UMA CONSTRUÇÃO PERMANENTE: Jean Oury sobre Félix Guattari

O psiquiatra Jean Oury havia levado Guattari consigo, desde 1953, na aventura da clínica de La Borde.

Fundador em 1953, da clínica de La Borde, perto de Blois, o psiquiatra Jean Oury conhecia Félix Guattari há mais de 45 anos. Quase meio século de amizade e colaboração profissional, cujo epílogo teve lugar no sábado de manhã, na própria clínica, quando Jean Oury descobriu o corpo inanimado de Félix Guattari em seu quarto.

Testemunho: Conheci Félix Guattari em 1945 por intermédio de meu irmão Fernand, professor primário de quem Félix havia sido aluno. Félix tinha 15 anos e eu 21. Ele militava em um movimento nascido logo após a guerra, a favor dos albergues da juventude. Era, já, um rapaz curioso com relação a tudo, imaginativo, cujas ideias políticas eram engajadas, e que se interessava tanto pela ciência quanto pela música. Alguns anos mais tarde, no fim do ano de 1950, quando eu trabalhava em uma clínica psiquiátrica de Loir-et-Cher, ele veio me ver, bastante desorientado. Sua família o havia compelido a empreender estudos de farmácia, o que não o agradava nem um pouco. Ele continuou comigo, nós conversamos bastante, eu o encoragei a mudar de via.

Minha concepção de psiquiatria, enraizada no social e no político, o interessava muito, mas eu não podia estar por inteiro no social e, por conseguinte, propus-lhe ocupar essa função. O que nós fizemos foi firmar uma espécie de contrato. Ele respeitou esse contrato até o seu último dia. Tivemos desacordos, mas isso fazia parte do contrato. Ele se instalou em La Borde em 1955, mas já estava lá desde 1953. Félix era um ‘animador’¹ incansável. Tinha muitos amigos e trouxe aqui uma população incrível, etnólogos, psicólogos, filósofos, como Lucian Sebag, François Châtelet, Michel Cartry, do Hautes Etudes ou, ainda, Pierre Clastres. Ele viajava sem cessar. Era um passeur², um verdadeiro entrecruzamento³.

Ele tinha uma forma muito particular de intervenção. Levava muito em conta, no seu trabalho, problemas de alienação e de inserção social. O inconsciente, no sentido freudiano, parecia-lhe muito fechado ao social e sua prática o havia reforçado na convicção de que essa palavra recobria bem mais que a sua tradicional acepção psicanalítica.

Aos sessenta anos ele era o mesmo que aos 15. Nunca mudou: aparentemente sonhador, mas extremamente atento, retendo tudo com uma falsa displicência e de uma presença extraordinária. E sempre a mesma simplicidade adolescente. Ele nunca se tornou ‘senhor isto’ ou ‘senhor aquilo’. Não dava a mínima bola para isso. O que lhe interessava era a pesquisa. Era muito obstinado, sempre pronto, sempre aberto. Era como uma construção permanente, que havia dado e iria dar coisas magníficas.


NOTAS

1. No original, animateur. O termo refere-se a ‘coordenador de grupos’, como também a alguém que ‘faz acontecer”, que ‘fustiga’ atividades etc., além dos significados usuais.
2. No original, que significa: barqueiro que se encarrega da passagem de pessoas e coisas de uma margem para outra de um rio.
3. Carrefour, no original.


FONTE

Dossiê Guattari. Cadernos de Subjetividade, v. 1, n. 1 (1993).

Jean Oury sobre Félix Guattari

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