”. Não há dúvida que os companheiros que estão aqui vieram para trocar ideias e experiências e também para aprender de mestres muito reconhecidos. Mas eu me perguntava se é preciso insistir tanto em “O que fazer” (como diria Lênin). Acaso os companheiros são crianças? Eles não têm sua própria experiência? Não sabem acaso qual é a função da crítica e da autocrítica? Embora essa mesa tenha derivado um pouco longe de seu tema principal (a sexualidade como Instituição), creio que é preciso ter muito em conta que, qualquer que seja a estratégia política que se tome, nesse caso de tipo profissional, para ser atuante, ela terá que estar animada por um desejo muito forte de autonomia, por uma quase voluptuosidade instituinte. Embora esplêndida, a fala de meus colegas de mesa pode ser recebida como uma advertência para o futuro, como uma prevenção de cuidado com um possível “porvir de uma desilusão”, ou como uma “desilusão no porvir”.
Claro que cada um dos expositores fala da sua experiência, e da maneira coerente com a que até agora conseguiu processá-la e o faz com a melhor das intenções. Não obstante, essa antecipação, se me permitem observar, apela muito à memória, tanto a dos expositores (que de um modo ou outro) contam o que lhes aconteceu… ou o que não lhes aconteceu), como requer também a memória dos membros da plateia que, como dizia Gregorio, correm o perigo dos poucos quinze minutos de lembrança do que ouviram prazerosa e empolgadamente. Mas o problema é que, dadas as características de um dispositivo como este das mesas redondas, o público não tem muita oportunidade de relatar o que pensa, sente e faz, como o faz e que gostaria de poder aprender a fazer a respeito dentro de uma linha transformadora. Então me parece difícil que alguém amanhã, voltando para suas ocupações habituais (o consultório, o hospital, a escola etc.) consiga lembrar o que lhe foi sugerido com a apropriação que sua singularidade o requer. Daqui uma semana, um mês, é claro (como foi dito), o comparecimento a este belo Simpósio constará nos seus respectivos currículos (ao qual tem direito), mas não sei se vocês se dariam a oportunidade de criar dispositivos coletivos para seguir trabalhando grupalmente o que recolheram aqui. Por outra parte, pelo menos a mim, me dá muito prazer dialogar para a mudança. Pode ser muito erótico. Se concordarmos em prescindir da psicanálise, por ser um equipamento de controle social, tudo faz pensar que temos que substituí-lo por outras conversas. Se não, podemos cair em algum jogo perverso de prazer unilateral.
Isso que digo pode parecer um pouco provocativo, mas provocar não é um recurso retórico ofensivo. Não se pode provocar? Nossa sociedade proíbe provocar neste tipo de evento? Se nós, os da mesa, nos empenhamos em antecipar para vocês todas as alternativas possíveis, se não fica bem claro que estamos definindo-as desde nosso modelo de ruptura (seja bem-sucedido ou fracassado), desde nosso estilo de investimento de desejo e de vida, corremos o risco de propor- -nos, igualmente aos psicanalistas, como padrões muito bem teoricamente dissimulados de identificação. Eu sei que vocês têm participado bastante perguntando, questionando e dialogando com os expositores, mas peço licença para sugerir que conversem muito conosco e também muito entre vocês.
No nosso tipo de sociedade é muito difícil ser sincero. Mas seria bom tentar.
Eu teria muito prazer se vocês me contassem, por exemplo, o que vivem no seu trabalho. Vocês têm medo? Vocês acreditam que nós não temos?
A mim me parece que um presente no qual realizemos a “realista ilusão” de um bom encontro é a melhor prevenção possível contra o futuro de uma desilusão. Muito obrigado.
FONTE
Texto publicado em UM ENCONTRO INESQUECÍVEL. PRIMEIRO SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE PSICANÁLISE, GRUPOS E INSTITUIÇÕES. Rio de Janeiro, Brasil, outubro de 1978. Editora: Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG); Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições (IBRAPSI) – Belo Horizonte: CRP-MG, 2023, 650p. Org. Gregorio Baremblitt.
