1. INTRODUÇÃO
Nestes tempos brasileiros que, sem maiores precisões, se dizem marcados pela preocupação com a Reforma Psiquiátrica, volta à cena – ou mesmo vem a esta, visto ser inteiramente desconhecido de grande parte do público “psi” – o movimento da Psicoterapia Institucional e, com ele, os nomes de François Tosquelles, Jean Oury e Félix Guattari. Em artigo incluído em coletânea dedicada ao tema da reforma, Vertzman, Cavalcanti e Serpa Jr. (1992) se propõem a uma revisão histórico-conceitual do movimento, “prestes a se tornar cinquentão”, justificando-a mediante a alegação de que “uma instituição psiquiátrica, desde que adquira uma disposição capaz de acolher e escutar esse indivíduo com uma disposição psíquica particular [o psicótico], pode ser um legítimo lugar de tratamento e tecido de vida para determinados sujeitos” (pgs.17-18); na condição de que tal instituição – acrescentam – não seja confundida com o asilo.
Mais recentemente, a publicação, em revista brasileira, de uma entrevista concedida por F. Tosquelles a um grupo de pesquisadores e práticos provenientes da Itália, França e Suíça (Gallo e Constantino, 1994) reativa a polêmica entre os frequentemente apelidados, de forma demasiado despreocupada, “modelos” de reforma no campo da saúde mental – a Comunidade Terapêutica, a Psicoterapia Institucional, o Setor, a Psiquiatria Comunitária, a Desinstitucionalização, etc.. Na referida entrevista, recordando tempos ditos “difíceis” – ações psiquiátricas durante a Segunda Guerra numa França sob ocupação alemã -, Tosquelles comenta: “Mas a vida é difícil porque (..) precisamos jogar nossas histórias em postos ocupados por nossos irmãos inimigos” (pg. 90).
O presente artigo toma o comentário de Tosquelles como uma convocação. Pretende trazer à luz os vínculos entre a gênese teórico-conceitual e a gênese sócio-histórico da Psicoterapia Institucional, a fim de que esta possa surgir menos como modelo – então, ou ainda – utilizável no tratamento da psicose, do que como acontecimento forjado por redes de forças, ou circunstâncias. Dentre estas se situam, é evidente, componentes tais como a guerra e a psiquiatria, porém igualmente outros menos aparentes, quais sejam o marxismo, o anarquismo, comunismo e capitalismo, psicanálise, lacanismo, nacionalismos, práticas grupais, psicologias, epistemologias, partidos, etc… Neste sentido, o texto visa a contribuir para uma radical historicização dos regimes de saber, prática e subjetivação que configuram nosso presente, potencializando-nos enquanto atores de sua efetuação, ao invés de cristalizar-nos como meros consumidores-seguidores de seus efeitos.
2. REGIMES DE GUERRA
Logo que a guerra terminou, Lacan fez uma viagem a Londres. Estávamos ainda num regime de guerra quanto à verdade, aos exercícios de poder e às subjetivações: preservando as alianças e oposições estabelecidas na vigência do conflito, as experiências se repartiam em heroicas ou fascistas. Foi com o primeiro adjetivo que o então membro da SPP (Sociedade Psicanalítica de Paris) saudou, naquele momento, as práticas desenvolvidas pelos psiquiatras ingleses.
Ao contrário da França, onde os internos por razões psiquiátricas haviam vivido uma exacerbação da situação de país ocupado – cerca de 40.000 pacientes, abandonados à própria sorte, morreram de fome nos hospitais -, na Inglaterra os supostos incapazes tinham sido incorporados às tarefas de combate. Considerados úteis e organizados em subgrupos autônomos, definiam seus objetivos de trabalho sob a orientação de um terapeuta não autoritário, integrando-se, assim, ao cotidiano do país. (Roudinesco, 1988, pg.208)
Hoje parece surpreendente que um Lacan posteriormente tão crítico dos ideais adaptativos de uma psicanálise à moda anglo-saxã elogie não só este pragmatismo inglês de recuperação, como as terapias grupais de base analítica e psicodramática desenvolvidas, no pós-guerra, com ex-combatentes. A surpresa se atenua caso pensemos que a Psiquiatria Francesa ainda está dominada, naqueles anos, por concepções vinculadas à doutrina da hereditariedade-degenerescência, com todas as suas ressonâncias racistas e xenófobas. A experiência inglesa aparece, assim, como confirmadora das acerbas críticas que não somente Lacan como todo o grupo Évolution Psychiatrique¹ há muito dirigiam a este fascismo cientificista francês.
Num país ocupado e sob o governo colaboracionista de Vichy, os degenerados maiores – submetidos ao regime asilar e abandonados como a escória da escória – não teriam sido, decerto, objeto de atenções semelhantes às que lhes foram dedicadas pelos ingleses, mesmo que com intenções adaptativas. Não teriam sido, caso a guerra, ou melhor, as guerras não fizessem circular o estrangeiro, ocasionando encontros transformadores.
Já nos anos 30 desenrolavam-se combates entre ditaduras no modelo fascista e frentes populares de aspirações democráticas. O conflito, na Espanha², desenvolveu-se entre os republicanos e o exército franquista, apoiado por Mussolini e Hitler, cuja vitória custou aos ibéricos uma ditadura de mais de 30 anos. Em 1939, com os republicanos já vencidos, o jovem médico catalão François Tosquelles, fugindo das forças franquistas, atravessa clandestinamente o maciço dos Pirineus e penetra em território francês.
Tosquelles fora médico-residente no hospital Pere Mata e aluno do Professor Myra y López, que se dedicava na época à reformulação, em bases dinâmicas, da psiquiatria infantil, psicologia de grupo e pedagogia. Interessado em psicanálise e ativo militante de esquerda, Tosquelles não só se submetera a um tratamento analítico como se voltara ao estudo das obras de Freud, Marx, Reich, Politzer e da tese de Lacan (De la psychose paranoique dans ses rapports avec la personalité), publicada em 1932. Com tal combinação de influências, durante a Guerra da Espanha ousara uma reorganização dos serviços psiquiátricos sob uma inspiração comum: bases comunicativas, comunistas libertárias e comunitárias nas relações entre assistentes e assistidos. Observara curas espontâneas análogas às ocorridas posteriormente, durante a Guerra Mundial, na experiência inglesa: sentindo-se úteis na luta antifascista, os pacientes superavam até mesmo seus sintomas aparentemente mais graves.
Em território francês, Tosquelles aceita, em 1940, um cargo no Hospital Psiquiátrico de Saint Alban, em Lozère, que congrega entre 600 e 700 internos. Por coincidência, o estrangeiro ocupa os aposentos que tinham sido os de Artaud e ainda deixavam ver, nas paredes, os desenhos do poeta. Saint Alban está, naquele momento, sob a direção de um psiquiatra e resistente católico, Paul Balvet, cujos ideais são comunitário-cristãos. Em 1942, Balvet é substituído pelo psiquiatra comunista, membro do grupo Évolution Psychiatrique, Lucien Bonnaffé.
Tosquelles tendia ao anarquismo ou comunismo libertário e Bonnaffé, ao comunismo disciplinado de partido. O encontro de ambos, conjugado ao papel estratégico que Saint Alban desempenhava na Resistência, criou o solo para a primeira experiência francesa de Psicoterapia Institucional³. Nos anos de guerra, mesclam-se em Saint Alban tanto pacientes e terapeutas, como uma série de resistentes comunistas, cristãos progressistas, anarquistas, etc… Entre eles, os surrealistas Paul Élluard e Georges Sadoul, que leem os textos produzidos pelos pacientes e organizam edições clandestinas. Este coletivo passa à ação, que vai desde a saída dos pacientes pelos campos em busca de comida – fazendo de Saint Alban um dos poucos lugares de sobrevivência para internados – à organização de dispositivos terapêuticos grupais como teatro, jornais, ateliês, clubes, etc…
Acerca da especificidade da experiência francesa de Psicoterapia Institucional, comenta Roudinesco:
“… visto que ela se expande num país onde a ocupação alemã é vivida como um “grande enclausuramento”, ela não veicula, pelo menos a princípio, os mesmos ideais adaptativos de sua homóloga (…) Enquanto na Inglaterra a reformulação se produz primeiramente no interior de um exército combatente, ela se dá, na França, fora do contexto institucional vigente e num quadro em que o heroísmo dos maquis desempenha um papel preponderante” (1988, pg.210)
A Psicoterapia Institucional na França obedece, portanto, à lógica de alianças característica da guerra e imediato pós-guerra: ela é implantada pelos resistentes. Entretanto, as características de subjugamento que marcam tanto terapeutas – fugidos de uma Espanha sob ocupação militar, fugidos de uma França ocupada que caça seus defensores – como pacientes – enclausurados por uma razão que se afirma na exclusão de seus desarrazoados – já nos fazem pensar nas primeiras ressonâncias da lógica anti-colonialística , que terá seu ápice após meados dos anos 50, obrigando ao re-arranjo das divisões doutrinárias, políticas e éticas.
Antes disso, todavia, outras lógicas irão vigorar. Durante os anos 40, as propostas micro-sociológicas de Saint Alban, embora proliferem, perdem parte de seu caráter radicalmente contestador. Ao invés de uma radicalização da legitimidade do discurso da loucura, assiste-se tanto à tecnologização da psicoterapia institucional _ via técnicas de grupo que se somam aos dólares, no Plano Marshall, para reorganizar a indústria francesa4 – como à violenta entrada, na psiquiatria, de novos tratamentos: insulinoterapia, eletrochoque e eletronarcose, a princípio; neurolépticos, tranquilizantes e antidepressivos, nos anos 50. Ao mesmo tempo, a lógica da Guerra Fria rompe a aliança estabelecida entre diferentes tendências renovadoras, com seus variados referenciais teóricos e políticos. Se, dentre estas alianças, aquela estabelecida entre psicanalistas e marxistas parecia a mais forte, será exatamente ela a mais abalada.
3. GUERRA FRIA
Na União Soviética, após a revolução de 1917, travara-se uma batalha entre os partidários da articulação Freud-Marx – primeira experiência mundial do que pode ser apelidado freudo-marxismo – e os anti-freudianos, vencida, antes dos anos 30, por estes últimos. Um pavlovismo desvinculado das bases neurofisiológicas e tornado psicologia oficial de Estado tornou-se, a partir de então, onipresente. Na França, com exceção dos trabalhos de G. Politzer nos anos 20 e 30, oscilando de um interesse crítico à condenação radical da Psicanálise5, o debate sobre o tema praticamente não existiu.
Em 1934, Jdanov – secretário de ideologia do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) – sustentara a tese de ser “otimista” a literatura soviética, visto que expressiva de uma classe ascendente, o proletariado. Mas já em 1946, para o mesmo secretário, esta literatura não expressa somente uma classe, mas a nação em sua totalidade, supondo-se concluída a luta entre a vanguarda operária e os restos de uma burguesia em declínio. Sendo assim, faltaria apenas liquidar alguns poucos inimigos infiltrados, ou seja, tudo aquilo que fosse estranho, no plano cultural e científico, à ideologia soviética, identificada aos ideais realizados do proletariado. A cruzada começa com a reatualização oficial da teoria das duas ciências, elaborada no início do século por Bogdanov. Segundo este, a ciência é burguesa ou proletária, de acordo com sua natureza, isto é, suas origens, métodos e finalidades. A classificação se aplica às ciências naturais, às ciências sociais e, inclusive, à lógica e à matemática. Nas mãos de Jdanov, este bogdanovismo rejuvenescido serve à condenação ou eliminação das infiltrações do passado na ideologia do povo soviético.
Neste contexto, o agrônomo russo Trofime Desinovich Lyssenko havia publicado, em 1948, um relatório onde resumia suas teses, em desenvolvimento desde os anos 30, e baseadas nos trabalhos de outro agrônomo, Mitchurin, especializado em enxertos e pretensamente capaz de fazê-los entre pereiras e macieiras, ou mesmo de transformar trigais de outono em trigais de primavera, readaptando as sementes a novos solos. Segundo Lyssenko, o darwinismo deve ser rejeitado porque, embora possua componentes materialistas – admitindo, via seleção natural, a modificação da hereditariedade pelo ambiente -, está igualmente recheado de componentes idealistas – quando pressupõe eterna a luta pela existência. Tal dicotomia do darwinismo teria, a seu ver, engendrado duas correntes na biologia moderna: a proletária – concebendo o homem como capaz de transformar os reinos animal e vegetal – e a reacionária – praticada pelos pesquisadores do mundo capitalista, inspirados na moderna genética de base mendeliana, para os quais os gens são invariantes, a não ser no caso de acidentes mutacionais. As teses de Lyssenko são imediatamente apoiadas por Stalin e feitas doutrina oficial da ciência proletária em biologia.
A partir de 1949, o Jdanovismo acirra igualmente, na URSS, a oficialização do pavlovismo, na qualidade de uma espécie de Psicologia Mitchuriniana (ou Lyssenkista): o homem pode transformar o homem através da educação de sementes, ou seja, do condicionamento. Por outro lado, não mais havendo capitalismo nem luta de classes, a loucura deve ter desaparecido. Se tal não ocorreu, trata-se por certo de alguma loucura de etiologia fisiológica ou orgânica. Neste último caso, mais uma vez o mitchurinismo-lyssenkismo será vitorioso, através de seus enxertos medicamentosos. E, se não o for, voltar-se-á à reeducação nos hospitais psiquiátricos oficiais, agora subordinados ao Ministério do Interior. Para os que tiverem este destino, o diagnóstico será, mais tarde, o de esquizofrenia tórpida, sonora expressão criada para designar a dissidência política.
O PCF (Partido Comunista Francês), estrito seguidor do Jdanovismo, pouco ou nada sabe das polêmicas psi do entre-guerras. Mesmo assim, em plena vigência do Plano Marshall, do anti-sionismo e da Guerra Fria, deve condenar a Psicanálise – cuja versão dominante é adaptacionista e anglo-saxônica – e exaltar um Pavlovismo do qual tampouco sabe muito, mas que corresponde à verdadeira psicologia materialista. Ignorando voluntariamente os confrontos que se começam a fazer ouvir entre uma Psicanálise à americana – centrada na valorização do ego, suas defesas e zonas livres de conflito – e as versões oriundas dos primeiros trabalhos lacanianos6 – pretensamente mais fiéis à doutrina e condenadoras dos revisionismos dos psicólogos do ego -, o PCF, na divertida expressão de Roudinesco, “mata dois coelhos de uma cajadada, refutando simultaneamente Viena e a Coca-Cola”(1988, pg.199).
A princípio, L’Humanité dá o tom, num artigo de Guy Leclerc (em 27/01/49) intitulado Psicanálise, ideologia de baixa polícia e de espionagem:
“Ofensiva geral de um imperialismo com a corda no pescoço, tentando destruir o ímpeto do movimento democrático por todo o mundo. Aí está o fato psicanalítico em 1949 (…) Há os que pretendem substituí-lo pelo que pensam ser a psicanálise. Eles fazem pensar naqueles intelectuais de esquerda que declaram gravemente: “Sou socialista, mas nego o socialismo na URSS”. Não existe nenhum outro, a não ser em suas consciências esfumaçadas. O mesmo se dá com a psicanálise: é a psicanálise com tempero norte-americano. Você é socialista? Então é a favor do socialismo soviético. Você é a favor da psicanálise? Então é a favor da psicanálise estilo Yankee. Pois é entre coisas reais que você tem que escolher, e não entre as ideias que você faz das coisas” (apud Roudinesco, 1988, pg.200) [Grifos Nossos].
Também os psiquiatras membros do PCF hão de escolher. Eles são, agora, em número bem maior do que no entre-guerras. Além do mais, muitos estão envolvidos nos processos de renovação da psiquiatria, concebida como Psiquiatria Social e extremamente crítica das versões americanas da Psicanálise. Tentam, inutilmente, distinguir estas últimas da doutrina freudiana, enquanto os ideólogos do PCF desejam a afirmação integral da teoria das duas ciências no campo psi. Victor Leduc é encarregado pelo Partido de convencer os recalcitrantes. Dentre estes, estão alguns psicanalistas da SPP, como Serge Lebovici, Salem Shentoub, Évelyne Kestemberg e Jean Kestemberg, que não aceitam sem réplica os argumentos PCFenses. Lucien Bonnaffé e Louis Le Guilland, membros de Évolution Psychiatrique, embora não sejam analistas, rejeitam igualmente a condenação pura e simples.
Apesar de tantas reservas, o texto condenatório final, na conhecida forma da Autocrítica, será publicado em La Nouvelle Critique, em junho de 1949, sob o título A Psicanálise, uma ideologia reacionária. Assinado por todos os psiquiatras do PCF, só pôde ser redigido após diversos conflitos entre Leduc e os simpatizantes da doutrina freudiana. Estes aceitam finalmente processá-la, sob pena de, caso contrário, ter de abandonar o partido. Não restam muitas dúvidas sobre o caráter totalizante da condenação, quando examinamos fragmentos da versão final:
“(….) o nascimento, o desenvolvimento, a difusão atual da psicanálise estão ligados ao crescimento da luta de classes. Ela se estende por toda parte onde a classe dominante tenha a necessidade de tentar paralisar os esforços da classe ascendente, de acalmar o mal-estar das camadas sociais dilaceradas por uma escolha à qual não podem se furtar”
(…)
“hoje, em 1949, ela não se limita às interpretações, mas intervém diretamente na luta de classes: os movimentos sociais são atribuídos à agressividade ou ao “ressentimento” dos mais jovens, e a guerra ao sadomasoquismo de alguns chefes de Estado (…) Esta intervenção política da psicanálise está implicada em sua doutrina, no individualismo que a funda.
(…)
“…o indivíduo permanece na realidade, dentro de sua concepção, uma espécie de entidade heterogênea à sociedade, outra entidade. É claro que não poderia haver relações dialéticas entre eles. Esta tendência corresponde a uma forma particular da ideologia burguesa de nossa época, que tenta opor a realidade social às exigências psicológicas dos indivíduos. Seu individualismo é um tema de propaganda política, pela qual procura desacreditar o socialismo.” (Bonaffé et al., 1987, pgs.21-24)
Enquanto nos meios comunistas é obrigatório condenar, outros encontros se desenvolvem ao acaso. Em setembro de 1947, Jean Oury, estudante de medicina, se apresenta para cursar o internato em Saint Alban. Indeciso quanto à opção pela carreira médica, tinha passado a frequentar as conferências que se realizavam, a cada semana, na Escola Normal Superior, ligadas aos trabalhos do Hospital de Bonneval e às atividades de Évolution Psychiatrique. Ali encontrara H. Ey, J. Lacan, L. Bonnaffé e Ajuriaguerra. Assistira também a uma conferência de Tosquelles, sobre o qual comentou, anos depois:
“Ele me ficou na memória como um tipo de laço de sapato em torno do pescoço, que gritava, levantava os braços e a cada 30 segundos fazia Humm…!” (Oury, 1978, pgs.10-11)
Durante os meses seguintes, o estudante referiu-se a Tosquelles como “aquele tipo que se chamava Monsieur Humm e metia a dialética em tudo”(ibidem, pg.11) – o que, para Oury, representava uma espécie de traição: a dialética era… a dialética! A princípio, achou tudo aquilo grosseiro e primário, excetuando-se os trabalhos de Lacan e Ajuriaguerra. Este último, com quem Oury começara a preparar o internato, recebeu carta de Tosquelles, que dizia precisar de dois auxiliares para Saint Alban. Na companhia de Robert Millan, Oury decidiu-se a tentar, ainda mais porque não conseguia decidir-se entre a psiquiatria e estudos de físico-química.
Em Saint Alban, Oury se surpreendeu. Pela primeira vez se deparou com cursos para os enfermeiros. Pela primeira vez encontrou um estabelecimento onde todos – inclusive os pacientes – estudavam da Psicologia Infantil (através dos trabalhos de Lacan e Lagache) aos textos dos surrealistas! Ali, com Tosquelles, começou a desenvolver atividades de teatro e a animar o Clube Paul Balvet (ergoterapia, atividades culturais, esportivas, estéticas, de lazer, etc…). Ficou dois anos em Saint Alban e, entre 1948 e 1949, muitas vezes partiu com Tosquelles para as montanhas a fim de atender casos mais complicados, no que já constituía o primeiro esboço da Psicoterapia de Setor7.
Em 1949, após uma discussão com Tosquelles acerca da autoria de um trabalho, Oury aceita um convite para trabalhar mais perto de Paris, visto que desejava analisar-se com Lacan. A clínica de Saummery, em Blois, ainda estava, então, bastante abandonada. Durante a guerra, sob pressão dos nazistas, metade dos pacientes fora deixada à própria sorte e a outra metade, deportada para campos de prisioneiros. Entre 1949 e 1950, Oury esteve praticamente sozinho na tarefa de reanimar a clínica, no que mais tarde chamou período “Huis Clos”, numa clara referência à peça de Sartre. Contudo, a partir de então, Saummery transformou-se numa “Praça Pública”. Através de contatos com Paris e da vinda, em seu auxílio, do irmão Paul Oury, as pessoas começam a acorrer . Dentre elas, ao final de 1950, um jovem de vinte anos que fora aluno de seu outro irmão, Fenand Oury, chamado Pierre-Felix Guattari. Jean Oury o conhecia desde 1945, época em que, aos quinze anos de idade, Guattari militava em favor da organização dos albergues da juventude. Ao procurar o jovem psiquiatra em Saummery, Felix buscava orientação e mesmo uma terapia, pois lhe desagradavam os estudos de farmácia que a família o forçava a empreender. Acerca do encontro, Jean Oury comentou muitos anos depois:
“Minha concepção de psiquiatria, enraizada no social e no político, lhe interessou muito, mas eu não podia estar no mesmo nível dentro do social e lhe propus, então, ocupar esta função. Foi uma espécie de contrato que então fizemos. Ele respeitou esse contrato até seu último dia de vida” (Oury, 1992, pg.35).
À praça pública Saummery acorreram também Fernand Oury e muitos outros colaboradores, quase todos sem qualquer inserção anterior na prática psiquiátrica. Entre 1951 e 1953, desenvolveu-se um processo de formação com este “grupo de iniciação”, à base de leituras e debates não só “psi” como políticos, sociológicos, filosóficos, etc… Saummery acolhia muitos pacientes, sendo a única clínica da região de Loir-et-Cher. Havia poucos neurolépticos disponíveis na época, mas o eletrochoque e, principalmente, a insulinoterapia, não eram rejeitados como forma de tratamento. Não se implementava, propriamente, qualquer forma de Psicoterapia Institucional até 1952. Quando Oury se põe a praticá-la, é rapidamente substituído por outro psiquiatra, embora tivesse conseguido reduzir o número de pacientes a apenas 7 ou 8, em lugar dos 40 habituais.
Saindo em busca de outro local de trabalho, encontra, em março de 1953, o Castelo de La Borde, em Cour-Cheverny, não longe de Saummery e de Paris. No mês seguinte, Oury e a maior parte de sua equipe entram na nova clínica, sem dinheiro e sem pacientes. Mas estes logo chegarão, assim como “as pessoas”. Muitas outras pessoas de Paris virão, a partir de 1955, para encontrar… Felix Guattari! Acerca desta circunstância, observou J. Oury:
“Ele tinha uma enormidade de amigos e trouxe para cá uma população incrível, etnólogos, psicólogos, filósofos como Lucien Sebag, François Châtelet, Michel Cartry (…) ou ainda Pierre Clastres. Viajava sem cessar. Era um “passeur”8, uma verdadeira encruzilhada”(ibidem, pg.36).
A partir de 1953, La Borde representará o principal foco de difusão da Psicoterapia Institucional, superando Saint Alban em prestígio. Mas já se prepara a cisão da vertente, que acompanha outros esfacelamentos nos campos da política e da psicanálise.
Senão vejamos. Em 1948, no Congresso de Higiene Mental de Londres, a maior parte dos psicanalista franceses apóia o violento anticomunismo que caracteriza as associações internacionais. Benjamin Logre, por exemplo, declara que se deve estender o divã ao mundo inteiro, aludindo a Stalin como principal paciente. Em 1949, o PCF realiza o processo da Psicanálise. A partir de 1953, assistem-se às rupturas no seio da IPA (International Psychoanalytical Association) e aos descaminhos – discursivos e bélicos – do PCUS.9
Enquanto nas experiências de Saint Alban e no começo dos trabalho de La Borde mesclavam-se materialismo – via pavlovismo dos comunistas -, Psicanálise, e mesmo Fenomenologia alemã e Psicologia da Gestalt – antigas referências de Tosquelles -, a partir do período 53/56 estas misturas começam a parecer absurdas de um ponto de vista simultaneamente político e teórico. Encerra-se, assim, aquilo que R. Castel (1978, pgs.154-156) denominou “Psicoterapia Institucional primeira fase” – eclética, com dominante marxista e presença intensa de militantes comunistas – e se passa, principalmente a partir de 1958, à “segunda fase” – diretamente influenciada pela Psicanálise Lacaniana, tendo o Discurso de Roma10 como manifesto e Tosquelles como líder. Esta espécie de nova esquerda da Psicoterapia Institucional está inteiramente desvinculada do Partido Comunista.
Sobre as características da segunda fase, onde a Psicanálise é hegemônica, vale destacar as palavras de Tosquelles que, distinguindo a cura dos dispositivos de socialização característicos da primeira etapa, acentua o vínculo entre os conceitos de instituição e inconsciente. A socialização passa a ser, desde então, simples suporte da cura, que implica a análise de uma fantasmática. Faz-se, assim, da instituição
“um lugar onde a polifonia da fala seja, como na Psicanálise, um instrumento de transformação, fazendo surgir o sujeito e não o ego, com seu sistema de apoio no estatuto socio-profissional” (apud Guattari, 1981, pg.103).
Saltam aos olhos duas características nesta definição: por um lado, a tentativa de teorização rigorosa da cura com apoio no estatuto da linguagem; por outro, a crítica dos colonialismos – o do ego, em âmbito subjetivo; o do estatuto socio-profissional, no das relações intersubjetivas. Das articulações e/ou separações entre estes dois aspectos se constituirão, ao menos em parte, os regimes de verdade, prática e subjetivação característicos do período 1956-1968 na França, quando o Estruturalismo, por um lado, e as Análises Institucionais, por outro, ganharão cartas de cidadania na intelligentzia. Mas esta já seria uma outra história…11
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os setores da reforma psiquiátrica brasileira apelidados “críticos” ou “mais avançados” parecem, por vezes, encontrar-se situados nos arredores de uma tênue linha divisória. Podemos ilustrar esta situação através de alguns fragmentos do excelente livro de Jairo Goldberg, intitulado Clínica da Psicose. Ali, já na introdução, enfatiza-se a necessidade de considerar o suposto doente “numa malha de relações psicossociais”, o que impossibilita “fazer a definição de doença anteceder ao surgimento do paciente em suas circunstâncias.”(Goldberg, 1994, pg.21) Mais adiante, designando como “projetos” (em lugar de “modelos”) os equipamentos construídos em consonância com tal lógica, o autor frisa que o termo escolhido visa a preservar o caráter processual da abordagem. Sendo assim, é possível entender que um projeto “só pode constituir seu objeto (…) na medida da constituição de suas práticas” (ibidem, ibidem). No entanto, na mesma página, Goldberg corre o risco de colocar-se do outro lado da linha, e isto exatamente no momento em que divisa a importância de constituir uma clínica coerente com o novo campo teórico-político proposto. Em suas palavras, esta clínica “tomaria a fala do paciente não pelo reconhecimento do sintoma, mas como produção de um sujeito social dentro dos limites, certamente problemáticos, que a loucura impõe” (ibidem, ibidem. Grifos nossos).
Resumindo, em nossas formulações próprias, as duas posições adotadas, diríamos: por um lado, Goldberg afirma um dispositivismo radical – apenas as práticas, discursivas e não-discursivas, constituem um objeto de saber e intervenção; por outro, assedia um resíduo naturalizado – pois o que seriam os “limites certamente problemáticos que a loucura impõe”…. senão a própria loucura, aqui “em estado livre”, independente das práticas (ou dos processos)? Os alegados limites problemáticos não estariam reintroduzindo, pela porta dos fundos, exatamente o “quadro sintomatológico”, o “modelo” que se deseja expurgar?
Aplicando este raciocínio ao tema de nosso artigo – a Psicoterapia Institucional francesa -, indagamos: qual seria o objeto da mesma – no caso, um modo de subjetivação – se considerada, como o tentamos fazer, em seu caráter radicalmente processual, ou seja, quando se evita desvincular a gênese teórica da gênese sócio-histórico dos conceitos? As respostas são múltiplas, pois este objeto pode ser: a resistência ao fascismo político e científico num front de luta (Saint Alban durante a guerra); a aliança num processo de questionamento generalizado das hierarquias fascistizantes (Saint Alban no imediato pós-guerra); a subjetividade entendida como uma fantasmática, inclusive manicomial, falante (Saint Alban e La Borde após a cisão do movimento); a subjetividade entendida como uma fantasmática, inclusive manicomial, falante, sob condições determinadas de medicalização (após a entrada em cena dos neurolépticos), etc., etc…
Se estas precisões não são estabelecidas, a Psicoterapia Institucional se torna modelo de ação psiquiátrica, por mais que a desejemos associar a um processo de experimentação vital e conceitual. Por este motivo, julgamos que se deve cruzar a linha, ao invés de habitar timidamente seus arredores. E, neste sentido, o modo como certo anarquista catalão atravessou os Pirineus nos poderá servir, indubitavelmente, de radical inspiração.
NOTAS
- Évolution Psychiatrique é a denominação de uma sociedade fundada na França em 1925, assim como da publicação por ela editada. As investigações e publicações se situam no limite entre psiquiatria e psicanálise, em especial na contribuições da última à primeira. Após a interrupção devida à guerra, a revista reapareceu em 1947 sob a direção de E. Minkowsky e H. Ey, expressando aspirações reformadoras no meio psiquiátrico francês. Acerca de Évolution Psychiatrique pode-se consultar Roudinesco,1989, pgs. 422-441.
- A partir de 1936, a Espanha esteve, por três anos, mergulhada na Guerra Civil. Após a vitória eleitoral de uma coalizão de esquerda, rebela-se uma parte do exército, sob o comando de Franco. Os conflitos, extremamente violentos, engajaram cidadãos de todo o mundo: voluntários que lutavam por uma Espanha livre e democrática, contra o fascismo franquista. A Guerra da Espanha, encerrada em 1939 com a vitória militar do franquismo, desempenhou papel analisador das forças políticas em ação no pré-guerra. O Partido Comunista Francês, a princípio submetido à política soviética de não-intervenção, não permitia que seus quadros fossem à Espanha, exceto no caso de poderem alegar alguma contribuição técnica. Somente a partir de 1937 a União Soviética colaborou abertamente com o envio de aviões e armas. No entanto, esta colaboração custou a prisão e mesmo a vida de milhares de anarquistas da Catalunha, que propugnavam pelo autonomismo e não desejavam submeter-se à disciplina stalinista. Na época, o P.O.U.M. (Partido Operário de Unificação Marxista), de inspiração trotskista e, portanto, não alinhado com o KOMINTERN, foi decapitado, sendo quase todos os seus dirigentes enviados às prisões da G.P.U. (Polícia Secreta Soviética), que acertava, em solo espanhol, suas contas políticas com os adversários de Stalin. Acerca do tema, pode-se consultar Broué (1982) , bem como assistir ao filme Terra e Liberdade, de Ken Loach.
- A expressão só foi cunhada posteriormente, pois aparece pela primeira vez no artigo La Psychothérapie Institutionelle Française, de Daumezon e Koechlin, publicado em Anais Portugueses de Psiquiatria, nr. 4, dez/1952.
- Sob a influência americana, a concepção hierárquica vigente nas indústrias francesas começou a ser contestada e paulatinamente substituída por um estilo menos rígido. As obras de sociólogos e psicossociólogos americanos passaram a ser traduzidas para o francês e difundidas, especialmente, por R. Mucchielli e G. Palmade.
- Politzer, inicialmente interessado em psicologia, publica, em 1928, Critique des fondements de la Psychologie, livro no qual lança as bases do que denomina Psicologia Concreta, síntese crítica de Gestaltismo, Behaviorismo e Psicanálise, todos purgados de seus excessos de abstração. Após 1929, passa a demonstrar desprezo pela mesma Psicanálise que chegara a admirar, optando por um marxismo no qual encontra certezas e renunciando, por esta via, às pesquisas psi. Acerca das relações entre Politzer e a Psicanálise, veja-se Roudinesco, 1988, pgs. 72-82.
- Dentre estes primeiros trabalhos, destacamos a tese de doutorado, anteriormente citada, e mais: Le Stade du Miroir. Théorie d’un moment structurant et genetique de la constitution de la realité, conçu en relation avec l’experience et la doctrine psychanalitique (apresentado no Congresso de Marienbad, 1936); Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je (Congresso de Zurich, 1949).
- A setorização só se tornou a organização oficial da política de saúde mental na França a partir de 1960. Em sentido estrito constitui uma política de assistência que tem por base um recorte territorial – o “setor” – com cerca de 67.000 habitantes, ao qual se vinculam uma equipe psiquiátrica e um aparato institucional completo. Estes se encarregam da prevenção, tratamento e acompanhamento das chamadas doenças mentais.
- Passeur = barqueiro, contrabandista.
- Em 1953, os tanques soviéticos invadem Berlim Oriental. Em 1956, é a vez da ocupação soviética em Budapeste, pouco tempo depois da leitura, no XX Congresso do PCUS, do famoso Relatório Kruschev, no qual se denunciam os crimes do stalinismo (processos forjados, assassinato de adversários políticos, campos de concentração)
- Por Discurso de Roma aponta-se ao trabalho Função e campo da fala e da linguagem em Psicanálise, lido por Lacan no Congresso da IPA de 1953, após a ruptura entre a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP) e a SPP.
- Para uma periodização destes regimes e desenvolvimento do tema apontado, pode-se consultar Rodrugues, H.B.C.- As subjetividades em revolta: institucionalismo francês e novas análises.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Heliana de Barros Conde Rodrigues: Professora do Departamento de Psicologia Social e Institucional do Instituto de Psicologia da UERJ. Pesquisadora do Projeto Integrado Saúde mental, desinstitucionalização e abordagens psicossociais.
FONTE
RODRIGUES, Heliana de Barros Conde . Um anarquista catalão: aventuras do freudo-marxismo na França. CADERNOS DE PSICOLOGIA (UERJ) , Rio de Janeiro, v. 8, p. 151-170, 1998.