CHEGUEI ATÉ A ENCONTRAR TRAVESTIS FELIZES – por Félix Guattari

As Mirabelles¹ experimentam uma nova forma de teatro militante. É um teatro que se desembaraça da linguagem explicativa, das sacadas cheias de boas intenções, por exemplo sobre a liberação dos homossexuais! Elas recorrem ao travesti, ao canto, à mímica, à dança, etc., não como meios de ilustração de um tema, para distrair o espírito do espectador, mas sim para perturbá-lo, para agitar dentro dele zonas turvas de desejo que ele sempre se recusou a explorar.

A questão não é mais a de saber se vamos desempenhar o papel feminino contra o masculino, ou o contrário, e sim fazer com que os corpos, todos os corpos, consigam livrar-se das representações e dos constrangimentos do “corpo social”, bem como das posturas, atitudes e comportamentos estereotipados, da “couraça” de que falava Wilhem Reich.

A alienação sexual, que é um dos fundamentos do capitalismo, implica na polarização do corpo social na masculinidade, enquanto que o corpo feminino se transforma em objeto de cobiça, em mercadoria, um território ao qual só se poderá ter acesso na culpabilidade e submetendo-se a todas as engrenagens do sistema (casamento, família, trabalho, etc…).

O desejo, por outro lado, que se vire como puder! De fato, ele desperta o corpo do homem para emigrar para os lados da mulher, ou, mais exatamente, para os lados de um “devir-mulher”. O essencial aqui não é o objeto visado mas sim o movimento de transformação. É este movimento, esta passagem que as Mirabelles nos ajudam a explorar: um homem que ama seu próprio corpo, um homem que ama o corpo de uma mulher ou de um outro homem está sempre, ele próprio, implicado secretamente num “devir feminino”. O que é totalmente diferente de uma identificação com a mulher, ou ainda com a mãe, como queriam fazer crer os psicanalistas. Trata-se muito mais de um devir outro trata-se de uma etapa para tornar-se diferente daquilo que o corpo social repressivo nos destinou autoritariamente.

Assim como os trabalhadores, apesar da exploração de sua força de trabalho, conseguem estabelecer um certo tipo de relação verdadeira com a realidade do mundo, também as mulheres, apesar da exploração sexual que elas sofrem, conseguem conservar um certo tipo de relação verdadeira com o desejo. E elas vivem esta relação essencialmente ao nível de seus corpos.

E se a burguesia não é nada, no plano econômico, sem o proletariado, os homens não são grande coisa no plano do corpo se eles não tiverem acesso a um tal “devir feminino”. Daí eles dependerem do corpo da mulher, ou da imagem de mulher que frequenta seus sonhos e seus próprios corpos ou que eles projetam no corpo de seu parceiro homossexual. Daí também a contradependência, à qual eles se esforçam em reduzir as mulheres ou os comportamentos de predador sexual que eles adotam em relação a elas.

A exploração econômica e a exploração sexual não podem ser dissociadas. A burguesia e as burocracias mantém seu poder justamente se apoiando na segregação dos sexos, das faixas etárias, das raças; na codificação das atitudes, na estratificação das castas. A reprodução pelos militantes destas mesmas segregações e estratificações (por exemplo, a recusa a encarar a alienação concreta das mulheres e das crianças, as atitudes possessivas e dominadoras, o respeito da separação burguesa entre vida privada e atividade pública, etc.) constitui uma das bases essenciais da esclerose atual do movimento operário e revolucionário.

Colocar-se à escuta dos verdadeiros desejos do povo implica sejamos capazes de nos colocarmos à escuta de nosso próprio desejo e daquele de nosso entorno mais imediato. Isto não significa absolutamente que se deva fazer passar as lutas do desejo à frente da luta de classes em grande escala. Pelo contrário, cada ponto de junção entre elas trará a estas últimas uma energia inimaginável.

É neste front, com muita modéstia e tenacidade, que trabalham as Mirabelles. Mas elas não querem absolutamente ser levadas a sério; elas lutam por algo mais importante do que a seriedade! (Sua palavra de ordem: “crise monetária e travesti, bananas e travesti”…) O que lhes interessa é contribuir para tirar o homossexualidade de seu gueto, mesmo que seja um gueto militante; o que interessa é que espetáculos como o seu possam tocar não somente a massa de homossexuais, mas também a massa de pessoas que estão mal por não assumirem seus desejos.


NOTA

  1. N. da Trad.: O grupo Mirabelles, de teatro musical integrado por travestis e formado nos anos sessenta, não só é contemporâneo do grupo brasileiro Dzi Croquettes, mas há uma grande semelhança entre os dois. Assunção da homossexualidade como mutação na micropolítica do desejo. Nem homens tornados mulheres, nem mulheres tornadas homens, nem um terceiro sexo, mais uma outra sexualidade dos homens e das mulheres. Strip-tease do corpo em mutação, asfixiados sob as plumas e paetés do show de travestis, fazendo ressoar o devir da política sexual de cada espectador. Efeito político de reconhecimento deste devir.

FONTE

GUATTARI, Félix. Revolução Molecular: pulsões políticas do desejo. Editora Brasilense: São Paulo, 1981. Tradução: Suely Rolnik.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima