O SIGNIFICADO DAS CONSIGNAS DO POUM (1937) – F. TOSQUELLES

Tradução: Anderson Santos.

Para vencer a guerra no front, é necessário

ter uma retaguarda bem organizada.

 

CAMPONESES: Estruturemos sobre bases sólidas

a revolução nos campos.[2]

O observador de política que não conhece a luta de classes nem, mais concretamente, a marxista, ignora quase obsessiva­mente a grande diferença de critérios que surgem da falta de coerência das consignas centrais do poum [Partido Operário de Unificação Marxista] com a maioria das organizações que lutam conosco na guerra antifascista.

O interesse particular de uma organização que não per­tencia à nossa fez que essas diferenças ganhassem relevância extraordinária a fim de dar ao “público” a interpretação ina­dequada e inautêntica aos olhos da classe trabalhadora de que teríamos sido coniventes com a Quinta Coluna[3] ou mesmo com o general Franco. Os trabalhadores têm memória e senso comum, e, naturalmente, não demos importância a essa afir­mação gratuita nem pudemos acreditar que o “poumismo” fosse uma organização “de caráter sistematicamente oposi­cionista ou de uma desorientação inata”. O senso comum e a memória fizeram entender que características individuais se diluem na organização que, como a nossa, permanece regida por uma verdadeira democracia interna.

Os trabalhadores conhecem bem nossos militantes mais destacados e sabem como a história destes não deixa dúvidas sobre a firmeza de seu ideal revolucionário. Os trabalhadores puderam ver, no exemplo dos líderes de nossa juventude, a melhor garantia do antifascismo.

A Plaça de la Universitat, em Barcelona, o El Molino, em frente a Huesca, a Catedral de Sigüenza e recentemente Pozuelo são os túmulos em chamas, eternamente vivos, de nossos companheiros que durante a vida foram membros do Comitê Central da heroica juventude dos comunistas ibéricos do poum.

QUAL É O SIGNIFICADO DAS CONSIGNAS “OPOSICIONISTAS” DO POUM?

A consigna central de um partido marxista deve ser dedu­zida fundamentalmente da interpretação histórica baseada na luta de classes, a qual não pode se basear em estatísticas atuais, mas na própria evolução. Por outro lado, as consignas devem ser transformadas, mediante ação, numa arma eficaz a serviço de uma das classes em luta, o proletariado.

A GUERRA ENTRE OS OPRESSORES E OS OPRIMIDOS, ÀS VEZES ABERTA, ÀS VEZES DISSIMULADA, É UMA GUERRA QUE SEMPRE TERMINA NA TRANSFORMAÇÃO REVOLUCIONÁRIA DA SOCIEDADE, OU NA DESTRUIÇÃO DAS DUAS CLASSES EM LUTA – Manifesto Comunista.

O triunfo do proletariado não é fatal nem historicamente ine­vitável; depende da capacidade de “saber vencer” a burguesia. O partido é o cérebro, o general dessa batalha; as consignas do Partido são as armas indispensáveis para a vitória.

OS CAMPONESES QUEREM AÇÃO E NÃO PALAVRAS!

Eles exigem posicionamentos claros, concretos e precisos e uma

ação enérgica nas questões pertinentes aos campos.

O que espera o Governo para resolver o problema social da terra?

*

Em 19 de julho[4], o exército “espanhol” se rebelou armado contra a “legalidade republicana”.

No dia 19 de julho, o proletariado organizado venceu o exército faccioso nas ruas das principais capitais.

Desde 19 de julho, a luta continua nos fronts de combate.

No entanto, o dia 19 de julho não foi o começo do mundo. O 19 de julho tinha diante de si um calendário de anos cujas folhas estavam ligadas não apenas pela continuidade como também pela causalidade histórica. A compreensão do 19 de julho será possível se encontrarmos esse elo causal.

Um herói desconhecido passou dois meses imerso na lem­brança do 19 de julho, extasiado diante do gesto do proleta­riado, cantou “divinamente” essa epopeia; mas nosso herói não compreendeu o dia 19 de julho.

O 19 de julho não é uma sobreposição de dias; o 19 de julho é uma consequência.

***

A Espanha não realizou sua revolução democrática burguesa nem no século XVIII nem no século XIX.

O segredo do sucesso consiste em chegar a tempo.

A Espanha permanece transformada numa semicolônia anglo-francesa; da economia fundamentalmente agrária à indústria em crescimento fraco e parasita sob as costas cor­cundas do Estado feudal agrário. A exportação de produtos agrícolas implica a importação de produtos manufaturados; a permanência do Estado feudal agrário equivale à concorrên­cia estrangeira com a indústria nacional pelo mercado interno.

O desenvolvimento da burguesia industrial implica a rup­tura violenta das bases econômicas do Estado feudal agrário e também a realização da revolução burguesa.

O retorno do exército “colonial” após a insurreição nacio­nalista americana e a guerra de libertação contra os franceses criaram um exército hipertrofiado.

A presença do proletariado organizado castra as possibi­lidades agressivas da burguesia “revolucionária”. A burguesia passou imperceptivelmente da revolução para a traição por meio de hesitações e indecisões.

Todas as tentativas de revolução burguesa na Espanha foram frustradas por essas duas constatações.

***

A economia mundial constantemente expropria tudo, resul­tando na falência dos mercados agrícolas estrangeiros; a crise agrária leva a uma mudança política, com os proprietários de terras e os exportadores se tornando republicanos. A Repú­blica seria uma nova fase da revolução burguesa liderada pela mesma burguesia com a colaboração de seus inimigos naturais, os agrários.

Consequência: fracasso.

O segredo do sucesso consiste em chegar a tempo.

Nosso ex-amigo Miravilles estudou os pressupostos da República.

A POLÍTICA É A ECONOMIA CONCENTRADA – Lenin.

Poderíamos deduzir facilmente que, embora o léxico tenha mudado, a orientação social permaneceu idêntica à da monar­quia; a fria eloquência dos discursos demonstrou a incapa­cidade da burguesia de levar a cabo a revolução democrática até às suas últimas consequências.

Características da República:

CAPITALISMO RAQUÍTICO E ESTADO POLÍCIAL.

***

O fracasso da revolução democrática significa que a revolução social está longe?

A revolução democrática não está concluída.

Falar de revolução socialista é ou um erro objetivo e idea­lizado ou uma aventura blanquista.

Assim falariam os marxistas que discordam de nós, se quisessem fazer-nos uma crítica séria como fazemos em relação a eles. Foi assim que o menchevique Kamenev falou quando criticou Lênin.

A revolução democrática “está concluída” no sentido da tomada do poder pela burguesia. O beato Azana acabou pas­sando o poder para Gil-Robles e aos Lerroux. A reconquista de novembro terminou com a insurreição militar.

A classe trabalhadora se opôs a Gil-Robles no Outubro Vermelho.

A classe trabalhadora se opôs aos militares com sua revolução.

O êxito de uma ação se confirma no final. A estrutura econômica da monarquia foi objetivamente quebrada apenas pelo proletariado armado.

CAMPONESES!

Fortalecendo os sindicatos agrícolas e criando

cooperativas, vocês vão acabar com os intermediários.

A UNIÃO DE TODOS OS CAMPONESES É A MELHOR GARANTIA.

A sindicalização única obrigatória

é a melhor forma de alcançar essa união.

Todos os camponeses sindicalizados –

Apenas um Sindicato Agrícola em cada vilarejo.

O proletariado criou comitês nas fábricas, comitês distritais, comitês camponeses. Essa não é uma dualidade de poder equivalente à situação de 1917 na Rússia!

Devemos acabar com a revolução democrática bur­guesa e levá-la às suas últimas consequências. Quem deve realizar essa tarefa? As organizações pequeno-burguesas já conhecidas pelo fracasso ou as novas organizações operárias que surgiram na luta?

OS LÍDERES DA PEQUENA BURGUESIA “DEVEM” ENSINAR

A CONFIANÇA AO POVO. COM A BURGUESIA, OS PROLETÁRIOS

DEVEM APRENDER A DESCONFIAR – Lenin.

Os comitês camponeses são organizações pequeno-burguesas?

Estaremos a colocar os camponeses de volta na direção da revolução?

Queremos ou dissemos apenas uma vez que vamos implantar o socialismo por milagre, instantaneamente, ou por decreto?

Sabemos que é necessário utilizar a capacidade e a energia revolucionária do camponês pobre para a liquidação do feu­dalismo e para a revolução proletária; mas não deixaremos a liderança dessa revolução nas mãos da pequena burguesia, que é incapaz, entre outras razões, de aproveitar essa energia revolucionária. O próprio Stálin publicou um pequeno texto, “Le Léninisme: théorie et pratique”,[5] no qual demonstrou que é inútil discutir que país específico reunia as condições objetivas para uma revolução operária.

A EXISTÊNCIA DE ÁREAS INSUFICIENTEMENTE

DESENVOLVIDAS DO PONTO DE VISTA INDUSTRIAL NÃO É UM

OBSTÁCULO INSUPERÁVEL PARA A REVOLUÇÃO, PORQUE É

O SISTEMA COMO UM TODO QUE DEVE ESTAR MADURO – Stalin.

É a mesma posição leninista segundo a qual o capitalismo não se rompe onde sua evolução é mais completa, mas onde é mais fraca, precisamente o local onde se acumulam as contradições econômicas, onde há mais revoluções a serem realizadas, revoluções burguesas e proletárias.

Todavia, entendamos que o que se rompe é o capitalismo, e a revolução que emerge é a do proletariado. Lênin, em 1905, pensava que era possível colaborar com um governo de coali­zão revolucionária com a pequena burguesia.6 Ele apresentou a revolução democrática e a revolução social como se fossem duas etapas da mesma revolução.

A revolução democrática burguesa deve ser utilizada para passar imediatamente à revolução proletária

– Stalin, citando Lenin.

Em termos obviamente marxistas, portanto, permanece:

A era das revoluções democráticas está ultrapassada.

Os povos que não a fizeram a tempo não podem realizá-las nas mesmas condições das revoluções puramente democráticas.

Somente o proletariado aliado aos camponeses pobres pode realizar a revolução democrática e transformá-la numa revolução socialista, e essa transformação é fundamental­mente necessária.

A Espanha, em particular, demonstrou a impossibilidade de a burguesia fazer a própria revolução.

O fato de não termos feito a revolução democrática não é uma desvantagem para considerar a revolução socialista. Muitas vezes isso é uma vantagem.

As revoluções de nosso tempo (a crise capitalista mun­dial) são aspectos parciais, rupturas parciais na cadeia capitalista internacional.

***

O 19 de Julho foi possível depois do fracasso da revolução democrática, e os trabalhadores não assumiram a liderança da revolução e nem conseguiram transformá-la.

O 19 de Julho não significa apenas uma barreira ao avanço da revolução. O fascismo – uma forma política do capitalismo monopolista – é uma contrarrevolução diante de uma revolução fracassada.

A Espanha não tinha um partido fascista eficaz, mas tinha um exército hipertrofiado. Maurín apontou esta possibilidade em seus livros, em seus comícios e no Parlamento.

Seu último discurso foi uma acusação à incompetência republicana: “o que VOCÊS estão esperando para reprimir o fascismo?”, disse ele alguns dias antes no Parlamento.

A decisão do proletariado de esmagar o exército faccioso implica uma retificação; o proletariado posiciona-se à frente da revolução para saltar rapidamente a fase democrática e alcançar o socialismo.

As consignas do POUM não perdem de vista essa interpretação. Todas derivam desta convicção baseada na dialética materialista e na experiência da luta de classes e das revoluções internacionais.

Cada consigna tende a tornar possível este objetivo concreto: o socialismo.

A SOCIALIZAÇÃO DA TERRA

É A MELHOR GARANTIA DA REVOLUÇÃO.

 

Socializar a terra não significa trabalhá-la coletivamente.

Socializar a terra significa entregá-la a quem a trabalha,

seja individual, seja coletivamente.


[1] Este texto, publicado em La Torxa, revista do poum, em 30 de janeiro de 1937, foi encontrado nos Arquivos de Amsterdã por Miro, cineasta de Barcelona.

Pode-se notar que, em maio desse mesmo ano, a Central Telefónica de Barcelona, que estava nas mãos dos anarquistas e dos poumistas, foi atacada e tomada pela polícia, empurrada e acompanhada por membros do Partido Comunista Catalão Espanhol. Esse grave incidente serviu de pretexto para a proibição do poum e para a repressão, por vezes sangrenta, contra seus líderes e militantes (incluindo o assassinato de Andreu Nin, jul­gamento…), proibição que ocorreu alguns meses depois. [Nota de Antoine Viader, tradutor do texto para o francês, doravante a. v.]

[2] N. T.: Publicado originalmente em: François Tosquelles, “Sentit de les consignes del poum”, La Torxa: Portantveu del poum i de les jci de Reus, n. 4, 30 jan. 1937, p. 3.

[3] N. T.: A Quinta Coluna tornou-se o emblema da traição na guerra. Existe um filme de Hitchcock com esse título. Na verdade, essa expressão se deve ao general Mola, um dos quatro generais que lideraram o golpe contra a República Espanhola em julho de 1936. Ele afirmou, no início da guerra, que eles tomariam Madri, não com a ajuda das quatro colunas militares armadas, mas com a quinta coluna, ou seja, com a ajuda dos fascistas de Madri que, de suas janelas, atiravam nas costas dos milicianos republicanos. Esse episódio pode ser encontrado no filme L’Espoir [A Esperança], de André Malraux. Mola foi vítima de um acidente de avião e Madri só foi conquistada pelos fascistas no final da guerra.

[4] Na verdade, foi no dia anterior, dia 18, que este golpe de Estado começou. No dia 19 ocorreu a reação dos trabalhadores contra os militares (nota de Antoine Viader).

[5] N. T.: Em português foi traduzido por: Sobre os fundamentos do leninismo [Conferências pronunciadas na Universidade Sverdlov à Pro­moção Leninista].


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Uma Política da Loucura e outros textos – François Tosquelles, organizado por Anderson Santos, 2024, eds Ubu e Sobinfluencia.

 

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UMA POLÍTICA DA LOUCURA, François Tosquelles

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