Tradução: Anderson Santos.
Para vencer a guerra no front, é necessário
ter uma retaguarda bem organizada.
CAMPONESES: Estruturemos sobre bases sólidas
a revolução nos campos.[2]
O observador de política que não conhece a luta de classes nem, mais concretamente, a marxista, ignora quase obsessivamente a grande diferença de critérios que surgem da falta de coerência das consignas centrais do poum [Partido Operário de Unificação Marxista] com a maioria das organizações que lutam conosco na guerra antifascista.
O interesse particular de uma organização que não pertencia à nossa fez que essas diferenças ganhassem relevância extraordinária a fim de dar ao “público” a interpretação inadequada e inautêntica aos olhos da classe trabalhadora de que teríamos sido coniventes com a Quinta Coluna[3] ou mesmo com o general Franco. Os trabalhadores têm memória e senso comum, e, naturalmente, não demos importância a essa afirmação gratuita nem pudemos acreditar que o “poumismo” fosse uma organização “de caráter sistematicamente oposicionista ou de uma desorientação inata”. O senso comum e a memória fizeram entender que características individuais se diluem na organização que, como a nossa, permanece regida por uma verdadeira democracia interna.
Os trabalhadores conhecem bem nossos militantes mais destacados e sabem como a história destes não deixa dúvidas sobre a firmeza de seu ideal revolucionário. Os trabalhadores puderam ver, no exemplo dos líderes de nossa juventude, a melhor garantia do antifascismo.
A Plaça de la Universitat, em Barcelona, o El Molino, em frente a Huesca, a Catedral de Sigüenza e recentemente Pozuelo são os túmulos em chamas, eternamente vivos, de nossos companheiros que durante a vida foram membros do Comitê Central da heroica juventude dos comunistas ibéricos do poum.
QUAL É O SIGNIFICADO DAS CONSIGNAS “OPOSICIONISTAS” DO POUM?
A consigna central de um partido marxista deve ser deduzida fundamentalmente da interpretação histórica baseada na luta de classes, a qual não pode se basear em estatísticas atuais, mas na própria evolução. Por outro lado, as consignas devem ser transformadas, mediante ação, numa arma eficaz a serviço de uma das classes em luta, o proletariado.
A GUERRA ENTRE OS OPRESSORES E OS OPRIMIDOS, ÀS VEZES ABERTA, ÀS VEZES DISSIMULADA, É UMA GUERRA QUE SEMPRE TERMINA NA TRANSFORMAÇÃO REVOLUCIONÁRIA DA SOCIEDADE, OU NA DESTRUIÇÃO DAS DUAS CLASSES EM LUTA – Manifesto Comunista.
O triunfo do proletariado não é fatal nem historicamente inevitável; depende da capacidade de “saber vencer” a burguesia. O partido é o cérebro, o general dessa batalha; as consignas do Partido são as armas indispensáveis para a vitória.
OS CAMPONESES QUEREM AÇÃO E NÃO PALAVRAS!
Eles exigem posicionamentos claros, concretos e precisos e uma
ação enérgica nas questões pertinentes aos campos.
O que espera o Governo para resolver o problema social da terra?
*
Em 19 de julho[4], o exército “espanhol” se rebelou armado contra a “legalidade republicana”.
No dia 19 de julho, o proletariado organizado venceu o exército faccioso nas ruas das principais capitais.
Desde 19 de julho, a luta continua nos fronts de combate.
No entanto, o dia 19 de julho não foi o começo do mundo. O 19 de julho tinha diante de si um calendário de anos cujas folhas estavam ligadas não apenas pela continuidade como também pela causalidade histórica. A compreensão do 19 de julho será possível se encontrarmos esse elo causal.
Um herói desconhecido passou dois meses imerso na lembrança do 19 de julho, extasiado diante do gesto do proletariado, cantou “divinamente” essa epopeia; mas nosso herói não compreendeu o dia 19 de julho.
O 19 de julho não é uma sobreposição de dias; o 19 de julho é uma consequência.
***
A Espanha não realizou sua revolução democrática burguesa nem no século XVIII nem no século XIX.
O segredo do sucesso consiste em chegar a tempo.
A Espanha permanece transformada numa semicolônia anglo-francesa; da economia fundamentalmente agrária à indústria em crescimento fraco e parasita sob as costas corcundas do Estado feudal agrário. A exportação de produtos agrícolas implica a importação de produtos manufaturados; a permanência do Estado feudal agrário equivale à concorrência estrangeira com a indústria nacional pelo mercado interno.
O desenvolvimento da burguesia industrial implica a ruptura violenta das bases econômicas do Estado feudal agrário e também a realização da revolução burguesa.
O retorno do exército “colonial” após a insurreição nacionalista americana e a guerra de libertação contra os franceses criaram um exército hipertrofiado.
A presença do proletariado organizado castra as possibilidades agressivas da burguesia “revolucionária”. A burguesia passou imperceptivelmente da revolução para a traição por meio de hesitações e indecisões.
Todas as tentativas de revolução burguesa na Espanha foram frustradas por essas duas constatações.
***
A economia mundial constantemente expropria tudo, resultando na falência dos mercados agrícolas estrangeiros; a crise agrária leva a uma mudança política, com os proprietários de terras e os exportadores se tornando republicanos. A República seria uma nova fase da revolução burguesa liderada pela mesma burguesia com a colaboração de seus inimigos naturais, os agrários.
Consequência: fracasso.
O segredo do sucesso consiste em chegar a tempo.
Nosso ex-amigo Miravilles estudou os pressupostos da República.
A POLÍTICA É A ECONOMIA CONCENTRADA – Lenin.
Poderíamos deduzir facilmente que, embora o léxico tenha mudado, a orientação social permaneceu idêntica à da monarquia; a fria eloquência dos discursos demonstrou a incapacidade da burguesia de levar a cabo a revolução democrática até às suas últimas consequências.
Características da República:
CAPITALISMO RAQUÍTICO E ESTADO POLÍCIAL.
***
O fracasso da revolução democrática significa que a revolução social está longe?
A revolução democrática não está concluída.
Falar de revolução socialista é ou um erro objetivo e idealizado ou uma aventura blanquista.
Assim falariam os marxistas que discordam de nós, se quisessem fazer-nos uma crítica séria como fazemos em relação a eles. Foi assim que o menchevique Kamenev falou quando criticou Lênin.
A revolução democrática “está concluída” no sentido da tomada do poder pela burguesia. O beato Azana acabou passando o poder para Gil-Robles e aos Lerroux. A reconquista de novembro terminou com a insurreição militar.
A classe trabalhadora se opôs a Gil-Robles no Outubro Vermelho.
A classe trabalhadora se opôs aos militares com sua revolução.
O êxito de uma ação se confirma no final. A estrutura econômica da monarquia foi objetivamente quebrada apenas pelo proletariado armado.
CAMPONESES!
Fortalecendo os sindicatos agrícolas e criando
cooperativas, vocês vão acabar com os intermediários.
A UNIÃO DE TODOS OS CAMPONESES É A MELHOR GARANTIA.
A sindicalização única obrigatória
é a melhor forma de alcançar essa união.
Todos os camponeses sindicalizados –
Apenas um Sindicato Agrícola em cada vilarejo.
O proletariado criou comitês nas fábricas, comitês distritais, comitês camponeses. Essa não é uma dualidade de poder equivalente à situação de 1917 na Rússia!
Devemos acabar com a revolução democrática burguesa e levá-la às suas últimas consequências. Quem deve realizar essa tarefa? As organizações pequeno-burguesas já conhecidas pelo fracasso ou as novas organizações operárias que surgiram na luta?
OS LÍDERES DA PEQUENA BURGUESIA “DEVEM” ENSINAR
A CONFIANÇA AO POVO. COM A BURGUESIA, OS PROLETÁRIOS
DEVEM APRENDER A DESCONFIAR – Lenin.
Os comitês camponeses são organizações pequeno-burguesas?
Estaremos a colocar os camponeses de volta na direção da revolução?
Queremos ou dissemos apenas uma vez que vamos implantar o socialismo por milagre, instantaneamente, ou por decreto?
Sabemos que é necessário utilizar a capacidade e a energia revolucionária do camponês pobre para a liquidação do feudalismo e para a revolução proletária; mas não deixaremos a liderança dessa revolução nas mãos da pequena burguesia, que é incapaz, entre outras razões, de aproveitar essa energia revolucionária. O próprio Stálin publicou um pequeno texto, “Le Léninisme: théorie et pratique”,[5] no qual demonstrou que é inútil discutir que país específico reunia as condições objetivas para uma revolução operária.
A EXISTÊNCIA DE ÁREAS INSUFICIENTEMENTE
DESENVOLVIDAS DO PONTO DE VISTA INDUSTRIAL NÃO É UM
OBSTÁCULO INSUPERÁVEL PARA A REVOLUÇÃO, PORQUE É
O SISTEMA COMO UM TODO QUE DEVE ESTAR MADURO – Stalin.
É a mesma posição leninista segundo a qual o capitalismo não se rompe onde sua evolução é mais completa, mas onde é mais fraca, precisamente o local onde se acumulam as contradições econômicas, onde há mais revoluções a serem realizadas, revoluções burguesas e proletárias.
Todavia, entendamos que o que se rompe é o capitalismo, e a revolução que emerge é a do proletariado. Lênin, em 1905, pensava que era possível colaborar com um governo de coalizão revolucionária com a pequena burguesia.6 Ele apresentou a revolução democrática e a revolução social como se fossem duas etapas da mesma revolução.
A revolução democrática burguesa deve ser utilizada para passar imediatamente à revolução proletária
– Stalin, citando Lenin.
Em termos obviamente marxistas, portanto, permanece:
A era das revoluções democráticas está ultrapassada.
Os povos que não a fizeram a tempo não podem realizá-las nas mesmas condições das revoluções puramente democráticas.
Somente o proletariado aliado aos camponeses pobres pode realizar a revolução democrática e transformá-la numa revolução socialista, e essa transformação é fundamentalmente necessária.
A Espanha, em particular, demonstrou a impossibilidade de a burguesia fazer a própria revolução.
O fato de não termos feito a revolução democrática não é uma desvantagem para considerar a revolução socialista. Muitas vezes isso é uma vantagem.
As revoluções de nosso tempo (a crise capitalista mundial) são aspectos parciais, rupturas parciais na cadeia capitalista internacional.
***
O 19 de Julho foi possível depois do fracasso da revolução democrática, e os trabalhadores não assumiram a liderança da revolução e nem conseguiram transformá-la.
O 19 de Julho não significa apenas uma barreira ao avanço da revolução. O fascismo – uma forma política do capitalismo monopolista – é uma contrarrevolução diante de uma revolução fracassada.
A Espanha não tinha um partido fascista eficaz, mas tinha um exército hipertrofiado. Maurín apontou esta possibilidade em seus livros, em seus comícios e no Parlamento.
Seu último discurso foi uma acusação à incompetência republicana: “o que VOCÊS estão esperando para reprimir o fascismo?”, disse ele alguns dias antes no Parlamento.
A decisão do proletariado de esmagar o exército faccioso implica uma retificação; o proletariado posiciona-se à frente da revolução para saltar rapidamente a fase democrática e alcançar o socialismo.
As consignas do POUM não perdem de vista essa interpretação. Todas derivam desta convicção baseada na dialética materialista e na experiência da luta de classes e das revoluções internacionais.
Cada consigna tende a tornar possível este objetivo concreto: o socialismo.
A SOCIALIZAÇÃO DA TERRA
É A MELHOR GARANTIA DA REVOLUÇÃO.
Socializar a terra não significa trabalhá-la coletivamente.
Socializar a terra significa entregá-la a quem a trabalha,
seja individual, seja coletivamente.
[1] Este texto, publicado em La Torxa, revista do poum, em 30 de janeiro de 1937, foi encontrado nos Arquivos de Amsterdã por Miro, cineasta de Barcelona.
Pode-se notar que, em maio desse mesmo ano, a Central Telefónica de Barcelona, que estava nas mãos dos anarquistas e dos poumistas, foi atacada e tomada pela polícia, empurrada e acompanhada por membros do Partido Comunista Catalão Espanhol. Esse grave incidente serviu de pretexto para a proibição do poum e para a repressão, por vezes sangrenta, contra seus líderes e militantes (incluindo o assassinato de Andreu Nin, julgamento…), proibição que ocorreu alguns meses depois. [Nota de Antoine Viader, tradutor do texto para o francês, doravante a. v.]
[2] N. T.: Publicado originalmente em: François Tosquelles, “Sentit de les consignes del poum”, La Torxa: Portantveu del poum i de les jci de Reus, n. 4, 30 jan. 1937, p. 3.
[3] N. T.: A Quinta Coluna tornou-se o emblema da traição na guerra. Existe um filme de Hitchcock com esse título. Na verdade, essa expressão se deve ao general Mola, um dos quatro generais que lideraram o golpe contra a República Espanhola em julho de 1936. Ele afirmou, no início da guerra, que eles tomariam Madri, não com a ajuda das quatro colunas militares armadas, mas com a quinta coluna, ou seja, com a ajuda dos fascistas de Madri que, de suas janelas, atiravam nas costas dos milicianos republicanos. Esse episódio pode ser encontrado no filme L’Espoir [A Esperança], de André Malraux. Mola foi vítima de um acidente de avião e Madri só foi conquistada pelos fascistas no final da guerra.
[4] Na verdade, foi no dia anterior, dia 18, que este golpe de Estado começou. No dia 19 ocorreu a reação dos trabalhadores contra os militares (nota de Antoine Viader).
[5] N. T.: Em português foi traduzido por: Sobre os fundamentos do leninismo [Conferências pronunciadas na Universidade Sverdlov à Promoção Leninista].
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Uma Política da Loucura e outros textos – François Tosquelles, organizado por Anderson Santos, 2024, eds Ubu e Sobinfluencia.